É a nossa vida

Ciberescritas

Isabel.Coutinho@publico.pt

Não há dúvida nenhuma de que os tempos estão difíceis. E esta semana isso ficou mais claro. De repente, mesmo aqueles que pensam que escapam acabam por se confrontar com a dura realidade. Basta ver o que aconteceu a Sara Nelson, famosa jornalista e crítica literária norte-americana e “editor-in-chief” da “Publishers Weekly” (PW), a revista lida por editores e agentes literários de todo o mundo.
“Podem chamar-me crédula ou impressionável, mas esta semana sinto uma certa esperança”, escrevia ela, na sua coluna semanal colocada segunda-feira no “website” da “Publishers Weekly”. Este alento vinha-lhe da chegada de Barack Obama à Casa Branca, de acreditar que os despedimentos no mundo da edição estariam a chegar ao fim, pelo menos por uns momentos… Mas o destino prega partidas: nessa mesma segunda-feira, o blogue Arts Beat do jornal “The New York Times” noticiou que Sara Nelson tinha sido despedida na sequência da reestruturação que o grupo Reed Business Information – que possui também a revista “Variety” – está a fazer. Não só ela, mas também Daisy Maryles (editora executiva) e os editores Elizabeth Devereaux e Kevin Howell da “PW”.
Nos últimos quatro anos, Sara Nelson, 52 anos, foi a cara da “PW”. Quando entrou para a revista, em Janeiro de 2005, tinha muitas ideias (nessa época deu uma entrevista ao Mediabristo que ainda pode ser lida online) e sabia que tinha um grande desafio pela frente. O ano passado, divulgou agora o site BookBrunch, Sara propôs que o “Library Journal” (para bibliotecários) e o “School Library Journal” fossem integrados na “Publishers Weekly”, para que se poupasse dinheiro. Antiga crítica literária, ficou conhecida pelas suas colunas de opinião quer no “The New York Post” e no “The New York Observer”. Nas crónicas que assinava na “Publishers Weekly”, e que podem ser lidas “online”, ia traçando algumas das tendências do mundo da edição e era sempre implacável nas críticas que fazia ao sector. Por vezes, era polémica.
Nas feiras do Livro de Frankfurt, de Londres e na Book Expo America, sempre que o seu nome aparecia num debate as salas enchiam. Era também ela quem divulgava os Quill Awards e é autora do livro “So Many Books, So Little Time: A Year of Passionate Reading” (ed. Putnam, 2003).
Na última crónica à frente da “PW” conta que durante uma festa um amigo lhe deu a ideia de criar uma nova rubrica no “site” da revista com participação directa dos leitores. Tinha como título “Review It Yourself” (critique você mesmo) dando a possibilidade aos leitores de fazerem recensões de livros que tinham sido publicados em edição de autor. Dizia também que tinha passado o fim-de-semana a ler livros. Para alguns isso até pode ser considerado um “fim-de-semana de trabalho”, escrevia, “mas trata-se da edição: é a nossa vida”. E terminava a crónica dizendo: “Apesar de tudo, as pessoas dos livros são as pessoas dos livros são as pessoas dos livros – e nem a recessão ou a depressão ou as preocupações vão mudar isso.” (“Book people are book people are book people, after all-and no amount of recession or depression or worry will ever change that fact.”)

Crónicas de Sara Nelson na “Publishers Weekly”
http://www.publishersweekly.com/Community/Sara+Nelson/47210.html

Arts Beat
http://artsbeat.blogs.nytimes.com/2009/01/26/top-editor-at-publishers-weekly-is-laid-off/

BookBrunch
http://www.bookbrunch.co.uk/

MediaBristro.com
http://www.mediabistro.com/articles/cache/a3611.asp

Crónica publicada no ípsilon de 30 de Janeiro de 2009

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