Gimme the Loot: flores para o espectador

O ramo de flores no final, prenda de um filho à mãe (que nunca vimos, de que só ouvimos falar), é o ponto de chegada de Gimme the Loot (2012), de Adam Leon, antes de o filme dizer: The End. É o plano final. Mas nada acabou. Significa, isso, que a coisa vai continuar. Nós é que, como espectadores, já não estaremos ali para ver.

Que triste e ao mesmo tempo que inebriante isso é, esse plano sem presença humana à vista: um momento de consciência, perdemos o controle sobre as personagens, não imaginámos que elas chegariam ali, não saberemos nunca para onde irão. Feliz perda. É essa a condição de um filme (e de um espectador) quando sabe que não pode controlar a vida que (se) gera nele. As personagens, como heróis pícaros modernos, começam a sua aventura num ponto e o ecrã torna-se demasiado limitativo para as resumir.

Esta é a aventura de dois amigos, Sofia (Tashiana Washington) e Malcolm (Ty Hickson), dos pequenos roubos e tráficos de erva a caminho de um “grande” golpe. Graffiters do Bronx, enfrentam a concorrência de Queens, e planeiam o gesto que, supostamente, os colocará no mapa da cidade. Mas vão ser assaltados, enganados, em dois dias de tórrido calor nova-iorquino… Experimentarão o Grand Canyon social, por exemplo, quando Malcolm é usado e deitado fora por uma menina do rico Upper Side de Manhattan que lhe compra erva – é uma visão de fábula, cruel como as fábulas, uma arrogante sereia banhar-se num tanque de água de um telhado de Manhattan.

“Tudo Bons Rapazes”, de Scorsese, vem à cabeça de Malcolm: um desafio que lança a Sofia, do género “vais ver do que sou capaz…!”.  Depois, é como se o filme lhe negasse a possibilidade de mitologia, na vitória ou na destruição. Mas isso é apenas negar-lhe a conformidade a um formato reconhecido – a uma mitologia previsível. Nessa negação está até a possibilidade de grandeza – até porque nessas aventuras de fracassos entre Sofia e Malcolm pode estar, apenas, a substituição do que eles nunca chegam a explicitar, o amor que se calhar os une. Tal como o filme nega ao espectador a experiência do que já antes foi experimentado. Uma geografia de que o cinema se apropriou (que o cinema inventou) pode então ser aqui vivida como primeira vez. Nova Iorque, Bronx, Queens, Upper Manhattan: Gimme the Loot vai limpando a memória de uma cidade que o cinema criou – restituindo-lhe, por exemplo, um “tempo” que não é o tempo que os filmes marcaram; possibilitanto ao espectador que também ele atravesse tudo isto como a sua aventura moderna.

Uma ilusão de primeira vez, claro, mas ainda assim qualquer coisa próximo da virgindade. Não é por acaso que Adam Leon admite a influência que nele teve Little Fugitive (1953), de Raymond Avrashkin, Morris Engel e Ruth Orkin – considerado o “link” de modernidade, ainda antes de Cassavetes, entre o neo-realismo italiano e a nouvelle vague francesa (inspiração assumida para as estreias de Truffaut e Godard, aliás).

História da deriva de um miúdo de Coney Island, que foge porque é levado a acreditar que matou o irmão com a sua pistola de brincar, tem os sinais de um western urbano, na verdade: o “pequeno fugitivo” leva a pistola e monta em carrocéis de cavalos – e vê westerns na TV. Não parece que seja por acaso que esses sinais do género cinematográfico por excelência que Hollywood inventou existam “a brincar” num filme com uma generosidade comovente de descobrir pessoas fora dos estúdios, dos cenários e das convenções. É qualquer coisa de transbordante, e é isso se calhar o plano das flores no final de Gimme the Loot, uma primeira longa-metragem vista na Viennale: diz-nos que nada sabemos, afinal, da vida de Malcolm e dos seus afectos, e que esse património que é a solidão de espectadores tem de ser honrado.

 

 

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