Os escritores e as cidades

Ciberescritas
isabel.coutinho@publico.pt

Esta crónica “pega um pouco” a da semana passada. Isto porque acho que há muito mais para dizer sobre Amores Expressos e sobre os 16 escritores brasileiros que participaram neste projecto.
“Se há uma marca que defi ne a literatura do nosso tempo, é a multiplicidade de estéticas e propostas que convivem no mesmo tempo e espaço”, lê-se no “site” do projecto literário brasileiro Amores Expressos. Foi por isso que o produtor Rodrigo Teixeira (que fi cou conhecido pela colecção Camisa 13, em que pediu a escritores brasileiros que escrevessem sobre futebol) teve agora a ideia de propor a 16 autores brasileiros, de diferentes gerações, que escrevessem histórias de amor com uma cidade a servir de cenário e inspiração para as narrativas. Enviou-os, isolados, por um mês, para várias cidades espalhadas pelo mundo. Acreditava que o conjunto fi nal dos textos formaria “um rico mosaico literário, retratando em diferentes instantâneos o estado das relações e do amor contemporâneo pelo planeta.” Foram escolhidos (o coordenador editorial do projecto é João Paulo Cuenca, que entrevistámos para esta edição) desde escritores consagrados como Sérgio Sant’Anna e Bernardo Carvalho, até escritores que nunca tinham publicado um romance e foram descobertos por terem publicado contos e outros textos em revistas literárias. A editora brasileira Companhia das Letras associou-se, publicará os livros. E durante toda a permanência dos escritores nas cidades, cada um manteve um blogue e depois foi feito um DVD, com documentários de todas as experiências.
Já foi publicado no Brasil o primeiro livro associado a Amores Expressos: “Cordilheira” de Daniel Galera, Prémio Machado de Assis 2008. Daniel Galera esteve em Buenos Aires e escreveu no seu blogue, no seu diário de bordo, “Já de volta a São Paulo, ruminando fotos e memórias. Tenho uma história rabiscada na mente.
Acho que ela poderia se passar em qualquer lugar, mas se passará em Buenos Aires, uma cidade de carnes tenras, mulheres elegantes e ruas planas que mimam os andarilhos com cafés e livrarias inesgotáveis.” Agora vai ser publicado o livro de Bernardo Carvalho, que se passa em São Petersburgo. Cuenca, que já leu, diz que é excelente, “o melhor livro dele.” Basta ir espreitar o seu diário de bordo na Internet para ter a certeza que isso só pode ser verdade: “Começo a me dar conta de outra São Petersburgo. Em parte, graças ao Maxim, que é um sujeito muito peculiar.(…) Estudou cinema, em Moscou, com Marlen Huciev, cineasta soviético contemporâneo de Tarkovski. Uma noite, no hotel, em Moscou, liguei a TV e dei com a cena de um fi lme em preto e branco, dos anos 60, em que um grupo de jovens (Tarkovski entre eles) falava alto, recitava poemas, dançava, e passava do riso ao choro sem tomar fôlego, como parece ser costume entre os russos, bipolares intempestivos. Como não falo russo, não entendi bulhufas do que diziam. Mas tampouco consegui desgrudar os olhos da TV. A cena era estonteante. Era incrível que aquele filme tivesse sido feito na União Soviética dos anos 60. A influência da nouvelle vague era clara. Mas havia outra coisa, uma melancolia, um peso, um desencanto, que os filmes da nouvelle vague não têm. Só ontem, o Maxim me esclareceu que a cena que eu vi é de um filme célebre do Huciev. O Maxim é um cara sabido e estranho.” Sérgio Sant’anna esteve em Praga, Luiz Ruff ato em Lisboa, Joca Reiners Terron no Cairo, Amilcar Bettega em Istambul, Adriana Lisboa em Paris, Paulo Scott em Sydney e como ainda não temos os livros, resta-nos ler os seus apontamentos de viagem na Internet.

Amores Expressos

http://www.amoresexpressos.com.br/

(Crónica publicada no ípsilon de 27 de Fevereiro de 2009)

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