Os Coen a dobrar em Cannes: como eles são e como eles eram

É um dos melhores filmes de Joel e Ethan Coen em três décadas, só que não é um filme dos irmãos Coen. É a segunda longa-metragem de Jeremy Saulnier, nome que há pouco tempo foi avistado pelos que frequentaram as sessões do IndieLisboa e viram I Used to be Darker, de Matthew Porterfield. Saulnier tem sido o director de fotografia deste realizador de Baltimore.

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Jeremy Saulnier chega à Quinzena dos Realizadores, secção alternativa do Festival de Cannes, com Blue Ruin, segunda longa depois de Murder Party(2007). E com uma anunciada intenção de reformular o género “filme de vingança”. A “garganta” de Jeremy explica-se com a necessidade que teve de propagandear as suas ambições em plataformas de crowdfunding, onde arranjou 37 mil dólares para ajudar a financiar Blue Ruin. Um filme que evoca o início dos Coen, é verdade, concretamente Blood Simple (1984) e essa vontade de habitar a paranóia com sentido de humor e de seguir um filão negro americano.

la-et-blue-ruinHá uma componente de exercício de estilo, de manipular as expectativas — e violentar de forma infantil a tolerância do espectador em relação ao gore. Mas nesta história de um homeless que recebe a notícia de que o assassino dos pais vai sair da prisão e começa a engendrar a vingança, não há só esperteza saloia. Sendo, é certo, uma forma ambígua de falar do acesso dos americanos às armas (“Pessoalmente, adoro atirar. Mas é preciso rendermo-nos à evidência: os americanos não sabem utilizar correctamente nem as armas nem seus revólveres. Mais vale que lhos tirem, isso é verdade”, disse o realizador), é sobretudo uma meditação melancólica e triste sobre a obsessão e a perda.

Decisiva é a personagem principal e a forma como o anúncio da libertação do assassino dos pais funciona como uma espécie de flashback de si próprio: o sem-abrigo sai das ruas e regressa aos locais e pessoas do seu passado, ficando o espectador a vislumbrar o que teria sido essa vida anterior. O que é surpreendente na personagem é que a figura que nos surge, depois de apagados os adereços, é alguém socialmente inepto, refém da infância (os traços físicos do actor Macon Blair, uma certa assexualidade, ajudam). É essa figura que vai vingar o resultado de uma inimizade entre duas famílias e, literalmente, acabar com ela.

Depois de tudo terminar, mas antes do fim do filme, Jeremy Saulnier faz-nos regressar aos objectos atirados, espetados e disparados durante a vingança, resgatando Blue Ruin ao exercício, suspendendo-o na gravidade.

Jogo de máscaras
E por falar neles: no mesmo dia houve mesmo um filme dos irmãos Coen, Inside Llewyn Davis, a sua oitava participação na competição de um festival que deu a Palma de Ouro, em 1991, a Barton Fink. O projecto, a evocação das dark ages da cena folk em Greenwich Village no final dos anos 1950, antes de Bob Dylan, antes dos ícones, um mundo ainda dos que desistiram, parece à partida estranho aos Coen, mesmo se há muito eles alternam a relevância com a excentricidade inconsequente. Mas começa a perceber-se que não é propriamente um retrato, muito menos afectuoso, de um mundo, e que é, como noutros filmes da dupla, o retrato da obsessão de uma personagem, Llewyn Davis (interpretação já celebrada de Oscar Isaac, actor de origem guatemalteca), que é uma construção a partir de uma figura real da era pré-Dylan, Dave Van Ronk.Inside-llewyn-Davis-frères-coen-cannesTudo o que gira à volta de Llewyn Davis pode bem ser a distorção de um obsessivo. O que faz com que os Coen não resistam a usar Carey Mulligan, Justin Timberlake ou John Goodman, que interpretam personagens com quem Davis se cruza, para um habitual e meticuloso jogo de aparições e máscaras.A coisa é bem feita, humor incluído, o filme, provavelmente o melhor dos cineastas desde Este País Não é Para Velhos, faz pausas para se ouvir a música e até para se rir com a música, o que parece mais pretendido pelos Coen — há momentos que na sessão de imprensa arrancaram palmas aos espectadores. Mas fica-se com a sensação de que o compromisso dos cineastas é, não com uma história ou com um grupo de personagens, mas com a engenharia do argumento, com o polimento das peças do seu dispositivo, que até inclui um gato chamado Ulisses.

No início do festival, na conferência de imprensa do júri, um jornalista holandês perguntou a Steven Spielberg se ele tinha ouvido falar do seu compatriota Alex van Warmerdam, que tem Borgman em competição. Era uma pergunta cínica, porque quereria demonstrar que os jurados ao não conhecerem o trabalho dos concorrentes não serão as pessoas mais indicadas para julgarem. Spielberg, que não conhece o trabalho de Van Warmerdam, respondeu bem: “Tornamo-nos familiares com [o trabalho de um realizador] se o filme nos levar a ter consciência da existência desse realizador.” Seria caso para perguntar agora ao jornalista o que é que Borgman traz para tornar Spielberg consciente da existência do seu realizador. Que põe em marcha um assalto a uma família da burguesia com ares de grande senhor, cheio de si (é ele que diz que o seu é um “filme forte”), quando, afinal, ao fim de dez minutos se sabe o que vai acontecer e como tudo vai acabar. Estará Alex van Warmerdam familiarizado com o cinema de Michael Haneke, terá visto Teorema, de Pasolini?

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