Brincar com o fogo

Autobiografias mais ou menos enraivecidas, uma entrega à vertigem com consequências aventureiras – o indie americano ainda brinca com o fogo.

ape

“Fazer filmes”, diz Joel Potrykus, realizador de Grand Rapids, Michigan, não lhe sacia a fome de ver os filmes dos outros. Dá-lhe é “menos tempo para ver as cretinices de que é capaz Hollywood.” A fagulha, numa entrevista no blog do Festival de Belfort (http://blog.entrevuesaujourlejour.fr/post/2012/11/27/Interview-de-Jo%C3%ABl-Potrykus), foi alimentada por prémios no Festival de Locarno, Agosto de 2012 (melhor novo realizador, menção na categoria de primeira obra), a Ape, fantasia pirómana filmada aos fins-de-semana.

Yindierealizadorape4colJoel escreveu, realizou, fotografou e montou enquanto respigava no mealheiro dos amigos. Depois, alguém olhou para o filme num festival suíço como se ele fosse “o princípio de uma qualquer vaga importante”, e Joel Potrykus, que desde então diz ter passado a ser assediado por festivais e premières, teve a sua epifania de vingança. Lembrou-se que para se deslocar a Locarno pedira fundos à universidade onde estudara jornalismo e cinema e o melhor que conseguiu foram duas t-shirts para uma rifa.

Prémios em Locarno: foi como se a realidade tivesse fantasiado de forma benigna a ficção. Que, em Ape (secção Cinema Emergente, 23, 3ª, 21h45; 24, 4ª, 24h; 26, 6ª, 24h – Cinema City Classic Alvalade), já era fantasia maligna da realidade: através de Trevor, stand-up comedian falhado – por isso pirómano e manejador de tacos de golfe (personagem interpretada por Joshua Burge) -, Joel expulsa com labaredas de fogo os demónios depositados pelo tempo em que mendigou atenção para as suas piadas em Nova Iorque.

É uma autobiografia enraivecida. Joel traveste-se de Trevor, que é um Travis Bickle da stand up comedyTaxi Driver, de Scorsese, está sempre na cabeça do realizador. Se perscrutarmos outras vozes que Joel confessa que na sua cabeça se ouvem, Michael Haneke, Jim Jarmusch, Alan Clarke (Scum,Elephant) ou Um Lobisomen Americano em Londres (o seu filme favorito porque está sempre a mudar de tom), aproximamo-nos do cadáver esquisito. Como o pacto com o diabo que submete Trevor, também o realizador Joel em vez de falar de sonhos e depois cortar para a sua simulação deixa o corpo deApe ser invadido pela paranóia, ocupado até se decompor.

LOOTcO oposto que faz Adam Leon, em Gimme the Loot (Cinema Emergente, 22, 2ª, 16h45; 26, 6ª, 23h55 – Cineca City Clasic Alvalade), fábula sobre doisgraffiters do Bronx que planeiam o gesto que os colocará no mapa da cidade. O oposto neste sentido: como se limpasse um território ocupado e devorado pelo cinema – Nova Iorque-, Leon cria uma geografia para se experimentar como primeira vez.

Voltando à autobiografia… Na fornada americana deste Indie, que há 10 anos fazia do festival americano de Sundance o seu Herói, há variações tortuosas de um regresso a si, em que o espaço biográfico é permeável a tráficos, entre o individual e o coral, ficção e documentário. Não é disso que falamos quando falamos de Francineda dupla Brian M. Cassidy e Melanie Shatzky (Competição Internacional, 20, sáb., 15h30, S. Jorge; 21, domingo, 19h15, Culturgest), que se encosta à opacidade granítica de Melissa Leo como quem se aproveita de um “género” pronto a habitar, mas o filme nunca aparece e a impecável Melissa, em ex-presidária que não encontra nada cá fora que a fixe, é condenada a ser não de um vazio imprescrutável mas veículo para um vazio descritivo; nem é isso Starlet, de Sean Baker (Cinema Emergente: 28, dom., 21h30 – Culturgest), passado em San Fernando Valley, o mapa de aridez onde as personagens de alguns filmes de Paul Thomas Anderson consolam buracos emocionais (família porno em Boogie Nights, por exemplo), que é um filme sem segredos para acrescentar à fórmula encontro de opostos ou gerações – e é mais Driving Miss Daisy (Bruce Beresford, 1989) do que, apesar dos cemitérios, Ensina-me a Viver (Hal Ashby, 1971). E é de laboratório a sordidez de Simon Killer (Competição Internacional, 21, dom., 21h45; 22, 2ª, 21h45 – São Jorge), com que Antonio Campos viaja até ao submundo de Paris: como não há humor a boicotar o convencimento do formalista que é o autor do magnífico Afterschool, não dá para o espectador fantasiar e ver neste american psycho em construção (Brady Corbet) um gesto auto-irónico de exposição das dores de crescimento de um cineasta.

Pincus1Há autoironia, e entrega a buracos negros de consequências aventureiras, num filme como Pincus (Cinema Emergente, 26, 6ª, 16h15; 27, sáb., 24h – São Jorge). Aqui, felizmente, brinca-se com o fogo. David Fenster pegou nos registos das ruminações sobre a vida e a morte com o pai, doente de Parkinson há 13 anos, e utiliza-as numa ficção: história de um filho à deriva (o actor David Nostrom, que se diz ser parecido com Fenster), em bandalheira profissional – desbarata o legado profissional familiar – e pessoal, não lidando com a responsabilidade de tomar conta do pai, doente de, adivinharam, Parkinson (e é o pai do realizador que “interpreta”).

David FensterHá quem critique a Pincus o facto de, tendo em mãos um material tão humanamente impositivo como a doença e a morte, escolher olhar para o lado, preferindo a ligeireza do retrato do homem-criança. Esse registo de documento em fuga para a ficção, tal como a personagem que busca, nunca de forma convicta, o alívio no intangível de trazer por casa, é na verdade bastante astuto a rondar o buraco negro. E é consequente na atracção pelo abismo: é ali que, no fim, se desaparece.

Como a “ficção” se comporta perante a proximidade do “documental” e que objecto mutante daí resulta – pode ser uma forma de estar nas imediações de Exit Elena (Cinema Emergente: 21, dom., 14h45, Culturgest), de Nathan Silver, realizador para quem, em declarações à revista Filmmaker“life is more important than drama.” Constrói com elementos da família uma ténue ficção – a base é a chegada de uma enfermeira que vem tomar conta da avó. Mas deixa de fazer sentido identificar que a mãe da família é a mãe de Nathan, que Nathan entra como Nathan e que a actriz que faz de enfermeira era, na rodagem, a namorada do realizador; o importante é sentir que isso, o que se acumulou e aproximou, produz um crepitar de tensões, não querendo saber do plot em fundo.

Yindiedarkerb)3colO que se presencia em I Used to be Darker, de Matthew Porterfield (Cinema Emergente, 25, 5ª, 16h15 – S Jorge), é o mundo a ruir – a separação de um casal de Baltimore. Porterfield, tal como no anterior Putty Hill (2011), permite momentos de “solo” às personagens para falarem de si ao espectador. Cantando, por exemplo. Até chove, mas não sapos, como em Magnolia, de Paul Thomas Anderson. O título do filme vem de uma letra de Bill Callahan, Jim Cain, do álbum Sometimes I Wish We Were An Eagle: “I used to be darker, then I got lighter, then I got dark again. Something too big to be seen was passing over and over me”. Foi uma canção importante para Porterfield durante o processo de divórcio. Autobiografia dos sentimentos, coloca o espectador tão próximo das personagens e tão perto da impossibilidade de chegar a elas. Este cineasta começa a transbordar.

 

Um comentário a Brincar com o fogo

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