É possível acompanhar o Dickens 2012 Literature Seminar organizado pelo British Council sem estar em Berlim. O evento que começou ontem à noite e termina amanhã está a ser transmitido pela Internet em http://www.bcstream.de/
É possível acompanhar o Dickens 2012 Literature Seminar organizado pelo British Council sem estar em Berlim. O evento que começou ontem à noite e termina amanhã está a ser transmitido pela Internet em http://www.bcstream.de/
A escritora A. S. Byatt bem que podia ser contratada para ser a voz do audiolivro Great Expectations de Charles Dickens. Hoje, em Berlim, no Dickens 2012 Literature Seminar, Byatt encantou a plateia (que encheu o auditório da Bertelsmaan) ao ler o primeiro capítulo do livro que tanto a impressionou quando o leu, pela primeira vez, em criança.
NA CAPA
Guimarães, com um pé no que já foi e outro no que vai ser
Uma cidade em reconstrução a partir das ruínas da indústria têxtil
Com a crise das indústrias tradicionais, Guimarães perdeu uma das suas referências identitárias. Nos últimos anos, foi a cultura a tomar esse lugar numa cidade que quer ser capaz de fixar artistas e criativos. A Capital Europeia da Cultura, que amanhã começa, é apenas mais uma etapa de um processo de reconversão que não quis fazer tábua rasa do passado industrial, mas sim renascer com ele. Por Samuel Silva (textos) e Adriano Miranda (fotografias)
Um mosaico caótico chamado música portuguesa
Há um ano, Tiago Pereira e Joana Barra começaram a registar a música portuguesa em vídeo. Cinco por dia. Sem hierarquias e sem distinção de géneros. Centenas de vídeos depois, “A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria” é um fascinante mosaico do país musical.
Caribou faz a festa da música improvisada
Dan Snaith, o senhor Caribou, é o primeiro curador das noites Green Ray 2012 no Lux, em Lisboa.
Ser livre dentro de um texto
O regresso de Alexandre Soares e Ana Deus aos discos.
Como um anjo que vinga e que perdoa
A vida é complicada, cheia de camadas, entrelinhas e ilusões, mas com promessas de fuga e redenção nas janelas rasgadas no meio das sombras, nas mulheres que desafiam, apesar de tudo. Não somos perfeitos, é certo, mas quem gostaria de nós se fôssemos? Paula Rego tem agora a sua primeira exposição de pintura em França. Na nova sede da Gulbenkian, em Paris, até 1 de Abril.
Abaporou, o homem que come gente
Das influências europeias, Stanislavski, Artaud, Brecht, aos modernistas brasileiros, com Oswald de Andrade à cabeça e os índios à perna, Zé Celso comeu e deixou-se comer. Serve agora os gregos numa bandeja aos portugueses.
O novo trabalho de Mallu Magalhães chama-se “Pitanga” e tem o músico Marcelo Camelo como produtor. Na sua última ida ao Jô Soares, a cantora que se tornou um fenómeno no Brasil quando aos 15 anos juntou dinheiro e gravou quatro músicas suas que disponibilizou depois na Internet através do MySpace, falou do seu trabalho. O single do novo disco, “Velha e Louca” já está disponível digitalmente.

(fotografia retirada do site Ler em Português)
Ciberescritas
Isabel.Coutinho@publico.pt
Uma das falácias do ensino do português no estrangeiro é a ideia de que se está a ensinar a luso-descendentes, a língua materna e não uma língua estrangeira. Mas o que a realidade nos mostra é que, por exemplo, nos Estados Unidos, em muitas famílias de luso-descendentes as crianças já não ouvem sequer os pais a falar português em casa. O português passou a ser a língua dos avós, transformando-se para estes jovens numa língua de herança, deixando de ser uma das suas línguas maternas.
A descrição de uma aula de português num liceu de Newark, nos Estados Unidos da América, em que esses alunos que não falam português em casa são obrigados a ler “O Crime do Padre Amado”, de Eça de Queirós (1875), parece-nos uma coisa de outro tempo mas não está tão afastada da realidade como se possa pensar.
Como será de esperar, esses alunos soletram as palavras do romance que estão a ler mas não têm ferramentas linguísticas para perceber o sentido do texto do século XIX. É por isso que ideias e iniciativas como o concurso “Ler em português” são de louvar. Se é verdade que “só se ama o que se conhece”, como disse na apresentação deste projecto Fernando Pinto do Amaral, comissário do Plano Nacional de Leitura, há um desequilíbrio muito grande entre aquilo que um jovem português sabe sobre os Estados Unidos e a sua cultura e o que um norte-americano sabe sobre Portugal.
Foi para se esbaterem essas diferenças que nasceu o concurso “Ler em português”, que promove o intercâmbio entre alunos e professores portugueses e alunos e professores norte-americanos, que são utilizadores do português como língua materna e língua não materna. A iniciativa, que já tem um site, serve para difundir as culturas portuguesa e norte-americana entre os participantes. “Ler em português” nasceu de um protocolo estabelecido entre a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, a Rede de Bibliotecas Escolares e o Plano Nacional de Leitura e permitirá divulgar a Língua Portuguesa: promovendo a leitura e a escrita em português através da utilização de diversos recursos informacionais.
Tal como escrevem no site, onde está disponível o regulamento e a ficha de inscrição, esperam com esta iniciativa que “a grande atracção que a cultura norte-americana exerce sobre os jovens portugueses poderá ser compensada por um maior conhecimento da realidade cultural portuguesa pelos jovens norte-americanos, através da utilização activa das redes que hoje nos fazem comunicar e vencer as distâncias geográficas.” O tema da edição de 2011/12 é “Liberdade e segurança numa sociedade plural”.
Um outro concurso, “Japão Passado e Presente” foi lançado pela embaixada do Japão em Portugal, pelo Plano Nacional de Leitura e pela Rede de Bibliotecas Escolares. Destina-se a premiar sites e blogues que divulguem a civilização e a cultura nipónicas, concebidos e elaborados por equipas de alunos dos 2º e 3º ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário. Tem por objectivo “divulgar a civilização e cultura do Japão, fomentar a amizade entre os dois países, promover a leitura e a escrita em diversos suportes informacionais, desenvolver as competências da literacia da informação e da literacia digital e a promover o cosmopolitismo e a troca de saberes.” Para concorrer os alunos guiados por um professor devem preencher um formulário que está disponível na Internet e é-lhes pedido que façam uma reconstituição de episódios históricos (biografias, textos do património oral, intercâmbios culturais), articulando a linguagem tecnológica com a das expressões artísticas (literatura, cinema, música, pintura, escultura, teatro, dança, outras) e utilizando imagens, vídeos, “podcasts”, áudio, ou outros suportes. Alunos e professores, mãos à obra!
Ler português
http://www.lerportugues.net
Japão, Passado e Presente
http://rbe.min-edu.pt/np4/japao.html
http://www.pt.emb-japan.go.jp/
(crónica publicada no caderno ípsilon, na sua versão para iPad, de 16 de Dezembro de 2011)
A aplicação 599Poemas reúne o trabalho de 15 poetas clássicos e de 15 poetas contemporâneos portugueses.Está disponível desde o final da semana passada para iPhone e iPod Touch. Foi criada pelo João Pedro Pereira, meu colega no jornal PÚBLICO, jornalista especializado em novas tecnologias que no passado criou uma editora de ebooks (projecto Sinapses, uma editora portuguesa de ebooks gratuitos).
“É a minha primeira incursão no mundo das aplicações para iPhone e (como alguns se lembrarão) a segunda no mundo da publicação literária digital. Críticas são bem-vindas (e as críticas positivas até podem ser deixadas na página da aplicação; a gerência agradece)”, conta João Pedro Pereira no email que me mandou.
Os poetas estão divididos entre “Clássicos” e “Novos”. E podemos ler poemas de Alberto Caeiro, Almeida Garrett, Álvaro de Campos, Antero de Quental, António Nobre, Bocage, Camilo Pessanha, Camilo Castelo Branco, Camões, Cesário Verde, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Mário de Sá Carneiro, Ricardo Reis e Sá de Miranda.
Mas também “Novos” com poemas inéditos de A. Pedro Ribeiro, Jorge Pimenta, José-Alberto Marques, Laura Alberto. Luís Felício, Maria João Cantinho, Maria Quintans, Maria Sousa, Minês Castanheira, Nuno Brito, Rui Almeida e Sílvio Mendes.
É possível ler alguns dos poemas e ter um vislumbre da aplicação nesta
página: 599Poemas-Poesia para iPhone http://folhear.com/poesia/
A aplicação pode ser comprada e descarregada a partir da loja da
Apple (http://itunes.apple.com/pt/app/599poemas/id491598757?ls=1&mt=8)
Ciberescritas
Isabel.Coutinho@publico.pt
Toca-se com o dedo num candeeiro e a luz apaga-se e acende-se. O pinheiro de Natal, como por magia, aparece despido e depois decorado com bolas e estrelas prateadas.
Quando as luzes se iluminam, ouve-se uma música tradicional de Natal. Quando se toca num queijo pousado em cima de um prato, ele desaparece e o rato começa a comê-lo. Perguntam-nos onde está o gato e temos de o descobrir escondido debaixo da mesa. Tudo isto acontece durante a leitura interactiva de “A Melhor Prenda de Natal”, um conto sobre o verdadeiro espírito de Natal baseado no universo do famoso “Sítio dos Miúdos” da Porto Editora. É uma aplicação que pode ser comprada por 2,99 euros na App Store e que, depois de descarregada para o iPad, o iPhone ou o iPod touch, permite a leitura deste conto, a partilhar por pais e filhos.
A interactividade começa logo na escolha da língua em que queremos “ouvir e ler” esta história, que pode ser contada em português de Portugal, em português do Brasil, em inglês e em espanhol. No princípio, o gato Tomás está a contar mentiras aos amigos sobre as prendas de Natal que vai receber. Os amigos descobrem e chamam-lhe a atenção.
No final, Tomás recebe uma prenda e decide que nunca mais inventará “histórias mentirosas”. Conclusão: com a ajuda dos amigos, o gato Tomás aprendeu a utilizar melhor a sua imaginação.
Algumas das páginas deste “ebook” têm um ícone com uma ligação para a secção dos “jogos”, onde estão disponíveis desafios e charadas. Podemos adivinhar onde se escondem personagens, pintar ilustrações do livro com as nossas cores preferidas, encontrar imagens semelhantes e fazer contas de somar.
A 16 de Dezembro, a Porto Editora lançou a primeira destas histórias protagonizadas pelas personagens do Sítio dos Miúdos e com as quais as crianças podem interagir: a Mimi, o Tomás, a Lili, o Pinguick, o Xico, o Xavier, o Gaspar, o Malaquias e a Matilde. Chamava-se “Quando eu crescer vou ser…”, tinha por tema as profissões e podia ser descarregada gratuitamente.
Ainda está disponível de graça na App Store. Já foi descarregada por mais de 1600 utilizadores. Este projecto foi concebido por profissionais especializados nas áreas da coordenação editorial, design, programação e orientação pedagógica, explicam no final da aplicação.
“A concepção destas aplicações obedeceu a critérios de ordem pedagógica, pelo que os pais e educadores podem delas fazer apelo sempre que pretenderem proporcionar aos seus filhos e educandos experiências divertidas e didácticas”, acrescentam. Até Março de 2012, serão publicadas mais seis histórias, sempre nas quatro versões em simultâneo (língua portuguesa, variantes Portugal, Brasil, inglês e espanhol): “Era uma vez …a história!”, “Caiu o meu dentinho!”, “Histórias e brincadeiras”, “Nasceu a minha irmã!”, “Umas férias diferentes”, “Vamos aos Açores?”.
Neste projecto trabalharam 20 pessoas de quatro nacionalidades (Portugal, Brasil, Espanha e Inglaterra).
Para concretizar o projecto “Os Miúdos”, foram necessários oito meses de desenvolvimento, mais de duas mil horas de criação e adaptação de conteúdos e programação, e realizaram-se mais de 8000 elementos gráficos.
Projecto “Os Miúdos”
http://www.portoeditora.pt/mobile/projetomiudos
Sítio dos Miúdos
http://www.sitiodosmiudos.pt
10 Dicionários da Porto Editora na App Store e para Android
http://www.portoeditora.pt/mobile_apps
(crónica publicada no caderno ípsilon, do jornal PÚBLICO de 30 de Dezembro de 2011)
Como nos últimos dias não li jornais nem fui ao Facebook, só hoje soube da morte do jornalista e escritor brasileiro Daniel Piza, na última sexta-feira, aos 41 anos, depois sofrer um AVC, em Gonçalves, no Brasil, onde passava as festas de fim de ano com a família. Foi um choque para mim, apesar de não o conhecer. Só o “conhecia” através do que ele escrevia.
Ainda há pouco tinha estado a ler a coluna que escreveu sobre os Melhores do Ano 2011. Podem ler a partir daqui no site DanielPiza,com.br Daniel Piza começou sua carreira no “O Estado de S. Paulo” (1991–92), onde foi repórter do Caderno2 e editor-assistente do Cultura. Trabalhou no jornal “Folha de S. Paulo” como repórter e editor-assistente da “Ilustrada”, cobrindo especialmente as áreas de livros e artes visuais. Em Maio de 2000, regressou para o “Estado de S. Paulo” onde foi editor-executivo e cronista. O João Pereira Coutinho fez-lhe uma entrevista em 2008, que saiu na “Folha de S. Paulo” e pode ser lida a partir daqui. No vídeo podemos assistir ao debate “ Qual o papel da crítica literária hoje: seus equívocos e seus acertos” com Rubens Figueiredo (escritor e tradutor, Prémio Portugal Telecom 2011) , Alcir Pécora (crítico literário e escritor) e Daniel Piza.
No seu blog no Estadão (Cultura, futebol e, vá lá, política) ele tinha deixado uma mensagem aos seus leitores: “Inté: Parada de fim de ano. Volto no dia 11. Feliz 2012 para todos nós.”
(fotografia de Ubiratan Brasil)
Gustavo Sorá, antropólogo argentino, estuda os factores determinantes na circulação mundial de ideias. Dedicou-se à Feira do Livro de Frankfurt e à análise da importância de se ser país convidado. Isabel Coutinho, em Frankfurt
O antropólogo argentino Gustavo Sorá, que viveu no Rio de Janeiro, anda há anos a estudar o mundo editorial para perceber quais os factores determinantes na circulação mundial de ideias. Este professor, que dirige o mestrado de antropologia na Universidade Nacional de Córdova, Argentina, fez uma etnografia das bienais internacionais do livro brasileiras (descreveu a estrutura das feiras de São Paulo e do Rio e os seus “stands”, reuniu catálogos, analisou públicos, editores, livrarias e entidades públicas) e completou o estudo com a análise da feira espanhola LIBER, do Salon du Livre de Paris e da Feira do Livro de Frankfurt, onde esteve pela primeira vez, em 1997, quando Portugal foi país convidado. “Queria compreender as feiras brasileiras como eventos particulares mas também a sua articulação com o circuito internacional, em que se movem os agentes mais poderosos do mundo editorial e onde as feiras funcionam como rituais de troca”, contou ao Ípsilon em Frankfurt, onde acompanhou a preparação de 2013, ano em que o Brasil volta a ser país tema depois de 1994.
Para se ser país convidado na Feira de Frankfurt é necessário passar por vários processos de negociação. O momento histórico em que cada país é escolhido tem a ver com circunstâncias particulares. O ano de Portugal, 1997, era o anterior à Expo’98 de Lisboa e, por isso, “a exposição portuguesa apresentou-se como uma vitrina para a Expo de Lisboa e não só como um produto autónomo, editorial e literário”. A presença do país convidado na feira é sempre “uma ocasião para se reinventar a tradição nacional, para se expor toda a cosmologia do que somos”. No país convidado é habitual que haja uma disputa para se reescrever o cânone literário. Refazem-se as histórias literárias nacionais apresentadas depois em exposições e catálogos dentro e fora da feira. No ano em que Portugal foi país tema, “os discursos tinham um tom de saudade, não só porque cosmologicamente se fazia apelo a essa chave da alma portuguesa mas também porque havia um ressentimento em relação à marginalização histórica que Portugal tinha sofrido como cultura Europeia”, lembra Gustavo Sorá. Foi uma ocasião para Portugal “gritar com muita força” que fazia parte da Europa, que esteve aberto “aos mares, ao mundo e à exploração” e lembrar que tinha sido uma potência. A apresentação portuguesa mostrava “o grande passado” e reposicionava Portugal na Europa, com a posição estratégica de “ser a dobradiça” entre África, a América e a Europa. “Foi uma exposição belíssima, com incunábulos e preciosidades da Biblioteca Nacional, foi o único país que construiu o pavilhão no pátio da feira e investiu muitíssimo. Foi impressionante, muito bem-sucedido em termos estéticos e simbólicos”, acrescenta o autor do livro “Traducir el Brasil Uma antropologia de la circulación internacional de ideas”.
Sincronia e oposição
Como nada é por acaso, no ano seguinte, o português José Saramago recebeu o Nobel da Literatura. “Exactamente! Todo esse tipo de instâncias, de produção, de reconhecimento, de valorização dos mercados e das culturas estão entrelaçados. O Nobel da Literatura é habitualmente anunciado durante a feira de Frankfurt. Não é só uma honra para uma grande figura, é também um prolongamento dos poderes financeiros e políticos que em Frankfurt se interligam permanentemente numa competição por existir ou deixar de existir. Não foi casual essa sincronização.” Em 1997, o antropólogo teve também oportunidade de perceber “as razões da fortíssima oposição entre dois mercados que partilham a mesma língua [Portugal e Brasil] mas têm histórias, estruturas, geopolíticas que os opõem permanentemente e de um modo brutal”. No ano anterior a Portugal ser país tema de Frankfurt criou-se a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). “Fernando Henrique Cardoso assinou, mas no Brasil era visto como uma política portuguesa de recuperação, nessa lógica de reinserção europeia, de recuperação de um certo peso internacional. O Brasil já era uma locomotiva que não precisava disso. Em termos de percentagens económicas o que podia representar o mercado do livro português? E o mercado português também se armou de barreiras para que o Brasil nunca entrasse e consequentemente não entrasse em África.”
Na apresentação que cada país convidado faz de si próprio em Frankfurt há sempre um equilíbrio entre o que ele quer mostrar e o que os outros querem que mostre. “Não se faz só o que os representantes dos países querem mas também o que os alemães, da instituição organizadora da feira impõem como normas, critérios, orientações”. É isso que está a acontecer agora com a preparação do Brasil.
“O país convidado em 2013, o modo como os brasileiros vão poder estar aqui está a ser regulado pelas duas pessoas encarregadas pela instituição da feira alemã para os acompanhar. Organizam visitas, constroem agendas, explicam aos brasileiros como determinado pavilhão funciona, sugerem coisas. A percepção alemã é que os nossos países estão sempre atrás, que nunca chegam a compreender o que exige ser um actor activo nas lutas centrais do mercado editorial internacional. Eles estão sempre correndo atrás, tentando dinamizar porque sentem que existem muitas contradições entre instituições públicas, privadas, editores singulares. A função deles é fazer ver aquilo que os brasileiros, do outro lado, não podem ver.” Para que o investimento do país convidado seja duradouro pelos anos seguintes, é preciso continuar a apostar na ida a Frankfurt dos editores (mais do que apostar na ida de escritores) e incentivar fortemente os programas nacionais de apoio à tradução.
A Feira do Livro de Frankfurt reproduz ainda hoje o que se passava nas feiras da antiguidade. Junta num lugar concreto pessoas que vivem longe umas das outras e que ali estabelecem padrões de troca (continua a ser a mais importante feira de venda de direitos). O contacto humano é determinante numa enorme percentagem da dinâmica na construção dos negócios. Mesmo nos grandes grupos editorais, os laços de confiança, amizade, simpatia, lealdade, contam.
“É impressionantemente primitivo nesse sentido e faz com que as pessoas não deixem de vir à feira. Porque se não vierem é como ‘não dar a cara’ ao mercado. É sair de cena, deixar de estar atento a alguma coisa que pode estar a acontecer. Hipoteticamente isto vai manter-se para sempre. A indústria do livro pode tornar-se 70 por cento digital, seja qual for o tipo de avanços tecnológicos que sejam inventados há um ponto onde a desconfiança humana ou o amor humano faz com que tenha de haver esse encontro entre pessoas para a troca. É por isso que na Feira de Frankfurt há essa mistura de vanguarda e de primitivismo social.”
(entrevista publicada no caderno ípsilon, do jornal PÚBLICO, de 2 de Dezembro de 2011)