The real bullshit artist

Bizarro jogo de espelhos este, que põe nas salas, de um lado, um original que fez para se falsificar e, de outro, um falsificador  que quer passar por um original: Martin Scorsese, David O Russell.    

Wolf_Of_Wall_Street.jpg.CROP.rectangle3-largeAmerican-Hustle-1

 

New York, New York (1977) ou O Toiro Enraivecido (1980), esses sim, são filmes toxicodependentes de Martin Scorsese.  “There was a hard white snow falling on Hollywood” nesses anos. Nas cenas do deboche, tal como contadas e provavelmente mitificadas em Easy Riders Raging Bulls, How the Sex,  Drugs and Rock’N’Roll Generation Saved Hollywood, livro de Peter Biskind, há pessoas com colheres de ouro ao pescoço a servirem de joalharia, há     clientela a deixar linhas brancas na mesa do restaurante como gorjeta… A  cocaína tinha sido espalhada pelo vento. Estabelecia a rede social, era o Facebook onde se fazia o like.

Cenas da vida privada de Marty, que a asma agarrara aos comprimidos desde os três anos de idade e que se fixara nas drogas como na aspirina: uma casa em Mulholland Drive onde havia filmes na garagem até o sol nascer — “we were like vampires, ‘oh no the sun is coming up’”, contou um vampiro; Martin a correr nu por Mulholland atrás da amante que o  abandonara, “come back, don’t leave me”; um avião privado a chegar a Nice/Cannes, onde o realizador apresentava e promovia The Last Waltz (1978), para o abastecer, porque “no more coke, no more interviews”.
Baixo, asmático, não gostando do que via ao espelho, agigantava-se com  as drogas no jogo do não-vou-chegar-aos-40. Os filmes palpitavam de  paranóia, como radares a virarem-se para as possibilidades de autodestruição — como os tubarões vão directos à carne que entrou em cena. Numa noite em que sangrava no New York Hospital por todos os orifícios do seu corpo, cedeu, finalmente, aos abanões e à insistência de Robert DeNiro, que o perseguia em vão com um projecto que o cineasta não havia meio de querer fazer seu — resistia porque sentia que nada tinha a ver com a história desse pugilista chamado Jake LaMotta, resistia porque não sabia o que fazer mais com DeNiro ao cabo de tantos       filmes. E foi então que percebeu: “I am Jake”.

O resultado, que é provavelmente o grande filme americano dos anos 70 ou então dos anos 80 — está na fronteira entre as décadas, depende de onde se quer olhar —, é o ponto de rebuçado das sensuais coreografias de  autodestruição de um cineasta. Que teve na montadora Thelma Schoonmaker uma fiel tradutora desse bailado — com Thelma, companheira de Michael Powell, Scorsese reforçava o elo afectivo com a beleza letal (a pensar nos Sapatos Vermelhos…) do universo de um cineasta amado.

 O verdadeiro e o falso    

new-wolf-of-wall-street-trailer-leonardo-dicaprio-is-the-wealthiest-stockbroker-in-the-worldSó se pode fantasiar com a hipótese de alguma vez Martin ter pensado, a propósito de O Lobo de Wall Street com que há anos o actor Leonardo  DiCaprio o vem perseguindo, “Eu em determinada altura fui Jordan  Belfort”, nome da personagem de stockbroker cuja acensão e cujo excesso o filme conta. Uma das questões problemáticas neste filme é a dimensão  visceralmente íntima do deboche tóxico: é um confronto que O Lobo de Wall Street na verdade acolchoa, impossibilita ou, se calhar, até evita.  No final da primeira parte do Ninfomaníaca, de Lars von Trier (desde esta semana nas salas), Joe, a personagem interpretada por Charlotte  Gainsbourg, diz “I don’t feel anything”. Esse parece o momento em que o  murmúrio que se vai exalando do filme (ou do cineasta Lars, que tanto  estará na personagem de Stellan Skasgard como na personagem de  Charlotte) tem hipótese de ser libertado. Como uma declaração de  impotência, porque a montanha afinal pariu uma pequena e inofensiva  enciclopédia; como um suspiro final (bem, mas dentro de semanas virá  ainda a segunda parte…) depois de tantas manobras de auto-citação, de  cinismo a disfarçar as confissões e de Rammstein a sobrepor-se à  fragilidade. Um murmúrio do filme e a consciência da sua impotência — a tragicomédia de Lars é o seu espectáculo íntimo em público estar a revelar-se mais tonitruante do que a sua virulência de cineasta, que       está em perda (confesso que o acho tocante nas confusões que cria nas conferências de imprensa de Cannes…). “I don’t feel anything”: O Lobo de Wall Street não diz, também, outra coisa através do seu ofegante  espectáculo, que ao ser posto em marcha anestesia o prazer e a dor. É um  daqueles filmes que não sente nada querendo mostrar (que sente) tudo. É um filme que não sai do mesmo sítio. Que obriga as personagens a repetirem o mesmo número de circo. Scorsese, ao multiplicar os sinais da  sua presença, o seu proverbial virtuosismo, afasta-se das personagens, não disfarça o moralismo que se interpõe entre ele e elas, e protege-se  de qualquer implicação pessoal. Afasta o espectador dos prazeres e das       dores da orgia, porque aqui se olha de fora. E é assim que um truly  original se falsifica.

A golpada    

Esta conversa entre o autêntico e o falso é um diálogo entre Christian  Bale e Bradley Cooper em American Hustle, de David O Russell, que chega  às salas portuguesas na próxima semana. Noutra cena desse filme que  certamente vamos ser obrigados a gramar nas várias listas de prémios  este ano (o Globo de Ouro para melhor comédia/musical já o tem), a personagem de Amy Adams suspira pela chegada da autenticidade, farta de estar metida com con men e bullshit artists — esta é uma história em que a fraude e a lei se unem em quarteto pícaro. Lembra aquela cena, em A Bela e o Paparazzo, em que a personagem de Soraia Chaves  (uma actriz de telenovelas, farta da sua vida, dos fotógrafos) quebrava a     ficção que estava a gravar gritando que ninguém acreditava naqueles diálogos, que era tudo mentira; o espectador era levado a puxar por ela, pois talvez num momento de cinema-verdade ela pudesse interromper a própria rodagem do filme de António-Pedro Vasconcelos e gritar que ninguém acreditava naqueles diálogos, que era tudo mentira.

jennifer-lawrence-amy-adams-american-hustleAmy Adams e Jennifer Lawrence são bravas em American Hustle, apetece  salvá-las desse filme. E apetece que também aqui, em que cabe às mulheres serem uma espécie de consciência em relação a tudo o que por ali se passa, os olhos que nele estão bem abertos, elas chamem American Hustle à atenção, o endireitem e desmascarem a golpada de perucas       desalinhadas e decotes (é “a época”: final dos anos 70, princípio dos       anos 80).

Porque não é muito mais do que isso a sucessão de caricaturas: qualquer  coisa próxima do dress rehearsal de algo que ainda está longe de ser  cinematográfico. Bizarro jogo de espelhos este, que põe de um lado um  “original” que faz para se falsificar e de outro um falsificador  que quer passar por um original: Martin Scorsese, David O Russell. Na cerimónia de entrega dos Globos de Ouro, esta semana, DiCaprio  apresentou Scorsese como o artista mais influente do cinema americano,  notando que muita gente naquela sala quereria ser Marty. David quer —  não sabemos se por ali estariam Paul Thomas Anderson ou James Gray… Se  se recordam de The Fighter (2010), era uma história de boxe e de  vampirismo familiar (dois irmãos, Mark Wahlberg e Christian Bale, um a  carregar o falhanço da carreira do outro). A “presença” de O Toiro Enraivecido, história dos irmãos Robert DeNiro e Joe Pesci, era obscena  nesse filme, pela redundância — o projecto chegou a passar por Scorsese,  que obviamente disse “passo”. Robert de Niro tem uma aparição  fantasmagórica em American Hustle que anda pela mesma bitola de  grotesco, Christian Bale volta a entrar numa espiral de “Método”  frustrante para ele porque ainda assim não se impõe aos “adereços”, a  peruca ou a barriga… mas a moral desta história está lá, e tanto  acontece aos (cineastas) originais como aos falsificadores: a  sobrevivência, são todos goodfellas.

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