O país já não está ali

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Será delirante a sensação de que os animais nos olham, cheirando a presença humana que regressa a algo de ancestral, como se dissessem:  “Vocês já estiveram aqui”?

O ministro não está no Parlamento, anuncia o telejornal. O país também não. E as histórias deste país não precisam da televisão para existirem. Têm vida própria.

Campo de Flamingos sem Flamingos, o filme de André Príncipe que o IndieLisboa estreou na competição nacional, começa com a exaustão de um país que vai oficializando a sua crise na televisão. Plano fixo sobre uma televisão e um telejornal, o ministro que não está no Parlamento, e depois aquilo que parece um gesto de dissidência, de não pactuar com a incapacidade de reinvenção: o filme parte. Eis um filme que parte.

Durante três meses, entre Setembro e Dezembro de 2011, André Príncipe (fotógrafo, cineasta, editor, 37 anos), o director de fotografia Takashi Sugimoto e o operador de som Manuel Sá percorreram de caravana as fronteiras de Portugal. Essa viagem deu origem ao filme e a um livro de fotografias publicado no ano passado, O Perfume do Boi (pela editora de que Príncipe é fundador, a Pierre von Kleist).

Sobre o filme, o motivo primordial da viagem, disse o realizador ao PÚBLICO: “Enquanto viajante, uma das coisas mais mágicas e interessantes é, quando o comboio chega a um sítio onde nunca estivemos, não saber o que é que vem a seguir. Gostava que o filme pudesse ter essa qualidade, a inocência e a energia mais primordial de avançar por um território desconhecido.” Quer dizer: a ideia de seguir as fronteiras, as marítimas e as terrestres, não corresponde a um real desejo de mapeamento, é um alibi para encontros. A busca do que os homens e os animais possam revelar de desconhecido: os cavalos, o circo, a caça — os antílopes e os javalis —, as corridas, as formigas e o coleccionador de formigas… É essa a energia: nunca sabemos o que vem a seguir, não há mapa da sucessão de planos e sequências. Numa das sessões do IndieLisboa, André Príncipe, ao falar sobre o método de rodagem — respondendo à questão de saber se esperou pelos acontecimentos ou se tinha encontro marcado com os acontecimentos —, disse que se tratou, sobretudo, de captar os ciclos da luz. Não é coisa metafórica, é material: não passamos de uma história à outra, vamos sendo instalados por uma irreversibilidade natural e nada podemos contra esse movimento.

André Príncipe, Takashi Sugimoto e Manuel Sá partiram para outro país. Que tem histórias à solta que não precisam de televisão para serem contadas. Nós, espectadores, é que já não sabemos se as sabemos ler. Temos sido afectados nessa capacidade. Em 2012, referindo-se à edição do livro, o realizador contextualizava ao Ípsilon que a viagem partira de duas premissas principais: “A inexistência de uma unidade cultural em Portugal e a constatação do desconhecimento que temos do país” — desconhecimento esse provocado pelo tipo de imagens erradas que são mostradas. “Sempre tive a sensação de que as imagens de Portugal que se vêem nos telejornais de todas as televisões não eram imagens justas.”

Perante Campo de Flamingos sem Flamingos, por isso, só podemos ser crianças, sem saber se é noite se é dia, se o que vemos já começou ou já começou a acabar — se a presença humana sobrevive ou corteja a sua extinção. Como em alguns filmes do lituano Sharunas Bartas e como em alguns filmes do mexicano Carlos Reygadas — isto não é um mapeamento de supostas genealogias cinéfilas do filme ou de Príncipe; é um tactear com as emoções deste espectador —, as palavras silenciaram-se porque há uma aprendizagem a (re)fazer. É mudo o susto que desce sobre Campo de Flamingos sem Flamingos. A tensão que as imagens devolvem é a de uma fábula em movimento. Não será por acaso que depois de partir da televisão Príncipe nos coloque entre os animais — as fabulosas cenas de caça. É decisivo reinstalar um pacto naquele momento, antes que a viagem prossiga. É a reactivação de uma possibilidade de olhares. É a expectativa de um reconhecimento. Será delirante a sensação de que os animais nos olham, cheirando a presença humana que regressa a algo de ancestral, como se dissessem: “Vocês já estiveram aqui”? País, precisa-se

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