Isto (não) é paisagem

Apetece dizer James Benning se envolve numa melancolia proustiana ao fixar demoradamente os espaços, os edifícios da sua cidade, Milwaukee, para reactivar memórias biográficas, fantasmas de gentes – ao fazê-lo, coloca, é claro, o espectador nessa disposição.

Em 1976, querendo retratar as mutações, a gentrificação que ameaçava o desaparecimento de uma zona industrial e operária da cidade, colocou a câmara em 60 lugares – plano fixo, 1 minuto cada. Chamou-se One Way Boogie Woogie, e o título do filme citava (voltamos ao mesmo sentimento, melancolia; mas não se pode escamotear a ironia…) a obra com que Mondrian, entre 1941-1943, fazia a sua abstracta sinfonia de uma cidade, Nova Iorque: Broadway Boogie Woogie

Em 2004, Benning regressou a Milwaukee, à procura dos mesmos sítios: as mesmas 60 posições para a câmara, a mesma câmara, aliás, e o mesmo gravador de som: Twenty Seven Years Later (2004). Era um remake, não para aprisionar, mas para revelar o que mudara em Milwaukee. Mas era sobretudo para perceber o que a memória (a dele, Benning, 70 anos, mas também a do espectador que vira o filme anterior, por exemplo) era capaz de se lembrar ou de (re)construir a partir daí. Tal como em Easy Rider ele faz o “remake” do filme de 1969  filmando nos mesmos locais que estão nos planos do filme de Dennis Hopper mas tal como existem hoje – e com a sua própria (de Benning) banda sonora; é o “seu” Easy Rider.

E no Verão de 2011, regressou a Milwaukee. Para esta nova versão (o filme que ele considera, juntamente com o primeiro, que pode manter a autonomia independentemente da trilogia) Benning procurou os mesmos lugares – como se se quisesse certificar que eles existiam ainda, como se quisesse certificar que algo dele também não desaparecera. Não encontrou todos os edifícios, apenas alguns, juntou outros parecidos ou equivalente aos desaparecidos, juntou o digital (algo mudou, de facto, mas Benning não é fetichista) e o resultado é constituído, então, por 18 planos fixos, cinco minutos cada – porque, diz o cineasta norte-americano, e de novo com melancolia e ironia, hoje um minuto é muito mais rápido do que antes.

Esta versão está neste momento em tournée europeia como instalação, em espaços industriais que, diz Benning, quase faz parecer que One Way Boogie Woogie 2012 foi concebido como “site specific”.  O tempo que agora leva a olhar para os mesmos sítios, os cinco minutos de cada plano, talvez permitam a tal “autonomia” de que fala. Neste sentido: autonomia do espectador em relação às memórias realizador, permitindo que cada um, tenha visto ou não os filmes anteriores, faça daquele tempo o seu espaço e o seu investimento. (É no minimalismo e na lentidão dos “travellings” dos filmes de Chantal Akerman que se potencia, também, uma euforia de acontecimentos – por exemplo, no caso dos travellings em D’Est as filas de gente, na neve, à espera de autocarros, libertam a memória do catastrófico século XX.)

 

Pensa-se em James Benning, pensa-se em Chantal Ackerman quando se vê Tectonics, de Peter Bo Rappmund. Que também se disponibiliza para a instalação. Peter Bo Rappmund percorreu a fronteira EUA/México, do Golfo do México/Texas até ao Oceano Pacífico/Califórnia, uma paisagem que tem sido alterada, marcada, violentada… Deve ser das mais vigiadas zonas do planeta, por câmaras escondidas, exército, vigilância aérea, e não é por acaso que as imagens de Tectonics são manipuladas para que as reconheçamos como imagens de uma hipotética câmara de vigilância (o realizador trabalhou e animou as imagens de forma semelhante em Reconversão, a encomenda do Curtas de Vila do Conde a Thom Andersen sobre a obra do arquitecto Eduardo Souto de Moura, em que Rappmund, ex-aluno de Andersen, foi operador de câmara).

Não há voz off em Tectonics. Não há pessoas – como se o filme quisesse, desde logo, contrariar a figuração recorrente sempre que se mostra, nos noticiários, nos jornais, essa zona do planeta: os que tentam passar ilegalmente, os confrontos, as armas, o tráfico de droga… Peter Bo Rappmund, por exemplo,  leu 2066 de Bolaño, e depois quis logo esquecer o retrato de uma das cidades mais violentas do planeta, Juarez, que o escritor na verdade nunca visitara… Tectonics quererá resgatar uma paisagem que tem sido violentada pelas ondas de choque que operam no subterrâneo e que são responsáveis pelas suas sucessivas reconfigurações. Se esse subterrâneo – a política, a repressão, o racismo, o tráfico, as migrações – é um off para ecoar nas imagens, como uma violência interior a falar sobre o silêncio, é verdade que a (por vezes demasiado) curta duração dos planos, como se o filme saltitasse de paisagem em paisagem, interrompe o trabalho do espectador – aquilo que viu antes nos noticiários, aquilo que desde então sabe… Correndo o risco de pairar como um “national geographic”. Como se não tivesse necessidade, ou capacidade, de convocar “presenças.”

 

 

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