Play like an old gentleman, please

André Wilms, actor de Kaurismäki há quatro filmes (em vinte anos), é testemunha de um mundo violentamente pudico. Uma confraria de operários. Numa caixa de DVD que a Midas vai lançar, podemos vê-lo como Max em La Vie de Bohème e Le Havre

Teremos de imaginar o encontro entre o francês e o finlandês como num filme clássico – americano. No guião: 2h da madrugada, interior de bar a desaparecer no fumo, garrafas e um finlandês a desaparecer atrás delas. Entra um francês: “Tens um nariz grande, consegues tomar banho no duche sem apagar o cigarro” – o finlandês fala para dentro, não entrega tudo, muito menos o olhar. “E tens os olhos tristes. Estás contratado.” Amor à primeira vista, como entre os homens dos filmes de Howard Hawks. Já lá vão quatro filmes (isto foi há 20 anos) entre o realizador Aki Kaurismäki e o actor André Wilms: La Vie de Bohème (1992), Leningrad Cowboys Meet Moses (1994), Juha (1999), Le Havre (2011). “Nunca me tinha visto actuar”, diz Wilms, “mas compreendo o que ele diz quando diz: “play like an old gentleman, please”. E: “don”t run.””

 

 

Ou seja, cumplicidade forjada pela desconfiança em relação ao excesso de cinema e ao excesso de actor. “Temos as mesmas referências, Buster Keaton, Robert Mitchum… Tenho uma admiração enorme por Buster Keaton. Quando está ao pé de uma mulher não faz nada, mas sinto que está apaixonado: quando está triste não faz nada, mas sinto que está triste. É um mistério. Sou eu, espectador, que interpreto no lugar dele. Isso é que é formidável. Hoje os actores interpretam demais e não deixam espaço algum. Sobretudo os americanos. Às vezes é preciso um pouco de ar, “let me breathe”. Mas talvez eu seja um “vieux con”…”

E Aki é outro (e Robert Mitchum também deve ter sido). “Aki é um tipo com talento. É um homem terno, atento, é um poeta. Trata-me como ser humano. Lê. Muitos realizadores são analfabetos: pensam que Proust é um perfume. O cinema permite que muitos analfabetos se exprimam. Aki faz duas “prises”, não faz 50. É um homem moral. O cinema é caro, diz ele.”

E desata, então, um inventário, uma espécie de rosário de agnóstico: “Não quis ser actor no início. Tenho 60 anos. Sou obrigado a ganhar a vida. Encontro um realizador que me diz: “coloca-te à esquerda.” “Não, André, sofre. Não, sofre melhor, meu caro, com intensidade.” No teatro, ao menos todas as noites podemos inventar. No cinema a maior parte dos cineastas não são propriamente génios. Somos obrigados a trabalhar com medíocres. Tenho três filhos, o cinema fez-me ganhar a vida. Fiz pequenos papéis. Poucos papéis principais. Mas não se ganha mal. E o teatro que faço [como actor e encenador] também nunca me permitiu ganhar muito. O “métier” de actor é estranho. Estamos dependentes do desejo dos outros. O outro problema é que somos obrigados a cuidar de nós, há um grande narcisismo. À medida que envelhecemos temos de nos confrontar com o corpo, com a nossa carne, com os dentes que perdemos, é desagradável. Quando filmamos uma cena de amor uma maquilhadora maquilha-nos o cu. É de doidos. É a grandeza e decadência dos actores. Mas há coisas formidáveis. Christopher Walken é um génio.” E Robert Mitchum também.

Ao menos no “plateau” dos filmes de Kaurismäki não é preciso esse tipo de maquilhagem. “Aki é um puritano. Há sempre uma distância entre o homem e a mulher. Um dia, em Juha, eu quis beijar [a sua parceira, a actriz] Kati Outinen. “Estás louco? Nunca mostrei isso num filme, não é agora que vais fazer essa porcaria – num filme meu, não”. Mas eu tinha de interpretar a paixão. E então ele fez com que, na tentativa de a beijar, caíssemos para fora do enquadramento. Nessas coisas ele é violento. “Pára. Isso não.””

 

Pára, isso não, também no “tema”: refugiados. Hoje a darem à costa europeia, fantasmas reais, como ontem o Holocausto. Uma fábula teimosa no “final feliz”. “Aki disse-me: “Quando os imigrantes africanos são encontrados no alto mar, se é um filme realista eles têm de estar cheios de porcaria, estão há três semanas ali metidos. Mas não tenho o direito de filmar isso. Por isso vou pedir para vestirem os melhores fatos. Outra coisa: não posso fazer um filme desesperado porque o mundo já é suficientemente desesperado.” Falámos muito. Disse-lhe: “Sabes que durante a II Guerra cerca de 80 por cento dos franceses colaboraram com os alemães. Mas então houve pelo menos 20 por cento de Marcel Marx [a personagem que André interpreta, um engraxador que ajuda um jovem africano a safar-se no espaço europeu]. Isso existiu.” Pode ser mostrado como uma utopia, mas houve vários Marcel Marx. E ainda existem, espero. É uma fábula, com um toque de realismo.”

Isto é o mundo de Aki, a veemência do pudor. Um actor como faz? “Para este filme aprendi a ser preciso: como engraxar sapatos. Fui muito preciso com o guarda-roupa, com a silhueta. Coisas físicas. Aki quer que os objectos estejam no sítio certo. O copo tem de ser colocado aqui, se é colocado ali, ele… [suspiro de exasperação]… “Mas porque é que eu te pago, merda?” Nada de naturalismo. Mas também nada de muito teatral. É um desafio.” E é uma ética. Este é um clube de poetas que não querem ser mortos – se os declararem assim, tanto pior para os outros. E agora, sim, Mitchum…

“Como dizia Robert Mitchum: “Gosto muito de fazer westerns porque os cavalos nunca se esquecem dos textos e terminamos sempre tudo a horas.” Compreendi o que era o Método quando li o que Mitchum dizia sobre Brando. “Sabem quem é Marlon Brando? É o tipo que demora um quarto de hora a dizer bom dia.” Era um tipo paradoxal. Howard Hawks foi obrigado a contratá-lo, ele tinha fama de bêbedo. Hawks ficou estupefacto: “Afinal, você sabe sempre o texto, está a horas no “plateau”, impecável…” Mitchum disse-lhe: “Não diga isso a ninguém.” Mitchum era isso, a elegância. É isso que é magnífico.”

Ainda como se falasse de uma confraria de operários… “Samuel Fuller contava que John Wayne tinha pânico de cavalos. Quando montava precisava de estar bêbedo. Incrível, um tipo que passou a vida inteira a cavalo tinha pânico deles… Eram operários, claro. Hoje é a imagem que conta. Os actores de antigamente, [Jean] Gabin, Louis [Jouvet], vinham do teatro, onde eram obrigados a um trabalho sólido, Hoje é preciso ser “natural” – não sei bem o que é…”

Nunca se fala de um próximo filme com Aki, conclui André. A ideia de uma trilogia sobre cidades portuárias a continuar – um filme em Espanha, depois outro na Alemanha – está no ar. Mas… “Quando um filme termina, despedimo-nos. Vemo-nos de tempos a tempos, para comer, para beber. Nunca falamos de cinema. E um dia ele diz: “Preparo outra coisa, queres fazer?””

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