O filme social engolido pela paranóia

O Dead Man de Jarmusch, o Alphaville, de Godard, o Tirez sur le Pianiste, de Truffaut – não são referências muito lá de casa do “cinema iraniano”, mas têm sido atiradas por vários textos, por exemplo um de Jonathan Rosenbaum, sobre O Caçador, de Rafi Pitts. É o resultado visível, nos filmes, da história de vida de um realizador que naceu no Irão, em 1967, e que deixou o país em 1981, em direcção à Grã-Bretanha e à França. Mas é também necessidade de aprisionar o filme ao conhecido. A esse jogo de referências, já agora, acrescentaríamos Targets, de Peter Bogdanovich… Isto pode espartilhar O Caçador no “exótico” por escapar a uma “imagem de marca” conforme. Se bem que essa, o que quer que ela seja, já foi ultrapassada por quem a ajudou a criar – veja-se a viagem do cinema de Kiarostami. Mas então que essas referências sirvam para sinalizar o apoio total de um filme sobre as possibilidades elásticas de um universo mental alucinado. Isso, e o “social” a ser devorado pelo “filme de género”, ficção científica ou policial, é a forma escolhida – paranóia, pesadelo… – para filmar um eclipse: o da classe média iraniana.

Há pouco tempo, Uma Separação, de Asghar Farhadi, entrava pela casa de figuras que uma cinematografia tem privilegiado menos. Avançava com um sentido de património, de continuidade – por exemplo, com O Círculo (2000), de Jafar Panahi. Já Rafi Pitts arrisca pairar sobre o vazio: só temos enigmas por resolver, como restos de uma ordem (in)compreensível que foi destruída – os planos iniciais do carro a “fumegar” são uma introdução ao infernal. Ao ser enigmático, o filme é bastante “iraniano”, afinal. Pode-se tropeçar no facto de Pitts desenhar excessivamente, como realizador e intérprete, o laconismo, que às vezes parece estar em exercícios de exibição. Mas o cineasta é ardiloso a colocar o espectador em angústia referencial: dá-lhe a espaços o reconhecível, mas tira-lhe quase sempre o chão – a forma como uma cidade iraniana aparece como uma cidade do Norte da Europa, por exemplo.

Nunca saberemos porque é que um homem, que esteve na prisão, o que lhe dificulta encontrar emprego compatível com a estabilidade familiar, foi preso inicialmente. A mulher e a filha desaparecem, e dizem(-nos) que foram mortas, danos colaterais dos confrontos entre a polícia a agitação social durante as manifestações que rodearam as eleições presidenciais iranianas: o marido e pai reconhece os cadáveres, mas as sequências estão carregadas de possibilidade de alucinação, como se no limite tudo tivesse a intervenção da paranóia; como se o protagonista tivesse interiorizado a exclusão que lhe ditaram, condenando-se a uma percepção abissal da realidade – este homem está numa outra velocidade, e em “sentido contrário” ao trânsito, como os (anti-)heróis do thriller dos anos 70. Está a um passo, que transpõe, de passar de caçador a caçado.

(Estreado a semana passada, O Caçador terá as suas últimas exibições sábado e domingo, 18h30, Nimas.)

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