Coreografias do mundo a ruir em Baltimore

Transbordante é o cinema musical – com canções ou não – de Matthew Porterfield. 

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Matthew Porterfield, 36 anos, cineasta de Baltimore, três longas-metragens: Hamilton (2006), Putty Hill (2010) e, neste Indie, I Used to Be Darker (19, 6ª, às 16h15, 25, 5ª, 16h15 – S. Jorge). Uma experiência a ser conquistada pelo espectador: chegar próximo de personagens que articulam as suas perdas. Musical, transbordante.

I Used to be Darker (2013) é a experiência do mundo a colapsar. O título vem de uma letra de uma canção de Bill Callahan [Jim Cain], importante para si durante um divórcio. É uma experiência com a autobiografia, como outros filmes americanos neste Indie.

Sim, e obrigado por descrever o filme como sentimento de assistir a um mundo a colapsar.

É o meu filme mais pessoal. Fui casado, divorciei-me. Sou também filho de pais separados: separaram-se quando eu tinha a idade da personagem Abby [a filha do casal que se divorcia]. Escrevi o filme com Amy Belk, vivíamos juntos e essa intimidade fez-nos sentir respeito pela experiência de cada um nas suas relações, pelo sítio de onde cada um de nós vinha.

Yindiematt4colHá uma estrutura coral nos seus filmes – falo também de Putty Hill (2010). Como equilibra o individual e o grupo, como coreografa? Os filmes parecem-se com musicais, as personagens têm o seu solo para falarem, cantando ou não, de si próprias.

A palavra adequada é essa: coreografar. Estou interessado na família; mas para mim a família não é aquela em que se nasce, é a que escolhemos. Cada filme é uma ensemble piece, e do que se trata é de coreografar para se chegar à maior proximidade possível com as personagens.

E chegar mais perto de uma impossibilidade. Estamos perto delas – há um plano que se repete em Putty Hill e I Used to be Darker: dentro da piscina, a sublinhar a sensação física de intimidade. Mas também sentimos que nunca saberemos quem são essas pessoas.

Isso é verdade. O espectador está habituado a ter uma relação confortável com as personagens. Eu quero que experimente a dificuldade de chegar a elas, mesmo a impossibilidade de empatia. Porque é assim que interagimos com quem nos cruzamos.

A questão da empatia e as canções remetem-me para um realizador: Robert Altman. Nashville (1975), claro, mas de forma geral o cinema de alguém acusado de desprezar personagens, no mínimo, de ser irónico. O espectador balança quando, em I Used to Be Darker, os elementos desse casal que se separa começam a cantar: o mundo a ruir, e eles com as baladas…

Essa dúvida faz sentido. Mas a ironia é coisa que não aprecio. Sou destituído de ironia. Pode acontecer que o espectador não goste do estilo da canção, o que o pode colocar numa situação de desconforto. Quanto a Altman: não vejo desgosto pelas personagens. Haverá distância, mas gosto dessa distância.

Há dez anos, o Indie homenageou o Festival de Sundance. O que é ser indie hoje?

Fiz o meu primeiro filme, Hamilton, há 12 anos. Foi estreado em 2006, mas fi-lo em 2002. 2006 assinalou uma mudança no indie americano, com uma vaga low budget, autobiográfica, que foi fértil – por alguma razão começámos por falar disso. Houve algo de pioneiro. As coisas mudam rapidamente por causa da tecnologia. Há mais filmes, mais realizadores, o cinema é hoje uma nação global. E os filmes podem ser mais arriscados, porque aguentando-se uma semana numa sala, o video on demand é uma solução: está a mudar a consciência das pessoas.

E o que é ser cineasta de Baltimore?

É uma cidade com desemprego, desníveis sociais e uma grande diferença entre a cidade e o subúrbio. O cinema é, por isso, meio de comunicação. Ao contrário de Nova Iorque, não tem um sistema de transportes públicos que igualize as pessoas. Em Nova Iorque as pessoas misturam-se na rua, a estrutura da cidade torna-se factor de unificação. Alguém da classe média de Baltimore pode estar a dois quarteirões de um bairro negro e não haver comunicação. Não é por acaso que em I Used to be Darker não há negros: a classe média não comunica com as outras classes. E como não nos vemos frequentemente representados em cinema é importante para um cineasta de Baltimore ter um filme em exibição na sua cidade.

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