O actor que não (me) vê

Tenho a sensação de que Daniel Day-Lewis não me vê. Não falo do actor de A Minha Bela Lavandaria. Falo do actor que começou a fazer-se raro, a passar como os cometas, de x em x anos, e a surgir investido com a autoridade dos acontecimentos: o Daniel Day-Lewis de Gangs de Nova Iorque (Martin Scorsese), de Haverá Sangue (Paul Thomas Anderson), agora de Lincoln (Steven Spielberg), que aborda cada papel/personagem como se fizesse uma síntese – da mesma forma que Stanley Kubrick pegava num género para dizer através dele a “última palavra”, e por isso faz sentido que Paul Thomas Anderson o tivesse ido buscar para Haverá Sangue, que é um filme kubrickiano.

Esta coisa de que “ele não me vê” não é necessidade de que me passe a mão pelo pêlo. Lewis vê, claro, mas vê a sua “arte”. (Por isso me parece cego.) Essa coisa de ser The World’s Greatest Actor, como lhe chamou a Time em capa, escapa-me. Poderia dizer isso de Isabelle Huppert, mas seria sempre utilizar uma fórmula (para ser contrariada de seguida) para dizer do medo que Huppert causa às vezes. No sentido em que as crianças de Nana (Kelyna Lecomte no filme de Valérie Massadian) ou de Ponette (Victoire Thivisol no filme de Jacques Doillon) me metem medo: não sei exactamente de onde aquilo lhes vem, não sei o que estão a fazer e como estão a fazer nos filmes. Isso é o que sinto às vezes em Huppert, parece uma criança. Daniel Day-Lewis, que é muito talentoso, não mete medo.

Pode contrapor-se que ele não nos vê em Lincoln porque está sempre a olhar mais longe, para o horizonte, para a utopia. Bem, isso é o que fazia Henry Fonda no Lincoln de John Ford, o Young Mr. Lincoln (1939). Mas Fonda (e Ford) incluía o espectador na utopia, nesse horizonte, transportava-o. No caso de Day-Lewis, é já a “retórica” da personagem fixada, é o traço figurativo que “quer dizer que…”

É altura de, ao falar de Ford, falar de Spielberg. Que se pense na obra-prima daquele ao ver o filme deste parece-me natural – forçado era chamar “fordiano” ao filme do cavalo, War Horse (2011). Spielberg não pode estar à espera que não se estabeleçam comparações. Parece-me até que o filme, justiça lhe seja feita por isso, se abre a uma linhagem de continuidade. É  claro que dizer “fordiano” em relação a Lincoln não serve de elogio automático: é só a evidência de um fantasma que o filme não consegue transcender.

Deixávamos o jovem Lincoln no alto de uma colina e, terrível presságio, começava a chuva: a dizer-nos que Abraham iria ser entregue à tempestade da História. Spielberg não se esqueceu desse fim, até o integrou porque não o poderia fazer de outro modo; não seria capaz de fazer de outro modo: como num raccord, começa o seu filme sobre o mais velho Lincoln dentro da tempestade, nas manobras do presidente para conseguir a aprovação da 13ª Emenda. Ford intimida Spielberg, o que é natural. A História também, como se tinha percebido em Amistad: o realizador que se superou com extraterrestres nunca fez mais, nesse campo, do que compactos académicos. Lincoln diz muito de uma dificuldade, que é hoje do cinema, de lidar com o humano e de acreditar na possibilidade de mito. Daniel Day-Lewis não se desembaraça de Fonda, e o seu caso, sendo enciclopédico, não deixa de se imobilizar na galeria académica: mais informação para a “totalidade”. É o problema de Lincoln: estabelecida a retórica, tudo é reconhecível, prisioneiro de um formato. Ford ou Capra, esses, fizeram da retórica a possibilidade de transcendência.

2 comentários a O actor que não (me) vê

  1. Porque a maioria dos críticos tratam o Spilberg com desdém? Spilberg é o maior cineasta da atualidade e um dos maiores de todos os tempos. Ele fez filme focando diversos temas e estilos sempre com muito sucesso. Poderíamos citar 20 grandes filmes do diretor americano. Os ingleses fizeram uma lista dos 50 maiores filmes da história e não colocou nenhum do Spilberg, somente filmes antigos. Nem todos os filmes antigos são obras-primas, alguns na verdade são muito chatos. Temos que nos render a genialidade de Steven Spilberg.

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    • Não há desdém algum… algumas das obras-primas do cinema americano (já agora, alguns dos meus filmes favoritos) pertencem-lhe. À cabeça: Encontros Imediatos do Terceiro Grau. E ainda: ET, Tubarão…

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