Amor, amour

A Nossa Forma de Vida, de Pedro Filipe Marques (Melhor Filme da competição nacional DocLisboa 2011), sob influência de Amour, de Michael Haneke (Palma de Ouro de Cannes 2012)… O pícaro retrato tirado oito andares acima do solo revela-se, afinal, tocado… 

Não são os filmes que se influenciaram, bem entendido; o olhar que regressou ao filme português é que aconteceu estar tocado pela experiência do apartamento, no trespassing para os vivos, do filme austríaco.

É verdade que Haneke conta a história de um casal, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, e de um terceiro, a Morte, que lhes entrou em casa como um pombo (é uma história de cerrar fileiras para não deixar entrar os vivos) e é verdade que o casal do Porto não abdica de olhar para a vida do lado de de fora da janela e só se cruza com a morte num diálogo, lá para o final, ficando tudo ao nível do sonho: quando D Fernanda diz ao marido, sr. Armando, veterano comunista, que sonhar com dentes significa morte certa nas redondezas.

Aparentemente, então, o único fantasma por ali seria o do neto, o realizador, que se esforça para permanecer invisível com a câmara. Mas já antes dessa conversa sobre os dentes A Nossa Forma de Vida era um filme “ocupado”…

Aquela torre, os planos ao som de A Internacional que Pedro Filipe Marques escolhe para mostrar o apartamento onde vivem os avós, vai-se parecendo cada vez mais com uma barricada: separa um mundo de regras próprias onde os outros não têm lugar, uma geografia onde a memória já só se espraia lentamente… A recorrente sobreposição do reflexo de Fernanda e Armando na janela com o “lá fora” não nos mostra uma inserção no mundo, mas algo a ser reinventado “lá dentro”. Afinal, há mais presenças invisíveis para além do neto cineasta – cujo trabalho, na verdade, é estar atento a captar todas as manifestações de possibilidades.

Há qualquer coisa de veemente nesta fragilidade, na fragilidade de Armando/Fernanda, na fragilidade de Trintignant/Riva: a distorção, a suave loucura. Diz-nos que a realidade, se calhar, não existe. Que a “velhice” talvez seja uma zona de verdade: põe-nos em contacto com o grande nada.

A Nossa Forma de Vida é uma história de Amour. Que é uma cobiça, entra pelos olhos e sai pela hortaliça…

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