Buchholz? Qual quê! Nós tínhamos a Leitura!

O João Villalobos lançou o desafio e quer que se fale da Buchholz.

Mas eu não consigo falar da Buchholz. Eu sou uma rapariga do Porto. E no Porto, nunca houve uma Buchholz. Nem era preciso: no Porto tínhamos a Leitura.

E até houve uma época em que havia não uma, mas duas Leituras. A tradicional da Rua de Ceuta e a Leitura Arte no centro comercial da Rua José Falcão. E anos depois, em 1987, abriu outra Leitura na Casa de Serralves. Mas dessa já não tenho recordações nenhumas bem como de uma data delas que depois surgiram.

Em 1994 fizeram as obras e a livraria aumentou. Nessa altura eu já estava há anos em Lisboa, mas quando lá voltei a entrar percebi que em Lisboa não havia nada assim.

Eram outros tempos aqueles em que eu era uma rapariga do Porto. Há quase, quase 20 anos que sou uma rapariga de Lisboa. Mas nunca senti pela Buchholz ou por outra qualquer livraria lisboeta a atracção que sentia pela Leitura.

A Leitura era um vício. E não era só meu, era uma coisa de família. O meu pai, que era médico, tinha o seu consultório em frente à Leitaria da Quinta do Paço, a poucos metros da livraria da Imprensa Nacional e a mais alguns da livraria Leitura. Chegava muitas vezes a casa carregado com livros. Alguns tinham ficado encomendados na Leitura, outros eram sugestões do livreiro Fernando Fernandes, seu amigo.

Quando vim para Lisboa tive que me adaptar a outras livrarias: vagueava muitas vezes pelos andares da Arco-Íris, muito pouco pelas escadas da Buchholz. Nunca me habituei. Não havia Buchholz que fizesse sombra à Leitura. E o Porto fica aqui tão perto.

Esta história vocês já sabem acaba mal. No ano em que decidi que entre ir com os meus amigos passar férias ao Vietname ou comprar um computador XPTO, era melhor ficar em Lisboa na companhia do computador novo: a minha vida nunca mais foi a mesma.

O senhor Jeff Bezos lançou a Amazon.com em 1995 e desde aí passei a comprar livros através da Internet. A Amazon matou todas as Buchholz e Leituras desta vida.

No início deste ano passei uma grande temporada no Porto. Um dia resolvi meter pés ao caminho e fui passear na Baixa de livraria em livraria. Fui à Leitura, claro. Já tinha sido adquirida pela Civilização. Fugi de lá o mais depressa que pude.

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6 comentários a Buchholz? Qual quê! Nós tínhamos a Leitura!

  1. Sou de Aveiro. Adoro livros e cada vez mais as velhas livrarias que teimosamente vão aguentando as pressões daqueles “supermercados” de livros, cd´s, computadores a mais uma infinidade de tralha que o “Tuga” gosta.
    Não compro os meus livros na Fnac e também deixei de comprá-los na Bertrand porque cheguei à belíssima conclusão de que estava a embarcar na estupidez. Chamem-lhe bairrismo, nacionalismo, carolice, o que quiserem mas, sou de opinião de que estas velhas livrarias dependem de nós (leitores) e mantê-las “vivas” é muito fácil. – Entrem e comprem o livro que viram naquelas “outras”, pois é o que eu faço sem me doer a consciência.
    Há dias, na praça Marquês de Pombal em Aveiro vi uma nova montra com livros que me despertou a atenção. Que coisa seria aquela, já que ultimamente as únicas lojas que abrem são as dos chineses!
    Era a nova “Dama Aveirense”. – Uma livraria Buchholz.

  2. Brasileiro, gaúcho do Rio Grande. Li os comentários que fazem sôbre a livraria Buchholz, só com êste nome já seria ótima, mas vi que algumas pessoas menospresaram o talento de seu proprietário. Fica aqui o meu protesto. Um abraço a todos.

  3. Eu conheço a Buchholz. E conheço a Leitura, em tempos a melhor livraria deste pequeno país, apesar do nome óbvio. Comparar as duas é impossível. A Leitura foi um impulsionador das mentes mais brilhantes que este país produziu. Aqueles, mesmo de Lisboa, que a conheceram voltavam uma ou duas vezes por ano para ver o que todas as outras se esqueciam de encomendar, porque não era económicamente viável, ou não tinha mercado. Nunca conheci nenhum Portuense desejoso por voltar à Bucholz ou que esta abrisse cá no Porto. No nosso provincianismo, ou insularismo, temos o hábito de gostar do melhor. A Bucholz não poderia fazer frente. Falar da Leitura é falar de tudo o que um bom livreiro deve ser, de tudo o que o mundo do livro deve aspirar. Demasiado texto para um comentário. E agora a Leitura morreu. Definhou e morreu. O mercado falou mais alto. Num país que define FNAC como uma boa livraria (custa-me repetir comentários que juntem melhor e fnac na mesma frase), não há espaço para as Leituras deste país. Venceu o mercado e tristemente perdemos todos nós. As boas qualidades da Buchholz relatadas pelo comentário anterior só podem ser escritas por alguém que não conheceu a leitura, pois não são de forma alguma contraponto, mas sim similitudes. A diferença? Os livreiros no sentido real da palavra, nas pessoas que respiravam livros 24 horas por dia, no local de encontro de intelectuais, escritores, poetas, ensaístas arquitectos, pintores, fotógrafos, filósofos, alfarrabistas, pensadores e puros admiradores desse mundo incrível que é o livro

  4. Ao Porto fez falta não ter uma Buchholz, mas como não dão pela falta porque não se deram ao trabalho de a conhecer, com o seu insularismo preferem a prata da casa. Fazem muito bem.
    A Leitura, para Portugal iliterato e atrofiado, nem era nada má como livraria. Pena o nome tão óbvio, mas isso inscreve~se no gosto forte pelo óbvio que se tem no Norte. Nada de subtilezas. Poderia lá chamar-se Submarino.
    Não é que a Buchholz prime também por uma farândola semântica inesperada, por um golpe de rins genial no nome. Não, de todo. Tem, teve um nome deprimentemente alemão, tão óbvio como a Leitura. Mas tinha um ar late fifties, madeiras, um vão alto, possibilidade de uma pessoa se sentar e ficar a ler, uma secção de música com óptima música clássica. Quando abriu era um fulgor. Envelheceu como uma Lady, com discreto brilho e bom gosto sempre a tender para o sublime. As montras da Buchholz, temáticas, numa montra que era pequena, eram umas verdadeiras jóias. Sóbrias, requintadas, uma delícia que se renovou anos a fio.
    Eu nos passeios nocturnos, a pé, frequentes, desviava-me sempre para ver a montra da Buchholz. Fazia window shopping. Os livros eram caríssimos. Os livros bons sempre o foram, mas gostava de vê-los, mesmo sabendo que só uma vez por ano poderia levar um daqueles livros e não a montra toda.
    Que estava cheia de professores universitários? Pois estava, mas eu nem dava por eles. E as Fraulein eram simpáticas, guardavam livros por um mês, se se dizia agora não tenho dinheiro para isto. E havia um escadote utilizável pelos clientes, caso quisessem. Assim li nas alturas Malebranche e Spinoza, Pascal e tutti quanti.
    E agora ultimamente estava a ficar com um charme désuet, intolerável para o tsunami de não-elitismo que por aí varre as mentes nacionais.

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  6. Ora eu que sou um homem do Porto, também entendo que é difícil recuperar o ambiente da antiga Leitura (hoje Bulhosa/Leitura)qualquer que seja a livraria que se frequente.

    O Sr.Fernandes e a sua excepcional equipa faziam com que a aquisição de um livro, se tornasse – numa manifestação de cultura e acto de grande satisfação pessoal.

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