O show da realidade

O filme fica à porta do Big Brother. Mas entra nas nossas fantasias.

Roberto Saviano, o autor de Gomorra, contava nesse livro que um chefe mafioso mandou construir uma casa réplica da de Tony Montana/Al Pacino no Scarface de Brian de Palma. Saviano argumenta assim: foi a Mafia que construiu a sua imagem a partir do cinema, não foi ao contrário; O Padrinho e Michael Corleone, por exemplo, terão sido um ponto de partida para a realidade se construir e fazer o seu show, não foram um ponto de chegada. Matteo Garrone adaptou esse romance ao cinema. O filme, de 2008, era superiormente evocativo, filmado sem piscadela de olho cinéfila, mas destilando naturalmente toda uma memória do cinema italiano — um gesto com qualquer coisa de enciclopédico, até.

A personagem principal do novo Garrone, Reality, também quer impor a sua fantasia à realidade. Faz pensar naquele mafioso de Gomorra entregue à sua ilusão. Luciano (Aniello Arena) é um vendedor de peixe, quer entrar no reality-show Big Brother e vai adequando a “realidade”, violentando-a, violentando-se. O filme nunca entra na infame “casa”, mas aproxima-se de uma família napolitana de forma delicada para não a vampirizar, já que Luciano e o sonho são suficientes para colocar em marcha uma dinâmica implacável, ditatorial, autofágica.

Reality não é nem um filme sobre o Big Brother, já que fica à sua porta, não entrando, nem sobre a televisão. Mantém-se sempre do lado de quem vê. Se tirarmos a televisão e Il Grande Fratello da equação, nada se altera de substancial: muda o cenário mas continuamos perto de quem se deixa encerrar na fantasia que quer como molde do mundo. O que faz de Luciano uma figuração recente daquele tumulto masculino, simultaneamente frágil e feroz, que estava em perda perante o chamado boom italiano: a tal “comédia à italiana” dos anos 50 e 60 que muitas vezes tinha no centro alguém com uma candura capaz de delinquências várias, e sempre imprevisível.

No rosto de Aniello Arena, o intérprete de Reality, cruzam-se Totò e Robert de Niro. Não é fantasia, basta olhar — o DeNiro dos seus inícios com Scorsese, pura energia e violência, e o DeNiro de O Rei da Comédia, patética solidão, também. O que faz de Garrone, finalmente, um dois em um naquela tradicional dicotomia que separa “realistas” de “fantasistas”. Na tradição dos Risi, Monicelli e Fellini de outros tempos (O Sheik Branco, tão doce e tão ácido que fere, é influência assumida por Garrone, mas todo o seu filme dá à praia como espuma felliniana), quando a ferocidade do real era interceptada e instigada pela selvajaria da fantasia. Retrospectivamente, até Gomorra, que já não era “mais um filme sobre a Mafia”, que despachava logo no início os tiroteios e a estilização que cristalizam o “género”, se afasta do realismo e do social. Não é, afinal, uma história de homens (mafiosos) enredados nas suas fantasias e nos fatos (e nas casas) dos seus heróis?

Voltando a olhar para Aniello Arena: é na realidade (palavra que se revela bastante silenciosa quando associada a este filme e a estas figuras) um condenado a prisão perpétua, por envolvimento na morte de três membros de um gangue rival no tráfico de droga; foi encontrando a sua redenção, disse o próprio, em grupos de teatro prisionais — como as personagens de César Deve Morrer, dos Taviani. Garrone diz ter detectado nele uma capacidade de surpresa que só pode estar associada a alguém que há décadas vive afastado do mundo: só assim pode olhar como se estivesse sempre a descobrir. Luciano, a personagem que interpreta, acede, finalmente, ao cenário da sua fantasia. É talvez o sinal de que nunca saiu dela. De alguma forma Reality pode ser também o documentário do embate de um presidário com o mundo: o maravilhoso condenado a ser interrompido. Tem acontecido ao cinema de Garrone, pela conexão napolitana do trabalho do romano, esse tráfego entre clausura e evasão — depois de Gomorra, por exemplo, alguns dos intérpretes, gente recrutada na zona de Nápoles, deram entrada, por assim dizer, na prisão… Não há outra explicação: é show da realidade.

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