O urinol, depois do almoço

 

 

 

 

 

Urinar, apalpar, masturbar à hora de almoço, casa de banho pública de Londres. Homens de fato e gravata. Bankers. Bancários. Versão particular da crise no Queer Lisboa. São contidas as masturbações destes bancários. Não há palavras, apenas sinais, poucos sons do corpo – até porque este urinol público está colado à casa de banho das mulheres, que fica logo do outro lado da parede. As explosões silenciosas deflagram na cidade de Londres, numa zona em que os bancos se juntam, entre as 12h30 e as 14h30. Não é l’amour l’après midi, como no filme de 1972 Eric Rohmer, é uma coreografia à volta do urinol depois do almoço. Entram e saem sapatos e fatos pretos, há gestos de retracção e depois o reconhecimento de que entrou um habitué. Isso liberta e aproxima os corpos e os gestos de novo: urinar, apalpar, masturbar à hora de almoço.

 

António da Silva estava lá com uma câmara escondida. Para documentar e participar. Fazer uma coisa sem a outra seria aldrabar, embora tivesse que fazer para não ser descoberto – “as pessoas hoje estão muito atentas”, conscientes do papel que pode desempenhar, por exemplo, um telemóvel na intimidade. Ou afectar timidez, ou inventar uma lavagem de mãos para se afastar e mudar a perspectiva, filmar à distância. Quando chegava a casa, podia de novo experimentar: o material filmado revelava-se um estímulo, António não faz batota também com o seu voyeurismo.

Depois de Mates, visto o ano passado no Queer Lisboa, um GPS do desejo nos dias de hoje, em cinco minutos, com o iPhone, coreografia já sexualmente explícita mas melancólica – a multiplicidade de corpos que passaram ocasionalmente por um quarto soavam a uma ressaca individual, a um lamento pela ausência do par -, Bankers liberta-se do peso autoreflexivo. É exibido no festival no domingo, dia 23, à meia noite, e na quinta-feira, dia 27, às 23h30. É mais pulsional, foi “mais fácil de fazer” por isso, diz, exigiu menos envolvimento emocional. Mesmo se, reconhece, a solidão faz cobranças no corrupio das casas de banho públicas. “É uma masturbação, não se pode ficar triste porque alguém depois se vai embora. Ninguém troca contactos. Mas há pessoas muito carentes que querem seguir as outras, algo desesperadas”, arriscando quebrar a regra tácita de não envolvimento emocional. António envolveu-se fisicamente, o resultado (“às vezes não fazia as posições mais adequadas por causa da câmara”) é uma proximidade in your face – literalmente.

“O Mates tinha a ver com um período pessoal. O Bankers é um trabalho de pura observação. Provavelmente tenho um fétiche por homens vestidos com fatos… Mas observar também como as pessoas urinam, os gestos dos homens com os seus pénis, cada com a sua forma de fazer…” Ou ainda, arrisca, uma forma pessoal, alternativa mesmo, de falar “do que se está a falar a nível mundial”, da crise e da banca, olhando (só do tronco para baixo, sem mostrar rostos) para um grupo de pessoas a quem hoje “toda a gente mostra o dedo, e que são homens como as mesmas necessidades fisiológicas dos outros: pessoas que, por estarem na mesma profissão, estão a competir umas com as outras e ali, naquele espaço, juntam-se, por efeito clássico do cruising, todos iguais”. António começara, aliás, a filmar em três casas de banho públicas londrinas: num centro comercial, numa estação de metro e nesta maioritariamente frequentada por bancários. Procurava sobrepor democraticamente texturas, cheiros, índices de limpeza e gentes diferentes. Quando tropeçou na palavra bankers, concentrou-se nos homens de fato e gravata e prescindiu do material obtido nas outras casas de banho. E quanto à casa de banho frequentada pelos bancários, deitou fora “tudo” o que vinha vestido de forma “casual” e não usava fato e gravata.

Tal como em Mates, e utilizando o seu background como designer de som e a proximidade à dança contemporânea, monta coreografando a multiplicidade. É uma forma, também, de caucionar artisticamente a proximidade das pulsões, essa coisa de pegar no ordinary e transformá-lo no extraordinary. António preocupa-se em transcender a pornografia, mas o interesse dos seus filmes é também o de estar num limbo entre a sujidade e a limpeza, entre a caução de objecto “artísico” e a condição de peep show privado. Sente-se, para além disso, que é um trabalho em viragem, há uma tensão que pede para ser quebrada: os filmes começam a solicitar mais tempo, por exemplo. Entre Mates e Bankers, experimentara já, numa curta menos coreografada, mais deleitada com a sua duração, a palavra. Chamou-se Julian (IndieLisboa), era uma história de amor num Verão e permitiu-lhe esquecer a ressaca de Mates e descobrir que “é possível encontrar alguém” – é com ironia, de qualquer forma, que encontra os “princípios básicos” desses filmes, o sexo (Mates), o amor (Julian), o dinheiro (Bankers). É por isso, também, que trabalha versões maiores para plataformas online. Há nesta estratégia uma curiosa inversão: os filmes que mostra em sala funcionam como teaser do que se pode ver online mediante um donativo. Há quem pague, o que entender, para ver “mais cenas” de uma sequência; mas pode ser o próprio realizador, mediante a quantia que o potencial espectador propôs, a decidir que tipo de bónus vai proporcionar, que links para outros passos da sua obra vai disponibilizar. “Eu posso propor às pessoas mais cenas ou podem ser elas a pedir para ver determinadas cenas” Esta inversão, que nasceu por necessidade de sobrevivência – António da Silva produz os seus filmes -, é uma forma de transcender os limites das programações, das dificuldades criadas pelas durações e pelas figurações que os filmes arriscam, e de alimentar uma relação mais personalizada com os espectadores (e de ser alimentado por ela).

Quer dizer: para utilização íntima e personalizada.

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