Saleh Haroun e Basil da Cunha, a noite e um delicado vampirismo

Grigris_portrait_w858Primeiro, o embate com Souleymane Démé, dançarino de Ouagadougou, uma perna paralisada e veemência no corpo – foi nesse encontro que o realizador Mahamat-Saleh Haroun encontrou o seu filme. Depois, e isso é agora, o embate do espectador com um corpo que dança com uma perna morta mas que tem de suspender os sonhos da sua Saturday Night Fever para se envolver numa teia de traficantes de petróleo que opera pela noite em N’Djamena, capital da República do Chade. Essa forma de passar do olhar sobre um corpo, a sua peculiar fisicalidade, para qualquer coisa que é tocada pelo filme de género, o film noir, sem contudo deixar de ser, ainda, olhar sobre um corpo, é o toque de Grisgris, o filme que traz Mahamat-Saleh Haroun de volta à competição de Cannes. Em 2010, com L’Homme que Crie, o cineasta chadiano recebeu um Prémio Especial do Júri pouco convincente – filme demasiado frágil, parecia ter ido parar ao Palmarés por acto de discriminação positiva. Grisgris é outra história, um ponto de encontro delicado entre a ficção (também é uma história de amor entre dois acossados) e o documento ou retrato, tão orgulhoso como o corpo de Souleymane Démé, sem pedir desculpas pelas fragilidades. E é um belíssimo filme sobre a noite: há algo de tourneuriano aqui.

Mahamat-Saleh Haroun dizia, numa entrevista, que N’Djamena, cidade com pouca iluminação pública, transforma as figuras na noite em fantasmas. E continuava, ainda sobre a Apres_la_nuitespecificidade de uma polaridade, o dia e a noite chadianas: “A sociedade chadiana é constituída por uma maioria muçulmana para quem os piores actos criminosos se desenrolam depois do pôr do sol.” É desta relação com a noite, como passagem para um susto mágico, revelador e incontornável, que se faz também Après la Nuit(Quinzena dos Realizadores), a primeira longa-metragem do luso-suíço Basil da Cunha. Um cineasta da noite, Basil, num equilíbrio terno entre o realismo e o onirismo, a ficção e o documentário – tudo o que aqui se passa, a clausura desta história de gangsters, pode ser a invenção catártica de quem ali se dá a ver, a imaginação de uma verdade.

Já eram assim as curtas-metragens de Basil (duas das quais apresentadas anteriormente na Quinzena, Nuvem e Os Vivos também Choram), que eram filmes em expansão, à procura de uma longa. Après la Nuit é, por isso, um momento de reiteração: continua o trabalho do realizador natural de Lausanne, Suíça, com os habitantes do bairro da Reboleira, em Lisboa, e reafirma, com esta espécie de filme de gangsters que também é documento sobre as vidas de um bairro, que o cinema é uma forma delicadíssima de vampirismo – porque assim é tornada pela sensibilidade de um realizador.  

 

 

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