Nestas cenas da via conjugal o amor é mais frio do que a morte

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Uma estufa de sensualidade, os ritmos e os corpos de um mundo fechado: uma família normal, pai, mãe e a sua filha. Normal é o quotidiano, normal é a violência. Uma fábula, e como é impossível vivê-la. No Festival de Cinema de Veneza não há competição à altura, para já, de The Police Officer’s Wife, de Philip Gröning.

O título deste texto tem fixação bergmaniana. E também fassbinderiana… Por aí a cabeça e a memória podem divagar ao longo de The Police Officer’s Wife. Permitem-no os cerca de 60 capítulos que dividem os 175 minutos de filme: são momentos de distanciação esses capítulos, que assim devolvem a espaços o filme ao espectador, que o vê mas também tem de olhar para a consciência que tem dele.

É essa também a função daqueles planos frontais dos filmes do austríaco Ulrich Seidl que obrigam ao agudo exercício brechtiano de olharmos para nós próprios – e pronto, aqui fica mais uma referência… E no entanto: há uma convicção e uma autoridade em cada plano de The Police Officer’s Wife (competição), filme de pontos de chegada e que não tacteia partidas exploratórias, que se acredita quando o realizador, o alemão Philip Gröning, diz que filmou sem qualquer “referência estilística” na cabeça.

É um filme que lentamente nos vai atirando para um grande silêncio, para citar o documentário que Gröning fez há oito anos, Into Great Silence, sobre os monges cartuxos de um convento nos Alpes franceses. A mesma imersão numa estufa de sensualidade, coabitando com os ritmos, com os gestos e com os corpos de um mundo fechado. Que aqui é uma família normal, um pai, uma mãe e a sua filha.

E normal é o quotidiano, e normal é a violência. Como dizia Gröning em conferência de imprensa, a proximidade humana tanto é responsável pelo amor como pela violência. E ela começa a surgir, e avizinha-se ali nas nódoas negras no corpo da mulher deste polícia – quando ela se despe para os jogos infantis de desejo, alegria e camaradagem, os jogos de amor, deste casal.

A violência conjugal vai escalar, até chegar ao irreversível grande silêncio: a morte. Aí só restará a memória do agressor, que a espaços vai aparecendo a olhar para nós a partir do seu solitário futuro, quando já é velho, como uma espécie de coro da sua própria tragédia. Se calhar este é o filme que se passa na sua cabeça.

Nestas cenas da vida conjugal, o amor é mais frio do que a morte. E triste, apesar e por causa das cantilenas infantis e de Natal que esta família de três cantam virados para o espectador – para lhe dar momentos de pausa, para lhe dar tréguas. Quem canta não são só as três personagens, na verdade, são também os seus actores, que são quatro: Alexandra Finder, a mãe; David Zimmerschied, o pai; Chiara e Pia Kleeman, as gémeas que à vez interpretam a filha. Tréguas também para eles, actores, merecem.

Há uma coisa muito bonita e muito triste neste filme nada consensual, acusado por alguns do pecado do preciosismo mas que para já não tem competição à altura em Veneza: a forma como está sempre contíguo ao mundo da fábula, ficando a olhar para raposas e esquilos, estando sempre a dizer-nos e mostrar-nos ao mesmo tempo que não (se) pode entrar nele. (Podíamos por isso também falar no Irreversível, de Gaspar Noé, mas The Police Officer’s Wife merece que se silenciem as referências.)

Não há nada à altura de The Police Officer’s Wife nestes arredores. Se os rostos não estivessem petrificados pelos esgares, se os actores não estivessem prisioneiros da sua própria inabilidade – Lindsay Lohan e o actor porno “hard” James Deen -, talvez The Canyons (fora de concurso) pudesse ser um momento de guilty pleasure camp para abrilhantar a obra de Paul Schrader (realizador) e Bret Easton Ellis (argumentista).

Mas teria sido preciso que eles não acreditassem. O pior é que acreditam, por isso não há prazer algum. E assim, é constrangedor. Até porque é uma versão muito Z do que ambos já fizeram. Como se da sobreposição dos respectivos universos, em que há algo de reiteração (Schrader é mais moralista, com a sua herança calvinista, e de olhos mais abertos para a transcendência, mas ambos são fascinados pelos desvios e pela amoralidade), tivessem sido incapazes, eles que têm a sua conta de jovens, belos, ricos e narcísicos, de escapar à sua caricatura.

Aqui não há gravidade, pathos ou transcendência. Nem sequer é cruel, e isso é que dói, ver que ao desamparo de Lohan nada pode a única expressão e o andar gingão aprendido ao espelho de Deen, que se chama Christian para rimar com o Julian de Richard Gere no American Gigolo.

A propósito… pode ser uma estreia ver um filme que é pior do que o seu actor, Nicolas Cage. O feito cabe a Joe, de David Gordon Green (competição), que é uma assemblage de elementos vários do southern gothic tal como tem sido usada e abusada por uma série de cineastas norte-americanas (só lhe falta a voz off malickiana…). Mas Green não constrói mais do que situações e (ausência de…) drama televisivo.

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