À conquista de Nova Iorque

LOOTc

Adam Leon pisa com pés de fábula um território de que o cinema se apropriou.

Graffiters do Bronx planeiam o gesto que os colocará no mapa da cidade. Mas vão ser enganados, em dias de calor nova-iorquino… Adam Leon, 30 anos, pisa com pezinhos da fábula um território de que o cinema se apropriou. Gimme the Loot, primeira obra e ilusão de primeira vez. O espec­ta­dor desco­bre Bronx, Queens e Upper Man­hat­tan. O filme (6ª, 19, 23h55; 2ª, 22, 16h45; 6ª, 26, Cinema Classic Alvalade) nega-lhe o ime­di­ata­mente reconhecível; e às per­son­agens nega-lhes a mitolo­gia. Aven­tura moderna.

Trabalhou como assistente de Woody Allen [Hollywood Ending, Melinda e Melinda], cuja Nova Iorque é diferente da Nova Iorque de Gimme the Loot. A cidade foi uma aventura negociada durante a rodagem ou já lhe pertencia?

As duas coisas. Cresci em Nova Iorque, e andei numa escola pública, onde havia miúdos de todas as camadas sociais. Por isso comecei cedo a “explorar” a cidade de diferentes maneiras. É importante mostrar algo que as pessoas não conhecem mas que existe: uma Nova Iorque de bairros cheios de energia, garra e até alguma agressividade.

Conhecia alguns dos locais em que filmámos, outros tiveram que ser negociados. Há partes que raramente são visitadas por equipas de cinema e quando o são o resultado é sempre para dizer que é terrível, etc. Na verdade tratou-se de negociar, então, a nossa presença ali. É claro que não podemos mentir, que há problemas e estas personagens têm uma base real. Mas é importante dar uma outra perspectiva sobre elas. Andámos muito pela cidade a pesquisar.

Sempre se pode dizer que estas personagens em outros universos poderiam ser gangstersdealers… Que equilíbrio faz entre realismo e fábula?

Há uma diferença importante: “autêntico” e “real”. É importante que Gimme the Loot seja autêntico – nos cenários, no guarda-roupa, nos graffiti, nas personagens. Mas a realidade não é por si só interessante. Isto é um filme. Quero pegar no espectador e levá-lo para uma aventura. Se calhar a ideia de que estas personagens podiam ser gangsters foi imposta pelo cinema, é culpa dos filmes…

É uma experiência cinematográfica de Nova Iorque diferente da habitual: uma geografia ao alcance de todos, um tempo vagaroso…

Nova Iorque é uma cidade com uma geografia que faz com que as pessoas se juntem nas ruas. Este é um filme de aventuras urbano, mas sem carros. Lembro-me quando era miúdo de que era uma aventura ir a casa de alguém em Brooklyn à noite, andar de metro e depois a pé, a cidade como experiência de viagem. Nem todas as pessoas em Nova Iorque têm carro e isso fá-las misturarem-se na rua.

765152

Trabalha a partir de um património, essa cidade, mas permite-se experimentar como se fosse uma primeira vez. Uma ilusão, porque em 1953 as câmaras saíram para as ruas, e isso foi antes danouvelle vague, para um western urbano: Little Fugitive, de Raymond Abrashkin, Morris Engel e Ruth Orkin, filme que o influenciou.

Sim, já tinha a primeira versão do argumento escrita quando vi Little Fugitive. E foi inspirador o facto de se tratar de um meio operário cheio de dificuldades que os miúdos do filme conseguem superar. Tratou-se de dar coração a um filme e a personagens. Há 50 anos alguém conseguiu fazer isso.

A disponibilidade para o despique de Sofia (Tashiana Washington) lembra a personagem feminina de She”s Gotta Have It, de Spike Lee (1986). Às tantas descompõe os sonhos degoodfella de Malcolm (Ty Hickson). Interpreto isso como forma de “limpar” uma imagem que o cinema, Scorsese neste caso, cristalizou…

Seria estúpido da minha parte comparar-me aos mestres ou comparar o meu cinema ao cinema que eles fazem. Mas não posso negar que é inspiradora a ideia de que qualquer cidade pode conter filmes diferentes. Que o que interessa é um realizador ter uma visão e que essa visão sirva uma história.

Por falar em Spike Lee… alguém protestou pelo facto de um cineasta branco se ter atrevido a filmar personagens de uma realidade que não lhe pertencia, a comunidade negra?

Não ouvi ninguém dizer que eutinha feito algo de errado. Perguntaram-me muito sobre isso, mas mais como preocupação de que pudesse acontecer… Quem vir o filme vai perceber que não se trata da identidade racial. O filme começou quando conheci Ty Hickson. Passa-se em vários bairros da cidade e a raça não é determinante. Não é um filme sobre afro-americanos, mas sobre duas personagens, que são afro-americanos, em aventura pela cidade.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>