Regeneração

É um belo princípio de ética cinematográfica, este: fazer com que as personagens de um filme existam para além das categorias que as ameaçam encerrar. Les Invisibles, de Sebastian Lifshitz (18h45, Londres, hoje, DocLisboa), documenta um conjunto de personagens, homossexuais, que se assumiram e que lutaram no período entre as duas guerras. A sua intimidade, portanto, foi sendo escrita com a História – em alguns casos, ela ajudou a escrever a História. Hoje vivem em paisagens de retiro e bucolismo, não como desistência, mas como se tivessem tempo para escutar a música da sua intimidade. Como se o envelhecimento fosse, afinal, um momento de expansão. Como se a “invisibilidade” que lhes foi imposta no passado fosse hoje uma escolha.

Pegando, então, nas ressonâncias múltiplas e contraditórias desse título que Lifshitz escolheu para o filme (belo título, não se deixa prender a um significado, aceita expandir-se): como se, em última instância, o realizador tivesse conseguido tornar invisíveis as marcas de uma forma de documentário sobre “uma geração pioneira da luta LGBT” – com o habitual e redutor formato de depoimentos a que se junta material de arquivo – para nos dar a ouvir andamentos mais subtis e complexos da experiência humana. O que, para além das consequências éticas do gesto de um cineasta, é uma bela forma de regeneração para o espectador de um filme.

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