O cheiro a Jeffrey Dahmer

A morte cheira a café, diz o detective que no Verão de 1991 abriu o frigorífico de Jeffrey Lionel Dahmer, Oxford Appartments de Milwaukee, e encontrou uma cabeça decepada de olhos esbugalhados e boca aberta. Haveria mais crâneos, mãos, esqueletos que o próprio Dahmer depois ajudaria a polícia a recompor para dar corpo completo às 17 pessoas que tentara lobotomizar, que matara e que desmembrara. É esse o “unique smell” da morte, a “funky putrid smell of death”, como diz Pat Kennedy, o polícia a quem cheirou a café. Se calhar Jeff, de Chris James Thompson, é isso: memórias, impressões – e cheiros – de quem conheceu Dahmer, de quem era vizinho desse “museu”, de quem o interrogou…

Há quem tenha deixado de ir ver filmes de terror. Há quem tenha percebido que a coragem é apenas “fear  that has said its prayers”. Há quem se tenha recusado a tocar numa gabardine do serial killer com receio que algo passasse, uma doença. (Uma vizinha comeu uma sandes que Jeffrey lhe ofereceu, por isso acredita ter comido um pedaço de carne humana.) “How close were you to the most infamous serial killer of our time?”, pergunta o cartaz. O filme é sobre essa proximidade – por isso Jeff, não Jeffrey. Ou sobre a proximidade de que a memória ainda hoje não se consegue afastar. Como é possível um filme estar próximo? Como fazer?  Não vandalizando – as “imagens” do apartamento de Milwaukee são esquemas, plantas -. não entrando mais do que o necessário pela mente de quem ainda faz catarse.

Eis, então, o “sítio” onde Jeff, inicialmente concebido como uma ficção de reconstituição, estabilizou: é decisivo, surpreendente, a forma como em vez de “imagens de arquivo” Chris James Thompson optou por figurar Jeffrey Dahmer – “interpretado”, se assim se pode dizer, pelo co-argumentista do filme Andrew Swant (na foto). É qualquer coisa da ordem da experiência: uma série de “reenactments” que, e por paradoxal que isso possa parecer, nunca tentam a “reconstituição” dos factos nem se atrevem desvendar, pela arte de qualquer “número de actor”, a psicologia do “serial killer”. Se pensarmos nos “reenactments” dos filmes de outro documentarista, Errol Morris (e pensando concretamente em The Thin Blue Line, de 1988, Mr. Death: the Rise and Fall of Fred A. Leuchter, Jr. de 1999, ou na série First Person, de 2000), se compararmos com a tempestade que Morris cria sobre/com os seus entrevistados, esse registo assumidamente “tablóide” que expõe a construção e a efabulação (filmes, por isso, que parecem inventados num laboratório “frankensteiniano”), então o que se passa em Jeff é desarmante e sereno. É só o cheiro dele: Jeff na sua demanda muito prática por líquidos, tambores e caixas que  dissolvam e escondam os restos. Isto, por difícil que seja de imaginar, é coisa com assinalável toque burlesco. Ou seja: da ordem do humano e não da ordem do monstro.

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