O silêncio que fala

 

Num Festival Gay e Lésbico, um filme que cala qualquer “programa” e se descobre como puro cinema, libertando-se da necessidade de nomear: Habana Muda, de Erich Brach 

Um operário cubano, mudo, casado e com filhos, apaixonado pelo amante mexicano. Uma história de homossexualidade em dificuldades na ilha dos Castro?

Se fosse isso, qual o papel do desejo da mulher: esposa sacrificada que assiste sem remédio à pulsão sexual do marido? Ou é, antes, a história de “família alternativa” em constituição, a amulher, o marido dela, o amante dele e os dois filhos deles?

Outra tentativa: uma história de troca entre os dólares de um homossexual mexicano e o turismo sexual providenciado por um heterossexual cubano com a conivência da mulher?

Não é nada disso, pode ser tudo isso e o que é bonito em Habana Muda, documentário de Erich Brach (QueerLisboa, Competição Documentários), é o filme também não saber o que é. Tal como as personagens, que progridem sem saber nomear o que encontram nelas e o lugar em que se encontram. Brach respeita esse silêncio – é assim que está à altura das personagens, e o respeito é admirável. Com isso vai também calando  as ideias feitas com que o espectador do filme(naturalmente) assiste à coreografia muda. É qualquer coisa da ordem da libertação, aliás: o silêncio exige que o espectador reinvente um protocolo – a personagem principal é muda e quem gravita à volta dialoga através de gestos, o que cria a sensação de um ritual narrativo a necessitar de ser alterado, preenchido, reinterpretado. A vontade de nomear, a segurança da simplificação, vão sendo substituídas por uma experiência complexa em que os sentimentos não são negados pelo cálculo da sobrevivência porque os sentimentos participam, com uma elasticidade surpreendente, desse programa de sobrevivência.

E assim Habana Muda, rodado ao longo de três anos, também se liberta, calando em si qualquer “programa”, LGBT ou outro. Descobrindo-se, pura e simplesmente, como cinema. Sem deixar de ser um eloquente documento – apesar, ou por causa de…, do silêncio – sobre a matéria humana de que é feita uma sociedade. Veja-se a sequência final: graffiti heróico na rua a exaltar as virtudes dos cubanos, oiça-se o silêncio à volta a calar a propaganda…

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