Ouvir vozes

Numa entrevista ao suplemento Ípsilon, do PÚBLICO, na semana passada, Joaquim Sapinho dizia: “Sinto cada vez mais que o cinema é uma coisa longe da comunicação e que tem que ver com a comunhão”. É esta a condição que Deste Lado da Ressurreição põe. É a única, mas é radical: implica que o espectador aceite ser desarmado das suas defesas, aceite ser progressivamente despido durante a experiência sensorial (como a  personagem, à conta do impacto das ondas e da mortificação). Nessa altura começará a ouvir as vozes do filme.

Porque, como na experiência do cinema a que se chamou “mudo”, este filme fala, afinal, por todos os lados e não  exclusivamente, ou não sobretudo, através dos diálogos entre as personagens. A  “narrativa” desta família, uma mãe e uma filha desavindas por causa de um irmão surfista-monge, é contada e vigiada pelos locais, pelo mar e pela serra, o Guincho e Sintra, pela forma como os planos, matéria física aqui, se olham, dialogam e estão juntos.

Conseguir estar com eles é a única forma de ouvir o que se fala aqui.

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