A lenda do cineasta perdido

O filme, duas horas de material inédito e, sobretudo, um Caderno de Bordo em livro em que Gonçalo Tocha se assume como cineasta perdido numa lenda chamada cinema: edição especial, em DVD, de É na Terra Não é na Lua

Se ainda restassem dúvias, no seu Caderno de Bordo 2007-2011 Gonçalo Tocha diz o nome: Brigadoon/A Lenda dos Beijos Perdidos, Vincente Minnelli. Julgamos que mais do que a explicitação de uma referência cinéfila para o seu É na Terra não é na Lua, é, sobretudo, colocar-se a par de uma vertigem: aquela que é provocada pelos territórios do sortilégio e do mito. Reafirmando, então, que a Ilha do Corvo que descobriu é uma ilha que deve mais à Ilha do Tesouro, de Stevenson, aos livros de aventuras que leu e aos filmes que viu, e que o mapa que nesse filme se desenha – e pelo qual ele e o seu cúmplice Dídio Pestana se aventuraram – é o território de um imaginário.


Gonçalo Tocha escreve logo no início deste Caderno de Bordo, entrada de 15 de Agosto de 2007: “Cheguei de câmara em punho, para que a ilha seja lugar de cinema”. Para que não restem dúvidas, então. Mais à frente: “Eu é que me desloquei, eu é que vim à aventura, eu preciso mais do Corvo do que o Corvo precisa de mim.”
Este Caderno de Bordo é a preciosidade desta edição especial, em dois discos, de É na Terra não é na Luaque inclui, para além do filme, duas horas de capítulos que não chegaram a entrar na montagem final. (Em paralelo, a Alambique edita o primeiro filme de Tocha, Balaou, de 2007, que o lançou ao mar). O mais bonito no documentário já era encontrar as marcas do Corvo nesses exploradores de um planeta inexpugnável, orgulhoso, indecifrável: Tocha/Pestana, figuras trémulas, às vezes só silhuetas, como que expostas à inclemência dos mitos. O Caderno de Bordo reforça-o, iluminando as marcas que ficaram nos corpos.

Véspera do Ano Novo, 2007-2008: “Baixo-me e filmo de perto, com cada vez mais areia, nas mãos, nos ouvidos, nos olhos. Por cima de mim o céu está violento, arrastado. De repente já não é só areia, mas rajadas de água, em bagos enormes, chuva ciclópica vinda do Norte. A imagem enche-se de pó molhado, aguento o plano por mais de trinta segundos, o tempo de ficar alagado até por dentro dos sapatos.” Quando procurou o último plano, em Janeiro de 2008, essa utopia de encontrar algo que encerrasse todo um filme, Tocha aventurou-se mesmo pelas encostas acima dos campos do Corvo, pisando as rochas vulcânicas, lá no alto, entre os abismos de uma lagoa à esquerda e do mar à direita. “Dá vontade de cair. Nunca me senti tão bem a filmar, por minha conta, sozinho contra o ninguém”.

Alguns dos capítulos agora oferecidos como bónus no DVD mostram-no, precisamente, em deriva sensorial, Janela, Quarto, Nuvens ou Uma Noite, por exemplo, entregando-se ao luar, à água, à noite. Os melhores devolvem-nos a sensação de que o que se capta ali não é informação sobre uma ilha, é a memória de uma passagem – evidenciando-se a natureza fugidia de um encontro com o imponderável. É a sensação, finalmente, que o Corvo é, para Gonçalo Tocha, um frente a frente vertiginoso com o cinema. Desejando a queda. Não escapando à queda: as páginas finais deste diário são o acordar da lenda, a dúvida sobre algo de funesto que pode estar ligado ao cinema, a frustração, a ressaca, se calhar até mesmo a culpa, pela explosão de estímulos que foi potenciada. Muito bonito. Palavras finais, então, de quem chegou ao Corvo de câmara em punho para que não houvesse dúvidas: “Digo em voz baixa: ‘Desliga o projector e não ligues mais a câmara'”.

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