João Pedro Rodrigues e os zombies

Manhã de Santo António: a juventude olhada com distância e cepticismo, permitindo que o cinema de João Pedro Rodrigues surja renovado  com violência e narcisismo. O melhor filme do realizador desde O Fantasma é exibido na sexta-feira, 18h30, no DocLisboa. Este foi o encontro com JPR em Cannes…

Às primeiras horas da manhã de um dia depois das celebrações do Santo António, em Lisboa, João Pedro Rodrigues tirou uma fotografia com o seu telemóvel, no fim de uma viagem entre corpos exaustos que mecanicamente despertavam quando o metro entrava na estação de destino: três rapazes dormiam, dois sentados um frente ao outro e o terceiro estendido no chão, ocupando o corredor de passagem. A foto parece ter sido roubada a outro mundo.

“Senti-me completamente à parte, longe daquelas pessoas, porque já não tenho 20 anos. Como se fosse um observador das pessoas de agora, um observador de fora.”

Esta é a foto que esteve na origem de Manhã de Santo António, onde o bairro de Alvalade é território que vai ser ocupado por um grupo de, dir-se-ia, zombies – com 40 jovens, que chegaram com as suas próprias roupas, Rodrigues ensaiou, antes de filmar, movimentos que tanto devem a Tati, Buster Keaton e Pina Bausch como a Metropolis, de Fritz Lang e, sobretudo, que nascem inspirados por um bairro modernista de Lisboa que está disponível com as suas geometrias para ser tomado por “fantasmas, pessoas sós” que são habitualmente as personagens dos seus filmes, como diz o realizador – tudo isso sob o olhar reprovador da estátua de Santo António, olhar que o cineasta consente que, inicialmente, possa ser confundido com o seu.

Por mais originais que fossem as combinações feitas ao longo dos 24 minutos deste filme rodado em três semanas (muito poucas horas de cada vez, porque só interessavam as madrugadas), haveria um momento em que correria o risco de cansar como registo de variações (“nunca tinha filmado sequências tão coreografadas”). Mas não. É, talvez, o mais marcante filme do realizador depois de O Fantasma, um daqueles casos em que as imagens são permeáveis, ensopando-se em sentidos vários, como se tivessem sido ocupadas, e perduram na memória porque nunca se deixam inteiramente descodificar. É uma certa ideia de juventude que vai em parada, com calças, ténis ou cuecas, olhada com distância, se calhar com cepticismo, o que permite que as imagens se sujem e, portanto, renovem a sua capacidade de violência.

João Pedro, ao descrever as movimentações dos seus jovens em ressaca, diz: “É como se houvesse uma doença, como se fosse a aceitação de um destino”, o que faz com que na progressão ao longo do filme essas figuras se encaminhem para sítios inesperados, um lago, por exemplo, onde se podem afogar como se regressassem à terra de onde saíram.

É uma imagem memorável: uma rapariga a atravessar uma ilha de bucolismo em plenas Avenidas Novas, ensimesmada com o seu telemóvel, o seu narcisismo a ser puxado para as profundezas de um lago.

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