As cegonhas também comem “comida de plástico”

É sabido que os efetivos populacionais de cegonha-branca no início da década de 80 eram muito baixos e que a espécie desapareceu inclusive de muitos dos seus locais de nidificação, chegando-se mesmo a temer pela sua extinção. As causas dessa redução prenderam-se com a seca prolongada do Sahel Ocidental em África, zona de invernada desta espécie, e consequentemente com a diminuição da disponibilidade de alimento e menores taxas de sobrevivência destes animais. A caça e a destruição de habitats aquáticos interiores contribuiu também para o declínio da espécie.

No entanto, no fim desta década a tendência populacional inverteu-se, devido a uma grande variedade de fatores como a introdução do lagostim-vermelho do Louisiana (Procambarus clarkii) e uma mudança dos hábitos de alimentação das cegonhas que passaram a alimentar-se em lixeiras e posteriormente em aterros sanitários.

Esta adaptação por parte da espécie, além das notórias vantagens que trouxe, quer por ser uma alternativa a locais de alimentação naturais, quer pelo aumento da disponibilidade alimentar, trouxe consigo prejuízos à saúde dos animais. Um estudo publicado no ano de 2003 em Espanha, na Universidade de Salamanca, mostra que as cegonhas residentes perto de áreas urbanizadas estão a ingerir também grandes quantidades de plástico aquando da sua ida às lixeiras para se alimentarem.

Este fenómeno de ingestão de partículas não digeríveis apresenta maior gravidade em idades mais precoces, estando os juvenis mais suscetíveis a este problema, ao passo que os adultos tendem a selecionar partículas orgânicas e restos de comida. Neste estudo, de todos os pedaços de plástico observados nos estômagos das aves, 61% tinham pontas afiadas e 14% tinham mesmo perfurado o tecido estomacal. Isto mostra que o facto de os animais se estarem a alimentar em lixeiras pode, ao longo do tempo, vir a aumentar a propensão a problemas digestivos destes animais, não permitindo que estes se alimentem convenientemente, podendo até levar à morte destes indivíduos.

O facto de as cegonhas ingerirem este tipo de materiais pode estar relacionado com a sua cor, uma vez que os animais procuram o alimento através da visão. A ingestão de plásticos pode ainda causar letargia e perda de algum sentido de orientação como referido no mesmo estudo, levando a que os mesmos sejam mais propensos a acidentes.

As lixeiras e os aterros sanitários mostram-se assim como locais de alimentação muito importantes, no entanto alguns dos materiais ingeridos pelas cegonhas podem provocar problemas de saúde, principalmente nos juvenis, podendo ter impacto na taxa de reprodução desta ave.

Uma vez que está prevista a aplicação de novas tecnologias que podem levar à diminuição destes locais de deposição de resíduos a céu aberto na Península Ibérica, estes problemas poderão ser minimizados no futuro, ainda que também seja importante perceber de que forma estas medidas irão influenciar a disponibilidade alimentar e o número de casais nidificantes em Portugal e Espanha.

Esta problemática já está a ser analisada por uma equipa de investigadores portugueses e ingleses (http://www.bto.org/pt-pt/node/10098). Têm como principais objetivos perceber a dependência da cegonha-branca de aterros e lixeiras enquanto fonte de alimentação e de que forma a mudança nas infraestruturas de deposição de resíduos poderá afetar a dinâmica populacional da espécie e os seus padrões de migração.

Tiago Neves, Bio3

 

Referência: Peris, S.J. (2003). Feeding in urban refuse dumps: ingestion of plastic objects by the White Stork (Ciconia ciconia). Ardeola50(1), 81-84

Um comentário a As cegonhas também comem “comida de plástico”

  1. ‘Post’ muito interessante! Infelizmente as cegonhas para além de ingerirem plásticos também os trazem para os ninhos! Exemplo disso é o ninho Malaquias, uma autêntica lixeira… e o vento já levou grande parte dos plásticos!

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