A febre de ontem

O que se segue não é um ataque de nostalgia. Não há saudade do passado – não tenho idade para… mesmo se tenho inclinação para…

No passado, Saturday Night Fever foi uma sessão numa grande sala de cinema de Lisboa, já desaparecida como quase todas, em que a plateia e o balcão ensaiavam abanar-se. Finalmente, as coxias romperam a timidez e levantaram-se para a performance – karaoké de movimentos. Mas essa coisa de haver em cada espectador um potencial Tony Manero desgostou-me. Não sabia que lá por fora estava já em marcha o “disco sucks” que lançava vinis à fogueira, mas era isso o que dizia para mim. Essa sensualidade banhada a Bee Gees cheirava-me a mancha de gordura a borrar as pretensões de modernidade (tintadas a pós-punk) que eu queria ver à volta. E o filme nem sequer se parecia com um filme. Parecia-se com um manhoso folheto de instruções para dançar.

Quando comecei a saber dizer “John Badham” – por causa de miniaturas chamadas Whose Life is It Anyway, Blue Thunder, War Games, Stakeout ou Nick of Time – Saturday Night Fever não permitia link algum. (Quando pensava nisso, um sobressalto…)

Ao longo do tempo fui tropeçando nas imagens – o genérico, por exemplo: a insolência de Travolta a pavonear-se nas ruas de Brooklyn. O cheio a gordura ameaçava desvanecer-se. Instalou-se uma suspeita: a de que havia ali algo a chamar-me.

Para voltar ao início: não é saudade do passado, é a constatação de uma ausência no presente. Basta olhar à volta: o cenário é mais desgostoso do que o cheiro a gordura do disco sound em 1977. Algo que o cinema americano mainstream já perdeu é exibido por aqui com ferocidade: ambição, classes sociais, sexo, aquilo que foi evacuado dos ecrãs, que hoje são terra de ninguém, sem libido, sem aventura humana. Surpreendente para um filme de grande público (mas o público também podia ser grande porque era bafejado pela ferocidade a cada esquina), e ainda para mais num projecto de produtor e a servir de veículo a uma estrela emergente, era a consciência do lugar de onde se vinha, algo que desde os primitivos de Hollywood sempre impeliu ao movimento, quanto mais não fosse para transcender o lugar de onde se vinha; era a fidelidade a uma genealogia, a uma família, como naquele plano, personagem de cinema a exibir o seu património de personagem de cinema, em que Tony Manero/Travolta grita pelo Al Pacino de Serpico ou como naquele outro em que se vê o cartaz de Rocky/Sylvester Stallone.  (É com este património que, de forma silenciosa, um dos grandes filmes de 2012, Vergonha, de Steve McQueen, lida, e por isso lida com uma perda – de novo, sem nostalgia).

O cinema americano deixou de pactuar com os proletários. Dois anos antes do plano icónico do par burguês sentado em dowtown Manhattan, Brooklyn do outro lado (Manhattan, Woody Allen, 1979), Saturday Night Fever enquadrava um par de Brooklyn a olhar para Manhattan, sonhando atravessar a ponte: um diálogo virtual, claro, mas uma amostra de como nos ecrãs do cinema americano desses anos as cidades eram o mapa de uma aventura humana. E um território sempre por dominar.

Sabe-se, hoje, que John Badham entrou com o projecto em andamento depois de John G Avildsen (o realizador de Rocky) ter sido despedido. Travolta contribuiu para isso. Não estava a gostar da forma como Avildsen adocicava a sua personagem e o argumento, que era baseado num artigo da New York Magazine, “Tribal Rites of the New Saturday Night”, de Nick Cohn, sobre novas movimentações que saíam do gueto (o disco sound até então estava confinado ao milieu negro e gay). Dir-se ia, então, que em Saturday Night Fever as personagens reafirmam constantemente a sua linhagem como se vigiassem qualquer tentativa de reescrição da sua história. A relação entre John Travolta/Tony Manero e Karen Lynn Gorney/Stephanie Mangano, a forma como não deixam que entre eles se instale a love story, até para que nada se intrometa na ambição de atravessarem a ponte para Manhattan, pode ser isto: eles impedem que qualquer truque de argumento os faça trair a “verdade” da sua construção.

O musical, esse, revela-se, mais hoje do que ontem, destemido: desapareceu a “exibição”, ficam apenas as personagens a dançar como antes, no período clássico, cantavam ao falarem de si. O disco sound, esse, é glorioso

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>