Mulheres em marcha

Chama-se Obrigação, tem 55 minutos. Ainda não está fechado o título e tem 140 minutos.

É o filme que João Canijo rodou, encomenda do programa Estaleiro do Festival de Curtas de Vila do Conde, na comunidade de Caxinas. Se calhar, por isso, são dois filmes e não duas versões, uma curta e uma longa, do mesmo, como era Sangue do Meu Sangue. Dizem-me que é assim que o realizador entende e quer: dois filmes.

Não sei o que se ganha ou o que se perde com o forçar ou com o eliminar da autonomia. Sei que o que vi em Vila do Conde era habitado por uma potência, por uma energia à espera de explodir, e que a pureza da coisa estava na brevidade, na sugestão – e no evitar da deflagração, embora fosse uma experiência de pequenos estados de graça. Havia uma comunidade de mulheres, à espera do regresso dos seus homens do mar, e havia uma mulher entre elas, uma actriz (Anabela Moreira). O que ela fazia ali não era sublinhado, sugeria-se a aprendizagem, a perda, uma enorme exposição da actriz. E engrandecia-se um grupo de mulheres, grandes e em marcha, como a pura aventura de um documentário quase nada perturbada pelo elemento de “ficção”, a actriz ali metida – por isso a palavra “pureza”, que deve ser das mais estranhas para falar do cinema de Canijo, embora seja verdade que este filme (ou esta versão de 55 minutos?) abre a curiosidade: quem sempre falou do “desprezo” do cineasta pelas suas personagens, o que vai conseguir dizer agora?

Sei que o filme que vi a noite passada, aquele que ainda não tem título e que vai ser estreado em Vila do Conde este sábado, é o mesmo e é outro (mas não era assim Sangue do Meu Sangue?). Continuo curioso, à espera do que vão ter de inventar os que manejam com sobranceria a associação Canijo-“telenovela”. Sei também que este filme complexifica a coisa da “pureza”, dificulta o caminho para a habitar. Se calhar diz-nos que ela é impossível. Mas nunca nos tira a experiência da euforia, de ficcionarmos ou fantasiarmos com ela.

Ficção e fantasia, pois

Aqui temos uma actriz, Anabela Moreira, em monólogos de perda frente a uma câmara que lhe foi entregue (parte substancial do material que Canijo filmou depois da apresentação do primeiro filme, o de 55 minutos). Confessa-se incapaz de amar, com inveja do amor que sente num grupo mulheres grandes e em marcha. Confissões amargas de uma aprendiz solitária numa escola de mulheres que, ao contrário dela, estão realizadas no amor e certificam-se da sua aventura nas canções de Zezé di Camargo. Perguntar se Anabela Moreira “é” Anabela Moreira ou, em vez disso, se é uma personagem construída pela actriz, é talvez passar ao lado do fundamental: em qualquer dos casos, é uma presença que desencadeia a possibilidade da outra. Nesse sentido, as figuras do “documentário” são tão construções e reinvenções como a “ficção” da actriz. Como uma excitação mútua. Essa proposta, essa lucidez sobre todos nós, parece-me “generosa” – sim, outra palavra que, para muitos, é surpreendente fazer habitar no universo do cineasta Canijo.

Filme para regressar, euforia para voltar a experimentar…

 

 

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