A voz do cão

757526“Simão, cala-te!”

Simão não se cala. E ladra, e fareja… É filme a ladrar, a arfar e a ganir, Má Raça, curta de André Santos e Marco Leão, que vai estar na competição internacional do IndieLisboa.

Tem o mesmo título do filme de 1986 de Leos Carax. André Santos diz que “não é uma coincidência”,  que o título se impôs ao inicial Matilha e que pareceu natural, à dupla, por se tratar de um filme que faz parte do seu “imaginário”, arriscar nesse “jogo”. E talvez nem seja jogo… Há, às tantas, em Mauvais Sang (1986), filme em que parece que é Godard e o cinema de Godard que falam, como uma voz interior, a voz do dono (um efeito de ventríloquo permanece no cinema de Carax, aliás, está ainda no Holy Motors), uma cena em que, com o seu ar de rafeiro surrado, Denis Lavant diz a Binoche que nem como cão se sente tratado. Porque um cão tem cadela e outras coisas doces.

O Simão deste Má Raça também é rafeiro. E não é doce a vida com uma mãe e uma filha dentro de uma casa que é um labirinto de becos sem saída, de sítios por onde ele não pode circular – impasses da relação entre aquela mãe e aquela filha.

Há um plano, no início, em que uma mudança de luz, acidente não previsto, chama a atenção do cão – na vida real, Simão, tal como a mãe e filha são “personagens” para uma verdadeira mãe e uma verdadeira filha. Há um movimento da cabeça do bicho, uma inquietação, como um radar de imponderáveis. Isto, que é uma intromissão do acaso, diz sobre Simão: é dele a voz do filme, são os latidos da claustrofobia familar. A câmara de André Santos e Marco Leão estava lá. O que diz também – por isso há nesse acidente algo de “luminoso” – sobre o cinema de uma dupla que já vai na quarta curta, depois de A Nossa Necessidade de Consolo (2007), Cavalos Selvagens (2010) e Infinito (2011).

São filmes que podem ser classificados de “atmosféricos” se isso, em vez de apontar para uma afectação, der conta de um movimento que se expande para encontrar, reter e tocar a intimidade em todas as matérias. O filme anterior, Infinito, o mais abstracto de todos, deixava o espectador à beira de uma serenidade terminal. E a partir daqui, para onde?

Má Raça é a resposta: aumentando a musculatura ficcional (sem nunca ser traída a intimidade, até no modo de produção), André Santos e Marco Leão amplificam os sons e as vozes que antes murmuravam. A angústia, que lentamente carburava dentro deste cinema, agora explode.

É bom sentir que eles não traíram a sua voz.

 

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