Os novíssimos

Ciberescritas

Isabel.Coutinho@publico.pt

Era assim uma coisa muito improvável de acontecer. Mas ali estavam todos à nossa frente, na Casa Fernando Pessoa, era terça-feira à noite. Os “novíssimos” da literatura portuguesa e brasileira: José Luís Peixoto e Amilcar Bettega (a lançar “Os Lados do Círculo” – ed. Caminho, o seu livro de contos, Prémio Portugal Telecom de Literatura 2005); Gonçalo M. Tavares e Daniel Galera; Ondjaki e José Paulo Cuenca.
Embora alguns já não sejam tão novíssimos como isso – uns começaram a publicar no século XX, outros no século XXI. E antes de serem jovens, lembrou Ondjaki, que como sempre disse coisas acertadas, são escritores. Este escritor angolano que acaba de lançar o livro de poemas “Materiais para Confecção de um Espanador de Tristezas” (ed. Caminho) estava ali para apresentar “O Dia Mastroianni” (ed. Caminho), romance do brasileiro João Paulo Cuenca (ver “O diabo do Cuenca”, PÚBLICO, 23 de Fevereiro de 2008) que relata 24 horas da vida de pândega de Pedro Caçavas e Tomás Anselmo, “comparsas de tédio” como alguém já disse, “retrato de uma geração”.
No início do livro, a cidade parece-se com o Rio de Janeiro (que já foi tão filmado, cantado e escrito, lembrou Ondjaki) mas lá mais para o fim entra num mosaico de diferentes cidades. “Oitenta por cento do livro é narrado na primeira pessoa e pode ser até que ele se drogou e está numa cidade completamente diferente”, explicou Cuenca – um dos 39 escritores com menos de 39 anos escolhidos pelo Hay Festival na sua iniciativa Bogotá 39, que seleccionava aqueles que consideravam “ter talento e potencial para definir as tendências que marcarão o futuro da literatura latino-americana”. João Paulo fez na Internet um diário do “processo de edição e finalização” do seu primeiro livro, enviava por e-mail aos amigos aquilo que ia escrevendo e em 2000 criou um blogue que agora renega. Agora tem o Blog de Anotações, onde coloca as suas crónicas semanais que publica no jornal “O Globo”.
Também Daniel Galera começou na Internet. Ficou conhecido por ser “colunista” do “fanzine electrónico” Cardosonline, que também revelou Clarah Averbuck e Daniel Pellizzari. Estava na mesa a lançar o seu romance “Mãos de Cavalo” (ed. Caminho) apresentado por Gonçalo M. Tavares. Acompanhamos várias fases da vida do protagonista de “Mãos de Cavalo”. Ora é um garoto de 10 anos, um adolescente de 15 ou um cirurgião plástico entediado na idade adulta. Mas sempre um rapaz que se sente atraído pela possibilidade da queda, por se “arrebentar no chão”, um rapaz pronto para sangrar, era aliás esse o seu talento.
Um livro onde a infância é passada a andar de bicicleta e onde se passa a idade adulta enfiado dentro de um carro. “Um livro sobre a queda”, disse Gonçalo. Daniel tem um site: Rancho de Carne. E acordou para Fernando Pessoa quando o viu a recitar poemas num livro aos quadradinhos.
O ano passado Daniel Galera publicou “Cordilheira” (Prémio Machado de Assis) que é um romance que se passa em Buenos Aires. Este livro foi o primeiro a sair do projecto Amores Expressos, que enviou 17 escritores brasileiros para 17 cidades durante um mês e os livros serão publicados pela Companhia das Letras. Galera foi para Buenos Aires, Cuenca para Tóquio. Tinham que escrever uma história de amor.

Ondjaki
http://www.kazukuta.com/ondjaki/ondjaki.html

Blog de Anotações
http://oglobo.globo.com/blogs/cuenca/

Rancho de Carne
http://www.ranchocarne.org/

Amores Expressos
http://www.amoresexpressos.com.br/

(Crónica publicada no ípsilon de 20 de Fevereiro de 2009)

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