A cabeça de Dafoe, o corpo de Depardieu

PasoliniGerard Depardieu in Welcome to New YorkNo Festival de Cannes, em Maio, quando apresentou Welcome to New York, inspirado em (mais do que filme “sobre”…) Dominique Strauss-Kahn (que no filme se chama Devereaux), o realizador Abel Ferrara aproximara essa figura da de Pier Paolo Pasolini, personagem do seu Pasolini, que apresentaria no Festival de Veneza em Setembro: a “blasfémia” como forma de ambas não se poderem conter, não poderem negar angústias e pulsões sob pena de se negarem a si próprias; como expressão vital, percurso de quem “prescindiu dos espelhos e dos reflexos, como num filme de vampiros”, dizia Ferrara. Muito excitante, então, confrontar os dois filmes. Natural, também, a ânsia de ver a solidão do universo ficcional de Ferrara ser o habitat de figuras do chamado mundo real – como se tivessem a energia, a verdade, das criações da tal ficção com vampiros.

Pasolini é um dos cineastas da formação de Ferrara, um dos seus ícones. Fala dele como um adolescente fala do ídolo rock que trata por “tu”. Pasolini é filme de fã. Dafoe veste-se com as roupas de Pier Paolo, emprestadas por Ninetto Davoli, amigo e actor do poeta/cineasta (Teorema, Decameron, Os Contos de Cantuária…). A cerimónia tem como memorabilia as palavras, o pensamento de Pasolini.

“A arte narrativa está morta, estamos no período de luto”, dizia Pier Paolo. O fã Abel oferece ao ídolo (“He was the Teacher we are the students”, vai dizendo Ferrara nas entrevistas) a prova de que aprendeu a lição, querendo ficar bem perante o mestre. Um filme sobre Pier Paolo? Um filme para Pier Paolo: um compósito, substituindo o tradicional biopic, que tem por base a recriação da última entrevista de Pasolini, a Furio Colombo, onde sintetizou um totalitarismo emergente, o consumismo, a destruição de uma humanidade ancestral. Adorna-se esse centro com a visualização de passagens de Petróleo, o romance póstumo de Pasolini, e com a imaginação do que poderia ter sido o filme que deixou por fazer, Porno-Teo-Kolossal, que teria participações de Ninetto Davoli e Eduardo De Filippo (piscadela de olho: é Davoli que agora interpreta De Filippo; suplemento de emoção na homenagem: Adriana Asti, actriz em Accatone, interpreta a figura da mãe de Pasolini, tão amada pelo filho).

Pasolini, nas intenções de Ferrara/Dafoe, habita o pensamento de Pier Paolo. É um filme sobre uma thinking head. figura sem corpo, sem sexualidade (mesmo que haja “reconstituição” das cenas que levaram ao crime, Óstia, 2 de Novembro de 1975), figura sem escândalo. Se Dafoe é um impressionante duplo, é sobretudo um invólucro para um pensamento – perante o qual Ferrara aparece dócil, reverente, desse pensamento fazendo consensual resumo.

DEPARDIEUdepardieu 1Em Welcome to New York Abel teve à disposição o corpo, e os uivos, de Depardieu. Gerard: uma afirmação escandalosa. Agora sim: Devereaux/D.S.K (Depardieu?) é uma criação do universo de Ferrara, como o Harvey Keitel de Polícia sem Lei. À thinking head opõe-se o corpo uivante.

Mais bonito ainda: permite-se que um corpo continue a contar a sua história e a sua memória – e através dele, continuarmos a nossa. As imagens de Devereaux/Depardieu nu são um inapelável presente daquilo que se vislumbrou no corpo nu entre os arranha-céus de Manhattan no Adeus Macho (1978), de Marco Ferreri: Depardieu jovem, quatro anos depois de se ter imposto à produção de Les Valseuses (1974), de Bertrand Blier, como se disso dependesse a vida (e dependia, percebe-se na autobiografia que publicou, Ça C’est Fait Comme Ça), energia imparável condenada à solidão, ao anacronismo, porque o mundo estava a acabar – isto é, o casal, tal como o conhecemos. O seu Devereaux de Welcome to New York é o presente da viagem do instinto iniciada pelo voyou de Châteauroux, delinquente, iletrado, quase autista, que encontrou nos textos e no cinema, em Peter Handke, Duras ou Pialat, a possibilidade de ler, falar, de se dizer. Não há redenção que salve Devereaux. Não há sentimento de culpa que páre Depardieu, escreve em Ça C’est Fait Comme Ça, isso seria deixar de respirar.

O cinema apocalítico de Ferreri, companheiro de escândalo, nos 70s, de Pasolini, construiu-se na expectativa de destruição de um mundo – e empurrou esse mundo para a destruição. Em A Última Mulher (1976), Ornella Mutti desafiava Depardieu a inventar algo de novo para a “família” (Depardieu cortava o pénis). Talvez se possa dizer que Welcome to New York, ou Devereaux (Depardieu) e Simone (Jacqueline Bisset) – ou DSK e Anne Sinclair –, continua esse desastre, a história de amor.

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