Toys, toys, toys!

Beasts of the Southern Wild - 6

Ainda assim, gostamos de dizer que estivemos “ali”… Quer dizer: apesar de Bestas do Sul Selvagem/Beasts of the Southern Wild, o stunning debut de Benh Zeitlin, como se escreveu na imprensa americana (next beast thing, já agora?), trazer em si os sinais do seu cansaço, como se se cansasse do seu júbilo, é verdade que somos lançados pela carapinha mitológica de Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), uma miúda que enfrenta mostros e água e faz questão de prometer ao futuro provas da sua existência na terra: dela, do pai e de todos os que, isolados dos gov­er­nos e das leis, postos ao largo, vivem na Bathtub – o sítio mítico na Louisiana que ficou do lado de fora dos diques que protegem os que, do lado de dentro, têm medo da água como os bebés. Bestas do Sul Selvagem tem essa capacidade de promessa: promete-nos, para o nosso lugar de espectadores, uma cosmogonia. Configura-se como “acontecimento” a que é preciso assistir, para ver acontecer. Não por causa do prémio em Sundance, nem pelas quatro nomeações aos Óscares (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Actriz), mas porque se constrói em festa e explosão, dispondo-se a jorrar mito – mesmo que entre em dificuldades com essa tarefa de permanente rein­ven­ção. Por isso: “ainda assim, gostamos de dizer que estivemos ali”…

closeencounter2Num artigo no New York Times, A. O. Scott encontra para o filme uma linhagem spielberguiana. É uma interessante alternativa ao discurso que vem escutando sobretudo a voz malickiana que Zeitlin, na verdade, assume como património. Para Hushpuppy, Scott reserva a irmandade daqueles que, como Elliot no E.T., como o Jim Graham de Império do Sol ou como o Barry de Encontros Imediatos do Terceiro Grau, filhos de uma paisagem emocional devastada, movem montanhas para desenharem a sua ordem no mundo.

Nem sempre foi notada, nem nunca foi muito valorizada – e Scott continua a não ir por aí – a sofreguidão, a ferocidade com que essas pequenas criaturas quiseram impor o seu mundo. O Jim Graham/Christian Bale de O Império do Sol talvez seja a versão mais angustiante e angustiada, mais neurótica até, disso, mesmo se o filme está longe de ser um dos melhores Spielberg. Hushpuppy procura a mãe, e nos filmes de Spielberg o ausente era quase sempre o pai. Mas ela é, como os outros, uma pequena ditadora. Impõe(-nos) a sua voz (em off), uma leitura do mundo, aquele onde “todos os corações falam ao mesmo tempo”, às vezes para diz­erem que têm fome, out­ras vezes para diz­erem que querem fazer cocó.

Já Spielberg, nesses anos, foi, esse sim, acusado de fazer ditadura com os sentimentos. Não sei o que Spike Lee disse, ou se disse alguma coisa, sobre Bestas do Sul Selvagem, ele que gosta tanto de mostrar os galões de um património que supostamente lhe pertence. Mas, tendo realizado em 2006 When the Levees Broke, um Requiem in Four Acts que fazia o levantamento em profundidade da sociedade americana no pós-Katrina, como se verificasse o fim de uma utopia, poderia lembrar-se de acusar o site-specific de Zeitlin, filme que se quer como emanação de um lugar chamado Nova Orleães, de branqueamento, de se refugiar nos sentimentos, impondo-os. Não vamos por aí, mas por aqui: há qualquer coisa de calculista em Zeitlin, é verdade. E como cineasta revela-se mais formatado do que aquilo que convoca, descobrindo-se o convencionalismo no interior de sequências, perdendo algures Bestas do Sul Selvagem o seu estado de graça – é a sensação de que se cansa da correria que lhe impõem. A ver como Zeitlin, 30 anos, se mostra na próxima longa.

Post-Tenebras-Lux-Cannes-ImageCarlos Reygadas, mexicano, é que fez praticamente uma “cara de Spielberg” – aquela que Kevin B. Lee desenvolveu num video essay inspirado num artigo de Matt Patches onde essa cara é descrita assim: “Eyes open, staring in wordless wonder in a moment where time stands still” – quando há dias, numa conversa em Paris, associámos o início de Post Tenebras Lux, o seu novo filme (estreia portuguesa prevista para Abril), a Encontros Imediatos do Terceiro Grau. O ponto era esse: Post Tenebras Lux começa com uma criança – a filha de Reygadas; depois, mais à frente, aparecerá a casa de Reygadas… – a certificar a existência do mundo que está a ser criado: “Árvores! Cavalos! Cães!”. Tal como Barry perante o disco voador antes de ser raptado: “Toys!”. Reygadas descobriu os segredos do silêncio do amanhecer e do crepúsculo, como se via e ouvia em Luz Silenciosa, filme de 2007 que ele admite ser o seu mais pessoal. Desta vez, há de novo uma abertura extasiante – e extasiante porque ressoam possibilidades de violência. Talvez seja um momento spielberguiano anti-spielberguiano o início de Post Tenebras Lux: uma perda de inocência. Quando uma criança, incólume (como “um charco de água”, dirá Reygadas), começa a nomear, a conhecer o mundo, a experimentar a dissociação, o medo (“mamã, mamã, mamã”). Spielberg no cinema do mexicano? Carlos recompôs-se amavelmente: “Todas as interpretações são admissíveis, acho interessante…”. E até olhou como Barry, como se visse “toys!” vindos do espaço.

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