Partir com a memória de Ross McElwee

Assistimos, ao longo dos filmes, à ansiedade da paternidade de Ross McElwee. Antes disso, à epopeia íntima do cineasta de Charlotte, na Carolina do Norte, EUA, que repetiu de forma galante a campanha bélica do general William Tecumseh Sherman durante a guerra civil americana. E por aí fora: vimo-lo investir pela autobiografia, cobrindo-se de lirismo e com sentido de finitude em relação ao seu mundo, o de uma família do Sul americano, habitat luxuriante e tóxico – entre outras coisas porque os McElwee tiveram uma plantação de tabaco no Sul. Tudo isso, mas também a deslocação provocada pela ironia e por uma persona – dos filmes de McElwee fica a memória da sua voz, que narra com inflecções construídas que não são as mesmas dessa voz ao vivo.

 

A retrospectiva que o IndieLisboa dedicou, em 2005, ao realizador de Backyard (1984), Sherman’s March (1986), Time Indefinite (1993) ou Bright Leaves (2003), professor em Harvard no Department of Visual and Environmental Studies, foi um dos marcos do festival português. Com McElwee, voltámos a encontrar-nos em Veneza, em 2008, onde o cineasta apresentou In Paraguay – talvez por ter saído do seu mundo, apareceu a olhar para o mundo com a ingenuidade de um american abroad. Photographic Memory parece um regresso. Sendo ao mesmo tempo uma partida, uma demanda da memória desencadeada pelo confronto com o mundo do filho que leva McElwee até à Bretanha, onde foi parar aos 24 anos (tem hoje 63) numa viagem de descoberta pessoal em que descobriu também a fotografia – na Bretanha, foi assistente de fotógrafo de casamentos. Foi depois disso que se matriculou no programa de cinema do MIT (Massachusetts Institute of Technology), onde estudou com figuras do cinema vérité, Richard Leacock ou Ed Pincus, e onde começou a aperfeiçoar o seu tom na “primeira pessoa” que o faz ser o cineasta que é.

A memória… navegar com nevoeiro. Quem aparece numa fotografia, não se encontra. Quem comparece ao encontro, nem sequer estava na fotografia. “Who are these guys?”, quem são estes tipos? Ross McElwee é o navegador da sua memória. Ross partiu dos EUA para uma aldeia da Bretanha, Saint-Quay, onde, quando tinha 24 anos, e isso foi no início dos anos 70, fotografou casamentos, trabalhando para Maurice.  Onde encontrou Maud, com quem teve um affair, se bem que a natureza do affair não chegue a ser clara – iam para a cama ou brincavam a passear pela costa? Maud, de facto, nas três fotografias que Ross lhe tirou nunca mostra o rosto, como se o seu destino, na memória fotográfica do amante (mas terão sido isso, amantes?), fosse ficar uma incógnita. É preciso encontrar uma quarta foto, mas tirada por Maurice, para perceber que ela tinha a allure de actriz da nouvelle vague.

Maurice, que foi o patrão de Ross quando este fez a sua viagem de descoberta pessoal pela Europa, entretanto morreu. E Maud parece estar destinada a ser imortalizada como ficção. “Who are these guys?”, quem são estes tipos? Jesus desapareceu da cruz que aparecia naquela fotografia tirada em frente à igreja de Saint-Quay. (Será por acaso que é nesse momento que a voz de McElwee lamenta outra dessacralização, o desaparecimento da película, coisa “quente e luminosa”?)

Maurice não pode aparecer. Ao encontro comparece a ex-mulher, que nunca apareceu nas fotografias e nem sabia da existência de McElwee. Nem por que razão Maurice o despedira – por causa de fotos de mulheres nuas que o seu assistente Ross teria perdido e que seriam o segredo da vida dupla de Maurice, segredo que a ex-mulher só conheceu depois da morte do homem de quem entretanto se divorciara?

Maud acaba por ser localizada, mas ela e Ross recordam-se de si próprios de forma diferente. “I remember it quite differently.” Ross terá de se consolar, finalmente, com duas Maud, a da fotografia e a da velha senhora que já teve dois ataques cardíacos – mas que não permite ao americano excessivas liberdades para imaginar o que tiveram ou não no passado.

Ross McElwee tem de deixar as coisas desaparecer. Viver com isso. Tem de deixar o filho partir. É que tudo isto, o (impossível) regresso a Saint-Quay 38 anos depois, aconteceu por causa do filho Adrian. Que fomos vendo crescer nas pequenas autobiografias filmadas de McElwee. Era uma “adorável” criança que se habituou a ter o pai por perto a filmar, e a filmá-lo, e que até foi fazendo com que o cavaleiro andante do Sul americano, da Carolina do Norte, que se escondia através da câmara de filmar como atrás de um escudo – em Charleen (1980), Backyard (1984), Sherman”s March (1986) ou Bright Leaves (2003) – fosse progressivamente deixando cair as defesas de umapersona. Hoje, em Photographic Memory, Ross já não se mostra com a câmara de filmar a tapar-lhe o rosto nos reflexos do espelho. (Perdeu-se alguma coisa com isso.) Senta-se em frente à câmara: “How did I get to be this old?” Mas a criança adorável também já não é quem era. É um rapaz de 21 anos que se filma com os amigos a esquiar com cerveja e charros, está sempre em “sobrecarga tecnológica” frente ao computador. Só quando vê as fotos de infância deste “obnoxious” jovem é que o pai obtém um (fraco) consolo: os adolescentes nem imaginam a sorte que têm pela versão pequena deles próprios que ainda se pode descobrir neles.

Foram as dificuldades entre Ross e Adrian que levaram o documentarista norte-americano (em tempos aluno de Richard Leacock e Ed Pincus, pioneiros do chamado cinéma verité) a voltar a fazer a viagem que tinha feito aos 24 anos, intimidado pelo cepticismo paterno – o pai era cirurgião e não percebia o que o filho poderia querer fazer com a sua vida e com uma câmara de filmar. Ross receia estar a ser o mesmo tipo de figura para Adrian. Foi à Bretanha, para deixar partir. E depois sentiu vontade de regressar a casa. Depois de o termos momentaneamente perdido no retrato, em In Paraguay (2008), por exemplo, é muito bom encontrar Ross McElwee em casa.

Um comentário a Partir com a memória de Ross McElwee

  1. este blog é “um fragmento de um suplemento em crise”, que poderia dar um filme…
    é que olhar para este blog ou olhar para o ípsilon em qualquer das plataformas só acredita a versão que a cultura nesta país nunca morreu… o facto é que ela nunca existiu… até hoje… é como se a crise que o país atravessa, que é fundamentalmente uma crise de identidade cultural e de formação, uma crise de génese, passa ao lado do único suplemento “cultural” (e impõe-se que o cultural apreça entre aspas) deste país, como se a própria média estivesse num planeta à parte… do mesmo modo que o cinema português trata o público com distanciamento, o ípsilon trata os seus leitores… é como se o veículo da cultura estivesse longe da cultura (“aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade” homem e sociedade) eu sei que a definição é um cliché a la wikipédia, mas serve perfeitamente, é um grande disparate e uma aberração, um contra-senso… pensem bem… senhores que escrevem sobre cultura seja ela qual for… este é um tempo em que podiam aproveitar para unir o que está longe, do pouco que existe toná-lo forte e solidário… fazer renascer para além do défice, da troika, das PPP da TSU, uma verdadeira cultura portuguesa… ASAP

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