O Dickens 2012 Literature Seminar já começou

20120126-235001.jpg

A escritora A. S. Byatt bem que podia ser con­tratada para ser a voz do audi­o­livro Great Expec­ta­tions de Charles Dick­ens. Hoje, em Berlim, no Dick­ens 2012 Lit­er­a­ture Sem­i­nar, Byatt encan­tou a plateia (que encheu o auditório da Ber­tels­maan) ao ler o primeiro capí­tulo do livro que tanto a impres­sio­nou quando o leu, pela primeira vez, em criança.

Amanhã pode ler no Ípsilon

NA CAPA

Guimarães, com um pé no que já foi e outro no que vai ser
Uma cidade em recon­strução a par­tir das ruí­nas da indús­tria têx­til
Com a crise das indús­trias tradi­cionais, Guimarães perdeu uma das suas refer­ên­cias iden­titárias. Nos últi­mos anos, foi a cul­tura a tomar esse lugar numa cidade que quer ser capaz de fixar artis­tas e cria­tivos. A Cap­i­tal Europeia da Cul­tura, que amanhã começa, é ape­nas mais uma etapa de um processo de recon­ver­são que não quis fazer tábua rasa do pas­sado indus­trial, mas sim renascer com ele. Por Samuel Silva (tex­tos) e Adri­ano Miranda (fotografias)

Um mosaico caótico chamado música por­tuguesa
Há um ano, Tiago Pereira e Joana Barra começaram a reg­is­tar a música por­tuguesa em vídeo. Cinco por dia. Sem hier­ar­quias e sem dis­tinção de géneros. Cen­te­nas de vídeos depois, “A Música Por­tuguesa A Gostar Dela Própria” é um fasci­nante mosaico do país musical.

Cari­bou faz a festa da música impro­visada
Dan Snaith, o sen­hor Cari­bou, é o primeiro curador das noites Green Ray 2012 no Lux, em Lisboa.

Ser livre den­tro de um texto
O regresso de Alexan­dre Soares e Ana Deus aos discos.

Como um anjo que vinga e que per­doa
A vida é com­pli­cada, cheia de camadas, entre­lin­has e ilusões, mas com promes­sas de fuga e redenção nas janelas ras­gadas no meio das som­bras, nas mul­heres que desafiam, ape­sar de tudo. Não somos per­feitos, é certo, mas quem gostaria de nós se fôsse­mos? Paula Rego tem agora a sua primeira exposição de pin­tura em França. Na nova sede da Gul­benkian, em Paris, até 1 de Abril.

Aba­porou, o homem que come gente
Das influên­cias europeias, Stanislavski, Artaud, Brecht, aos mod­ernistas brasileiros, com Oswald de Andrade à cabeça e os índios à perna, Zé Celso comeu e deixou-se comer. Serve agora os gre­gos numa ban­deja aos portugueses.

O novo disco de Mallu Magalhães é lançado a 6 de Fevereiro em Portugal

O novo tra­balho de Mallu Mag­a­l­hães chama-se “Pitanga” e tem o músico Marcelo Camelo como pro­du­tor. Na sua última ida ao Jô Soares, a can­tora que se tornou um fenó­meno no Brasil quando aos 15 anos jun­tou din­heiro e gravou qua­tro músi­cas suas que disponi­bi­li­zou depois na Inter­net através do MySpace, falou do seu tra­balho. O sin­gle do novo disco, “Velha e Louca” já está disponível digitalmente.

Mãos à obra


(fotografia reti­rada do site Ler em Português)

Cibere­scritas

Isabel.Coutinho@publico.pt

Uma das falá­cias do ensino do por­tuguês no estrangeiro é a ideia de que se está a ensi­nar a luso-descendentes, a lín­gua materna e não uma lín­gua estrangeira. Mas o que a real­i­dade nos mostra é que, por exem­plo, nos Esta­dos Unidos, em muitas famílias de luso-descendentes as cri­anças já não ouvem sequer os pais a falar por­tuguês em casa. O por­tuguês pas­sou a ser a lín­gua dos avós, transformando-se para estes jovens numa lín­gua de her­ança, deixando de ser uma das suas lín­guas mater­nas.
A descrição de uma aula de por­tuguês num liceu de Newark, nos Esta­dos Unidos da América, em que esses alunos que não falam por­tuguês em casa são obri­ga­dos a ler “O Crime do Padre Amado”, de Eça de Queirós (1875), parece-nos uma coisa de outro tempo mas não está tão afas­tada da real­i­dade como se possa pen­sar.
Como será de esperar, esses alunos sole­tram as palavras do romance que estão a ler mas não têm fer­ra­men­tas lin­guís­ti­cas para perce­ber o sen­tido do texto do século XIX. É por isso que ideias e ini­cia­ti­vas como o con­curso “Ler em por­tuguês” são de lou­var. Se é ver­dade que “só se ama o que se con­hece”, como disse na apre­sen­tação deste pro­jecto Fer­nando Pinto do Ama­ral, comis­sário do Plano Nacional de Leitura, há um dese­qui­líbrio muito grande entre aquilo que um jovem por­tuguês sabe sobre os Esta­dos Unidos e a sua cul­tura e o que um norte-americano sabe sobre Por­tu­gal.
Foi para se esbaterem essas difer­enças que nasceu o con­curso “Ler em por­tuguês”, que pro­move o inter­câm­bio entre alunos e pro­fes­sores por­tugue­ses e alunos e pro­fes­sores norte-americanos, que são uti­lizadores do por­tuguês como lín­gua materna e lín­gua não materna. A ini­cia­tiva, que já tem um site, serve para difundir as cul­turas por­tuguesa e norte-americana entre os par­tic­i­pantes. “Ler em por­tuguês” nasceu de um pro­to­colo esta­b­ele­cido entre a Fun­dação Luso-Americana para o Desen­volvi­mento, a Rede de Bib­liote­cas Esco­lares e o Plano Nacional de Leitura e per­mi­tirá divul­gar a Lín­gua Por­tuguesa: pro­movendo a leitura e a escrita em por­tuguês através da uti­liza­ção de diver­sos recur­sos infor­ma­cionais.
Tal como escrevem no site, onde está disponível o reg­u­la­mento e a ficha de inscrição, esperam com esta ini­cia­tiva que “a grande atracção que a cul­tura norte-americana exerce sobre os jovens por­tugue­ses poderá ser com­pen­sada por um maior con­hec­i­mento da real­i­dade cul­tural por­tuguesa pelos jovens norte-americanos, através da uti­liza­ção activa das redes que hoje nos fazem comu­nicar e vencer as dis­tân­cias geográ­fi­cas.” O tema da edição de 2011/12 é “Liber­dade e segu­rança numa sociedade plural”.
Um outro con­curso, “Japão Pas­sado e Pre­sente” foi lançado pela embaix­ada do Japão em Por­tu­gal, pelo Plano Nacional de Leitura e pela Rede de Bib­liote­cas Esco­lares. Destina-se a pre­miar sites e blogues que divulguem a civ­i­liza­ção e a cul­tura nipóni­cas, con­ce­bidos e elab­o­ra­dos por equipas de alunos dos 2º e 3º ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário. Tem por objec­tivo “divul­gar a civ­i­liza­ção e cul­tura do Japão, fomen­tar a amizade entre os dois países, pro­mover a leitura e a escrita em diver­sos suportes infor­ma­cionais, desen­volver as com­petên­cias da lit­era­cia da infor­mação e da lit­era­cia dig­i­tal e a pro­mover o cos­mopolitismo e a troca de saberes.” Para con­cor­rer os alunos guia­dos por um pro­fes­sor devem preencher um for­mulário que está disponível na Inter­net e é-lhes pedido que façam uma recon­sti­tu­ição de episó­dios históri­cos (biografias, tex­tos do património oral, inter­câm­bios cul­tur­ais), artic­u­lando a lin­guagem tec­nológ­ica com a das expressões artís­ti­cas (lit­er­atura, cin­ema, música, pin­tura, escul­tura, teatro, dança, out­ras) e uti­lizando ima­gens, vídeos, “pod­casts”, áudio, ou out­ros suportes. Alunos e pro­fes­sores, mãos à obra!

Ler por­tuguês
http://www.lerportugues.net

Japão, Pas­sado e Pre­sente
http://rbe.min-edu.pt/np4/japao.html

http://www.pt.emb-japan.go.jp/

(crónica pub­li­cada no caderno ípsilon, na sua ver­são para iPad, de 16 de Dezem­bro de 2011)

599Poemas, poesia para iPhone e iPod Touch

A apli­cação 599Poemas reúne o tra­balho de 15 poetas clás­si­cos e de 15 poetas con­tem­porâ­neos portugueses.Está disponível desde o final da sem­ana pas­sada para iPhone e iPod Touch. Foi cri­ada pelo João Pedro Pereira, meu colega no jor­nal PÚBLICO, jor­nal­ista espe­cial­izado em novas tec­nolo­gias que no pas­sado criou uma edi­tora de ebooks (pro­jecto Sinapses, uma edi­tora por­tuguesa de ebooks gra­tu­itos).
“É a minha primeira incursão no mundo das apli­cações para iPhone e (como alguns se lem­brarão) a segunda no mundo da pub­li­cação literária dig­i­tal. Críti­cas são bem-vindas (e as críti­cas pos­i­ti­vas até podem ser deix­adas na página da apli­cação; a gerên­cia agradece)”, conta João Pedro Pereira no email que me man­dou.
Os poetas estão divi­di­dos entre “Clás­si­cos” e “Novos”. E podemos ler poe­mas de Alberto Caeiro, Almeida Gar­rett, Álvaro de Cam­pos, Antero de Quen­tal, António Nobre, Bocage, Camilo Pes­sanha, Camilo Castelo Branco, Camões, Cesário Verde, Fer­nando Pessoa, Florbela Espanca, Mário de Sá Carneiro, Ricardo Reis e Sá de Miranda. 
Mas tam­bém “Novos” com poe­mas inédi­tos de A. Pedro Ribeiro, Jorge Pimenta, José-Alberto Mar­ques, Laura Alberto. Luís Felí­cio, Maria João Can­tinho, Maria Quin­tans, Maria Sousa, Minês Cas­tan­heira, Nuno Brito, Rui Almeida e Sílvio Mendes.

É pos­sível ler alguns dos poe­mas e ter um vis­lum­bre da apli­cação nesta
página: 599Poemas-Poesia para iPhone http://folhear.com/poesia/
A apli­cação pode ser com­prada e descar­regada a par­tir da loja da
Apple (http://itunes.apple.com/pt/app/599poemas/id491598757?ls=1&mt=8)

As histórias dos miúdos

Cibere­scritas
Isabel.Coutinho@publico.pt

Toca-se com o dedo num can­deeiro e a luz apaga-se e acende-se. O pin­heiro de Natal, como por magia, aparece despido e depois dec­o­rado com bolas e estre­las prateadas.
Quando as luzes se ilu­mi­nam, ouve-se uma música tradi­cional de Natal. Quando se toca num queijo pou­sado em cima de um prato, ele desa­parece e o rato começa a comê-lo. Perguntam-nos onde está o gato e temos de o desco­brir escon­dido debaixo da mesa. Tudo isto acon­tece durante a leitura inter­ac­tiva de “A Mel­hor Prenda de Natal”, um conto sobre o ver­dadeiro espírito de Natal baseado no uni­verso do famoso “Sítio dos Miú­dos” da Porto Edi­tora. É uma apli­cação que pode ser com­prada por 2,99 euros na App Store e que, depois de descar­regada para o iPad, o iPhone ou o iPod touch, per­mite a leitura deste conto, a par­til­har por pais e fil­hos.
A inter­ac­tivi­dade começa logo na escolha da lín­gua em que quer­e­mos “ouvir e ler” esta história, que pode ser con­tada em por­tuguês de Por­tu­gal, em por­tuguês do Brasil, em inglês e em espan­hol. No princí­pio, o gato Tomás está a con­tar men­ti­ras aos ami­gos sobre as pren­das de Natal que vai rece­ber. Os ami­gos desco­brem e chamam-lhe a atenção.
No final, Tomás recebe uma prenda e decide que nunca mais inven­tará “histórias men­tirosas”. Con­clusão: com a ajuda dos ami­gos, o gato Tomás apren­deu a uti­lizar mel­hor a sua imag­i­nação.
Algu­mas das pági­nas deste “ebook” têm um ícone com uma lig­ação para a secção dos “jogos”, onde estão disponíveis desafios e charadas. Podemos adi­v­in­har onde se escon­dem per­son­agens, pin­tar ilus­trações do livro com as nos­sas cores preferi­das, encon­trar ima­gens semel­hantes e fazer con­tas de somar.
A 16 de Dezem­bro, a Porto Edi­tora lançou a primeira destas histórias pro­tag­on­i­zadas pelas per­son­agens do Sítio dos Miú­dos e com as quais as cri­anças podem inter­a­gir: a Mimi, o Tomás, a Lili, o Pin­guick, o Xico, o Xavier, o Gas­par, o Malaquias e a Matilde. Chamava-se “Quando eu crescer vou ser…”, tinha por tema as profis­sões e podia ser descar­regada gra­tuita­mente.
Ainda está disponível de graça na App Store. Já foi descar­regada por mais de 1600 uti­lizadores. Este pro­jecto foi con­ce­bido por profis­sion­ais espe­cial­iza­dos nas áreas da coor­de­nação edi­to­r­ial, design, pro­gra­mação e ori­en­tação pedagóg­ica, expli­cam no final da apli­cação.
“A con­cepção destas apli­cações obe­de­ceu a critérios de ordem pedagóg­ica, pelo que os pais e edu­cadores podem delas fazer apelo sem­pre que pre­tenderem pro­por­cionar aos seus fil­hos e edu­can­dos exper­iên­cias diver­tidas e didác­ti­cas”, acres­cen­tam. Até Março de 2012, serão pub­li­cadas mais seis histórias, sem­pre nas qua­tro ver­sões em simultâ­neo (lín­gua por­tuguesa, vari­antes Por­tu­gal, Brasil, inglês e espan­hol): “Era uma vez …a história!”, “Caiu o meu dentinho!”, “Histórias e brin­cadeiras”, “Nasceu a minha irmã!”, “Umas férias difer­entes”, “Vamos aos Açores?”.
Neste pro­jecto tra­bal­haram 20 pes­soas de qua­tro nacional­i­dades (Por­tu­gal, Brasil, Espanha e Inglaterra).
Para con­cretizar o pro­jecto “Os Miú­dos”, foram necessários oito meses de desen­volvi­mento, mais de duas mil horas de cri­ação e adap­tação de con­teú­dos e pro­gra­mação, e realizaram-se mais de 8000 ele­men­tos gráficos.

Pro­jecto “Os Miú­dos”
http://www.portoeditora.pt/mobile/projetomiudos

Sítio dos Miú­dos
http://www.sitiodosmiudos.pt

10 Dicionários da Porto Edi­tora na App Store e para Android
http://www.portoeditora.pt/mobile_apps

(crónica pub­li­cada no caderno ípsilon, do jor­nal PÚBLICO de 30 de Dezem­bro de 2011)

Morreu o jornalista e escritor brasileiro Daniel Piza

Como nos últi­mos dias não li jor­nais nem fui ao Face­book, só hoje soube da morte do jor­nal­ista e escritor brasileiro Daniel Piza, na última sexta-feira, aos 41 anos, depois  sofrer um AVC, em Gonçalves, no Brasil, onde pas­sava as fes­tas de fim de ano com a família. Foi um choque para mim, ape­sar de não o con­hecer. Só o “con­hecia” através do que ele escrevia.
Ainda há pouco tinha estado a ler a col­una que escreveu sobre os Mel­hores do Ano 2011. Podem ler a par­tir daqui no site DanielPiza,com.br Daniel Piza começou sua car­reira no “O Estado de S. Paulo” (1991–92), onde foi repórter do Caderno2 e editor-assistente do Cul­tura. Tra­bal­hou no jor­nal “Folha de S. Paulo”  como repórter e editor-assistente da “Ilustrada”, cobrindo espe­cial­mente as áreas de livros e artes visuais. Em Maio de 2000, regres­sou para o “Estado de S. Paulo”  onde foi editor-executivo e cro­nista. O João Pereira Coutinho fez-lhe uma entre­vista  em 2008, que saiu na “Folha de S. Paulo” e pode ser lida a par­tir daqui. No vídeo podemos assi­s­tir ao debate “ Qual o papel da crítica literária hoje: seus equívo­cos e seus acer­tos” com Rubens Figueiredo (escritor e tradu­tor, Prémio Por­tu­gal Tele­com  2011) , Alcir Pécora (crítico literário e escritor) e Daniel Piza.
No seu blog no Estadão (Cul­tura, fute­bol e, vá lá, política) ele tinha deix­ado uma men­sagem aos seus leitores: “Inté: Parada de fim de ano. Volto no dia 11. Feliz 2012 para todos nós.”

O mundo editorial pela lupa do antropólogo

(fotografia de Ubi­ratan Brasil)

 

Gus­tavo Sorá, antropól­ogo argentino, estuda os fac­tores deter­mi­nantes na cir­cu­lação mundial de ideias. Dedicou-se à Feira do Livro de Frank­furt e à análise da importân­cia de se ser país con­vi­dado. Isabel Coutinho, em Frankfurt

O antropól­ogo argentino Gus­tavo Sorá, que viveu no Rio de Janeiro, anda há anos a estu­dar o mundo edi­to­r­ial para perce­ber quais os fac­tores deter­mi­nantes na cir­cu­lação mundial de ideias. Este pro­fes­sor, que dirige o mestrado de antropolo­gia na Uni­ver­si­dade Nacional de Cór­dova, Argentina, fez uma etno­grafia das bien­ais inter­na­cionais do livro brasileiras (descreveu a estru­tura das feiras de São Paulo e do Rio e os seus “stands”, reuniu catál­o­gos, anal­isou públi­cos, edi­tores, livrarias e enti­dades públi­cas) e com­ple­tou o estudo com a análise da feira espan­hola LIBER, do Salon du Livre de Paris e da Feira do Livro de Frank­furt, onde esteve pela primeira vez, em 1997, quando Por­tu­gal foi país con­vi­dado. “Que­ria com­preen­der as feiras brasileiras como even­tos par­tic­u­lares mas tam­bém a sua artic­u­lação com o cir­cuito inter­na­cional, em que se movem os agentes mais poderosos do mundo edi­to­r­ial e onde as feiras fun­cionam como rit­u­ais de troca”, con­tou ao Ípsilon em Frank­furt, onde acom­pan­hou a preparação de 2013, ano em que o Brasil volta a ser país tema depois de 1994.

Para se ser país con­vi­dado na Feira de Frank­furt é necessário pas­sar por vários proces­sos de nego­ci­ação. O momento histórico em que cada país é escol­hido tem a ver com cir­cun­stân­cias par­tic­u­lares. O ano de Por­tu­gal, 1997, era o ante­rior à Expo’98 de Lis­boa e, por isso, “a exposição por­tuguesa apresentou-se como uma vit­rina para a Expo de Lis­boa e não só como um pro­duto autónomo, edi­to­r­ial e literário”. A pre­sença do país con­vi­dado na feira é sem­pre “uma ocasião para se rein­ven­tar a tradição nacional, para se expor toda a cos­molo­gia do que somos”. No país con­vi­dado é habit­ual que haja uma dis­puta para se ree­scr­ever o cânone literário. Refazem-se as histórias literárias nacionais apre­sen­tadas depois em exposições e catál­o­gos den­tro e fora da feira. No ano em que Por­tu­gal foi país tema, “os dis­cur­sos tin­ham um tom de saudade, não só porque cos­mo­logi­ca­mente se fazia apelo a essa chave da alma por­tuguesa mas tam­bém porque havia um ressen­ti­mento em relação à mar­gin­al­iza­ção histórica que Por­tu­gal tinha sofrido como cul­tura Europeia”, lem­bra Gus­tavo Sorá. Foi uma ocasião para Por­tu­gal “gri­tar com muita força” que fazia parte da Europa, que esteve aberto “aos mares, ao mundo e à explo­ração” e lem­brar que tinha sido uma potên­cia. A apre­sen­tação por­tuguesa mostrava “o grande pas­sado” e reposi­cionava Por­tu­gal na Europa, com a posição estratég­ica de “ser a dobradiça” entre África, a América e a Europa. “Foi uma exposição belís­sima, com incunábu­los e pre­ciosi­dades da Bib­lioteca Nacional, foi o único país que con­struiu o pavil­hão no pátio da feira e investiu muitís­simo. Foi impres­sio­n­ante, muito bem-sucedido em ter­mos estéti­cos e sim­bóli­cos”, acres­centa o autor do livro “Tra­ducir el Brasil Uma antropolo­gia de la cir­cu­lación inter­na­cional de ideas”.

Sin­cro­nia e oposição

Como nada é por acaso, no ano seguinte, o por­tuguês José Sara­m­ago rece­beu o Nobel da Lit­er­atura. “Exac­ta­mente! Todo esse tipo de instân­cias, de pro­dução, de recon­hec­i­mento, de val­oriza­ção dos mer­ca­dos e das cul­turas estão entre­laça­dos. O Nobel da Lit­er­atura é habit­ual­mente anun­ci­ado durante a feira de Frank­furt. Não é só uma honra para uma grande figura, é tam­bém um pro­longa­mento dos poderes finan­ceiros e políti­cos que em Frank­furt se interligam per­ma­nen­te­mente numa com­petição por exi­s­tir ou deixar de exi­s­tir. Não foi casual essa sin­croniza­ção.” Em 1997, o antropól­ogo teve tam­bém opor­tu­nidade de perce­ber “as razões da fortís­sima oposição entre dois mer­ca­dos que par­til­ham a mesma lín­gua [Por­tu­gal e Brasil] mas têm histórias, estru­turas, geopolíti­cas que os opõem per­ma­nen­te­mente e de um modo bru­tal”. No ano ante­rior a Por­tu­gal ser país tema de Frank­furt criou-se a Comu­nidade dos Países de Lín­gua Por­tuguesa (CPLP). “Fer­nando Hen­rique Car­doso assi­nou, mas no Brasil era visto como uma política por­tuguesa de recu­per­ação, nessa lóg­ica de rein­serção europeia, de recu­per­ação de um certo peso inter­na­cional. O Brasil já era uma loco­mo­tiva que não pre­cisava disso. Em ter­mos de per­cent­a­gens económi­cas o que podia rep­re­sen­tar o mer­cado do livro por­tuguês? E o mer­cado por­tuguês tam­bém se armou de bar­reiras para que o Brasil nunca entrasse e con­se­quente­mente não entrasse em África.”

Na apre­sen­tação que cada país con­vi­dado faz de si próprio em Frank­furt há sem­pre um equi­líbrio entre o que ele quer mostrar e o que os out­ros querem que mostre. “Não se faz só o que os rep­re­sen­tantes dos países querem mas tam­bém o que os alemães, da insti­tu­ição orga­ni­zadora da feira impõem como nor­mas, critérios, ori­en­tações”. É isso que está a acon­te­cer agora com a preparação do Brasil.

O país con­vi­dado em 2013, o modo como os brasileiros vão poder estar aqui está a ser reg­u­lado pelas duas pes­soas encar­regadas pela insti­tu­ição da feira alemã para os acom­pan­har. Orga­ni­zam vis­i­tas, con­stroem agen­das, expli­cam aos brasileiros como deter­mi­nado pavil­hão fun­ciona, sug­erem coisas. A per­cepção alemã é que os nos­sos países estão sem­pre atrás, que nunca chegam a com­preen­der o que exige ser um actor activo nas lutas cen­trais do mer­cado edi­to­r­ial inter­na­cional. Eles estão sem­pre cor­rendo atrás, ten­tando dinamizar porque sen­tem que exis­tem muitas con­tradições entre insti­tu­ições públi­cas, pri­vadas, edi­tores sin­gu­lares. A função deles é fazer ver aquilo que os brasileiros, do outro lado, não podem ver.” Para que o inves­ti­mento do país con­vi­dado seja duradouro pelos anos seguintes, é pre­ciso con­tin­uar a apos­tar na ida a Frank­furt dos edi­tores (mais do que apos­tar na ida de escritores) e incen­ti­var forte­mente os pro­gra­mas nacionais de apoio à tradução.

A Feira do Livro de Frank­furt repro­duz ainda hoje o que se pas­sava nas feiras da antigu­idade. Junta num lugar con­creto pes­soas que vivem longe umas das out­ras e que ali esta­b­ele­cem padrões de troca (con­tinua a ser a mais impor­tante feira de venda de dire­itos). O con­tacto humano é deter­mi­nante numa enorme per­cent­agem da dinâmica na con­strução dos negó­cios. Mesmo nos grandes gru­pos edi­torais, os laços de con­fi­ança, amizade, sim­pa­tia, leal­dade, contam.

É impres­sio­n­an­te­mente prim­i­tivo nesse sen­tido e faz com que as pes­soas não deixem de vir à feira. Porque se não vierem é como ‘não dar a cara’ ao mer­cado. É sair de cena, deixar de estar atento a alguma coisa que pode estar a acon­te­cer. Hipoteti­ca­mente isto vai manter-se para sem­pre. A indús­tria do livro pode tornar-se 70 por cento dig­i­tal, seja qual for o tipo de avanços tec­nológi­cos que sejam inven­ta­dos há um ponto onde a descon­fi­ança humana ou o amor humano faz com que tenha de haver esse encon­tro entre pes­soas para a troca. É por isso que na Feira de Frank­furt há essa mis­tura de van­guarda e de prim­i­tivismo social.”

(entre­vista pub­li­cada no caderno ípsilon, do jor­nal PÚBLICO, de 2 de Dezem­bro de 2011)