A descoberta da pólvora

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12 Anos Escravo é a razão por que Django Libertado foi um dos filmes americanos de 2013.

“12 years a slave is easily the greatest feature film ever made about American slavery” – mas então David Denby (New Yorker) revela depois  dificuldade em preencher o vazio criado por esse seu statement,   suspeitando-se que o que o impressionou, ou o que o aliviou mesmo, neste filme sobre a história verídica de Solomon Northup, homem livre arrancado à mulher e aos filhos e a Nova Iorque e raptado e vendido como escravo para as plantações da Louisiana em 1840, foi o facto de Steve McQueen ter deixado a austeridade ritualística, assim o crítico americano considera,  dos anteriores Hunger (2008) e Shame (2011) para se abrir à narrativa e à sociedade.

Tem sido esse o caso da unanimidade da recepção americana a 12 Anos Escravo: a formação de um consenso que progride por statements e  absolutos, nesse sentido uma coisa algo infantil, mas paralizados pela naiveté de quem descobriu a pólvora – para a atirar contra Tarantino e o seu Django Libertado, por exemplo.

Alguns dos textos são banhados pelo puritanismo: Elena Sheppard  (PolicyMic), queixando-se que o cinema tem pecado por criar empatia com  assassinos, por fazer a “glorificação da violência” (está-se a ver onde  quer chegar), sente-se confortada nos seus medos perante McQueen: a   violência no filme “não é entertaining”, a coisa “é real”. É um velho e perigoso argumento americano, este (deve ser por isso também que Sam Adams, na CriticWire, ao inventariar as dissidências na recepção a 12 Anos Escravo, não disfarça um tom policial ao forçar buracos na argumentação dos dissidentes.)

Mesmo Richard Brody (New Yorker) fica à porta.  Começando por ensaiar manobras de complexificação em volta do filme,  inscrevendo-o numa linhagem de problematização sobre se a ficção ou  dramatização do horror não corre o risco de tornar trivial uma  experiência-limite (questão decisiva, como ele nota, para Claude Lanzmann, o realizador de Shoah, em relação à representação do  Holocausto), sai-se com esta descoberta: “McQueen mostra que a escravatura é, primeiro que tudo e acima de tudo, uma questão de domínio sobre o corpo do escravo – que o conceito económico e legal que  justifica ter a propriedade de alguém implica uma autoridade sem controle para matar, violar…” e por aí adiante. Eis então um filme que  parece nascer de uma força virginal e original. Como se antes não tivesse havido nada e agora passasse a haver – “a escravatura foi assim”, “o filme sobre a escravatura é assim”.

slav4Esse é o problema de 12 Anos Escravo: cada cena parte de um propósito  didactico, demonstrativo, também ele um gesto com algo de naive, também  ele uma forma (quase) infantil de iludir a memória (cinematográfica): “a  escravatura foi assim”, “o filme sobre a escravatura é assim”. Deve ser  por isso que não existem muitos exemplos, nos textos de recepção ao filme, e falo dos entusiastas, de análise em extensão a um qualquer  partis-pris formal de McQueen que seja memorável. Curiosamente, o que há, mesmo nesses textos de entusiastas, quando se atrevem pelo filme adentro para lá do statement, são tentativas de justificar o que não funciona ou que parece menos conseguido. Dois exemplos: Denby marca, e  bem, a redundância de Michael Fassbender e do seu Edwin Epps esclavagista, nota que às tantas o actor talvez não faça mais nada a não  ser repetir as suas explosões cada vez acrescentando mais histeria – é pena que veja isso como coisa de somenos e nada indicativa sobre o registo do conjunto; Brody, sobre uma das sequências supostamente mais  abissais, aquela em que a escrava Patsey (Lupita Nyong’o) é chicoteada  até à carne, trabalha uma justificação preciosista para explicar o que  possa existir de rígido, entorpecedor (a palavra usada por ele é  “benumbed”), na mise-en-scène de McQueen: perante tamanho abismo,  escreve, a decência do cineasta vê-se quando ele regressa a uma espécie de banalidade, à recusa do fogo-de-artifício formal. Um e outro       encontram, quanto a mim, em cenas específicas, o que é afinal o tom   geral do filme e não apenas as suas excepções: a redundância, a  banalidade. É o pior filme de Steve McQueen. Tem mesmo um movimento de câmara em que o statement é tosco e gritante como pode ser um  adolescente na idade escolar: Northup tornado escravo numa cave de  Washington e a câmara a subir para enquadrar o Capitólio.

128a_df-03580small_wide-879620131931ee255e493bfe53f31a385ed0b2b5-s6-c30statuesque-django-jackson-splshHá um adversário declarado num fã de 12 Anos Escravo: Django Libertado.  Pega-se numa personagem, a Mistress Shaw interpretada por Alfre Woodard  em 12 Anos Escravo, escrava que aceitou vestir as roupas do opressor  para sobreviver, e compara-se com o Stephen de Samuel L. Jackson de  Django Libertado: no primeiro caso estaria toda a empatia para com as  razões de uma personagem, logo um exemplo de maturidade artística do  realizador, no segundo a imaturidade de Tarantino, que não recusa nada       em favor do divertimento e do fogo de artifício. Esta oposição, entre  uma “verdade”, a de McQueen, e uma fantasia, a de Tarantino, foi uma  pedra de toque no “diálogo” que foi criado entre os dois filmes. Mas qual é, afinal, o mais verdadeiro?

Se Mistress Shaw, que fala muito mais para o espectador do que para a   personagem que tem à sua frente (como outras cenas de 12 Anos Escravo,   que se vergam ao peso demonstrativo dos diálogos do argumento de John  Ridley), é representante de alguma coisa é do didactismo, do tom  justificativo. Que permanentemente acolchoa o espectador, dando-lhe  explicações para a viagem. O consenso atrai o consenso. Cada personagem  vem com livro de instruções em cenas de um eterno presente, e por isso  algo episódicas, como acontece nas séries televisivas (como aconteceu em  Roots/Raízes, em 1977; McQueen não acrescenta nada de fundamental). A violência  física e emocional, aquilo que “impressiona”, é uma dor logo imediatamente  sarada. Sim, 12 Anos Escravo tem a sua dose dessas cenas. Mas não são elas  que ameaçam o espectador. O que pode ameaçar é, pelos vistos, um Stephen  como o de Samuel L. Jackson. Mas aí, hélas pour nous, que temos de ver um  filme com todos os outros que já vimos, com todos os preconceitos e mitos de que participamos – e na escolha de Jackson para a personagem, o  equivalente, por exemplo, a pedir a Claude Lanzmann que interpretasse  Adolph Eichmann num filme sobre a Solução Final, não está uma provocação   gratuita, mesmo que esteja provocação, e está um pedaço do inferno a que  sabe Django Libertado; e uma forma nada superficial de dizer da traição e da submissão, assim explicando-a, sem a explicar.

django-unchained-2Ao contrário do que se poderia imaginar, os dois filmes, o de McQueen e  o de Tarantino, até caminham na mesma direcção, o encontro com o Diabo:  a plantação de Fassbender, num caso; Candyland, a plantação de Candie/Leonardo DiCaprio, no outro. Não trocaria uma pedaço que fosse do jantar  de DiCaprio no Mississipi por todo o filme de McQueen. O que se apalpava  ali, a malignidade, os segredos que as personagens encobriam, a  promiscuidade, tinha uma densidade extraordinariamente viscosa que  resultava, em todo o seu artifício decadentista, mais infernal do que  qualquer chama de que McQueen se abeire. Tarantino não se coloca numa posição de virgindade – como McQueen, que parece “falar sobre..” a partir de espaço limpo de imagens e como se fosse ele a inaugurar. Nem se  preocupa com a segurança da viagem do espectador. Não, com a sua carroça  fantasma libertadora, conduzida, note-se, pelo actor que no anterior     Inglorious Basterds fazia o papel de nazi, mete-se ao barulho e mete o   espectador ao barulho, participando na edificação e na profanação das  imagens com que uma nação, Hollywood, a América, foi nascendo. Uma dança  que convoca os espectros de Griffith (inebria-se e horroriza-se com o Ku Klux Klan), E Tudo o Vento Levou, de que ele se calhar faz a sua versão negra, ou de Band of Angels, o filme de Raoul Walsh, como se Clark Gable  tivesse emprestado o colete que usava para a apoteose final de Jamie Foxx.

Este é o meu statement infantil:

12 Anos Escravo é a razão por que Django Libertado foi um dos filmes americanos de 2013.

2 comentários a A descoberta da pólvora

  1. o pior de tarantino e o pior de mcqueen
    géneros onde a estética tarantiana não se encaixa… uma certa europa (tipificada pela guerra) no anterior e agora com a revisitação do género western… tarantino dá-se mal com personagens masculinas principais quando não suportadas por personagens femininas digamos viris, tornando os filmes em exercícios assexuados no limite mais gay que hetero … django e o médico são o casal gay cenematográfico de 2013… e isto não seria mau se fosse assumido… quando tarantino quer ser sério… descamba e bate de frente com o não controle das emoções… tornando-se um realizador banal americano com pouco jeito para piadas…
    mcqueen ainda não fez nada de jeito… (ponto)

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