Os ditos e as histórias da cegonha-branca

A conspicuidade e as movimentações sazonais da cegonha-branca, levaram à criação de ditos regionais e lendas/fábulas conhecidas a nível nacional. A chegada de cegonhas-branca no final do inverno a determinadas regiões levou a que as populações locais associassem essa chegada a acontecimentos recorrentes na sua região.

Por exemplo, na região norte, no concelho de Mogadouro, a chegada das primeiras cegonhas, por norma, no início do mês de fevereiro, coincidia com os festejos em honra de S. Brás, comemorado no dia 3 de fevereiro. No entanto, em anos em que tal não se verificava, as populações consideravam que, o ano não seria favorável para as colheitas agrícolas, tendo sido inclusive criado um dito popular: “Pelo S. Brás a cegonha verás, se não vires um mau ano terás”.

No interior do país, nomeadamente na zona de Idanha-a-Nova, a chegada das cegonhas no mês de Janeiro era sinónimo de um pagamento extra (vintém) aos jornaleiros da região, por parte do proprietário local. Desta forma, passou a ser frequente dizer-se “Lá vem a cegonha que traz um vintém no bico”.

A lenda mais conhecida associada a cegonhas-brancas é a milenar lenda da cegonha que transporta as crianças recém-nascidas aos pais. A cegonha-branca chega à Europa no início da Primavera, sendo esta uma época que representa vida e renascimento da vida. Por outro lado, as cegonhas-brancas são bastante empenhadas nos cuidados parentais que prestam à sua prole pelo que, se pensa que sejam estas as razões que levaram à associação da cegonha-branca ao nascimento de crianças.

A figura da cegonha-branca é ainda incluída numa fábula popular denominada “A raposa e a cegonha”. As fábulas fazem parte da cultura popular e pretendem sempre transmitir um conselho a quem as ouve e sabe interpretar. No caso da fábula da raposa e da cegonha, a moral da história resume-se à velha máxima “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”.

A Raposa e a Cegonha

Um dia a raposa foi visitar a cegonha e convidou-a para jantar.

Na noite seguinte, a cegonha chegou a casa da raposa e disse:

– Que bem que cheira!

– Vem, anda comer – disse a raposa, olhando para o comprido bico da cegonha.

A raposa que tinha feito uma saborosa sopa, serviu-a em dois pratos rasos e começou a lamber a sua. No entanto, como a cegonha tem o bico comprido, não conseguiu comer, queixando-se:

– Ó comadre raposa, não consigo comer nada, porque o meu bico é demasiado comprido e o prato é demasiado plano.

Ao que a raposa respondeu:

– Ó comadre cegonha, aqui em casa todos lambem bem, por isso não precisamos de pratos mais fundos.

Perante a resposta da raposa, a cegonha como era bem-educada, não voltou a queixar-se e saiu de casa da raposa esfomeada.

A cegonha pensou e voltou a pensar e, achou que a raposa merecia uma lição. Então decidiu também convidá-la para jantar. Como jantar, a cegonha fez uma apetitosa e bem cheirosa sopa, tal como a raposa tinha feito. Porém, desta vez serviu-a em jarros muito altos e estreitos, totalmente apropriados para conseguir enfiar o seu bico e disse:

– Humm!! Coma amiga raposa, que a sopa está simplesmente deliciosa.

Ao que a raposa lhe respondeu:

– Muito obrigado amiga cegonha, mas não tenho fome nenhuma! – respondeu a raposa com um ar pesaroso.

Lembrando-se da partida que havia pregado à cegonha dias antes, a raposa regressou a casa de mau humor e igualmente esfomeada.

Catarina Ferreira, Bio3

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