A geração perdida

Em 1994, O Papagaio de Papel Azul, de Tian Zhuangzhuang, chegava aos ecrãs portugueses. Um grito surdo como o som de um corpo a cair quando explodem as celebrações de um final de ano. Admirável e comovente, era a homenagem a uma geração perdida por um cineasta de outra geração perdida: a Quinta. Aquela que, de Zhang Yimou a Chen Kaige, fez os seus ajustes de contas com o passado dos pais, com a Revolução Cultural  – e alguns também fizeram o que os festivais ocidentais esperavam que fizessem. O admirável filme de Zhuangzhuang valeu-lhe a interdição de filmar pelas autoridades chinesas. Só dez anos depois o voltaríamos a encontrar,  e nesse “come back” escolheu homenagear um cineasta chinês, Fei Mu, que tinha sido apagado da História oficial. Zhuangzhuang refez um dos filmes mais conhecidos de Fei Mu, de 1948, Springtime in a small town.  Necessidade de se sentir escudado (refazendo uma obra já feita) ou gesto “político” (por se tratar de recuperar um realizador esquecido)? O que quer que tenha sido, são perigosas as homenagens, pode-se ficar refém delas: muito bonito, muito delicado – muito doentio -, as personagens sempre roídas no seu interior, mas uma natureza morta. Um cineasta, por isso, ainda em apuros. O Papagaio de Papel Azul , esse, continua hoje a ser o mais pungente testemunho de uma geração e das suas contradições – território que explorava aqui, num texto que publiquei no dia 28 de Setembro de 1994, Agora que se edita em DVD este filme, quis ouvir um eco.

Hoje sabe-se que Tian Zhuangzhuang, cineasta chinês, colega na Academia de Cinema de Pequim dos mais mediáticos Chen Kaige e Zhang Yimou, é um cineasta proscrito na República Popular da China. Está proibido de filmar. Isso não pode alterar o valor de O Papagaio de Papel Azul. Não altera. O filme é admirável e comovente. Mas pode reforçar a tristeza da cena final, em que um miúdo, Tietou, fica sem pai e sem mãe a olhar para o alto de uma árvore onde ficou preso um papagaio de papel azul e rasgado. Sobretudo porque no silêncio desta obra cheia de rumores surdos — e silêncios sufocantes, afinal nela diz-se que “o passado é o passado, não vale a pena falar dele” — ecoa o que alguém diz a uma criança: “Quando fores mais velho, as coisas serão mais fáceis.”

 

É legítimo então pensar que Zhuangzhuang ousou quebrar o silêncio para falar do passado e se projectou em Tietou, a criança que nasceu a seguir à morte de Estaline, em 1953, e assistiu à destruição familiar que culminou na Revolução Cultural, no final dos anos 60. É só nessa altura Tietou compreendeu tudo — está sempre a dizer, em voz-off, “só soube o que se passou anos depois…” —, como também no caso de ZhuangZhuang foi só após a morte do pai que, disse ele, começou a conhecê-lo melhor. No processo de revisão da História empreendido pela Quinta Geração, O Papagaio de Papel Azul é a homenagem feita por um desses realizadores à geração dos seus pais — actores que pertenceram as quadros do Partido Comunista —, que foi aquela a quem foi passada a missão revolucionária e que, como também disse Zhuangzhuang, pagou por isso com “sangue e lágrimas”.

Não é único, por si só, a exibição do trauma da Revolução Cultural — tinha Zhuangzhuang  14 anos —, como também não o é a relação de confronto com a imagem paterna. Afinal, é isso o que caracteriza a Quinta Geração, aquela que foi para a Academia de Cinema de Pequim quando esta reabriu em 1987; foi isso o que fizeram Chen Kaige em Adeus, Minha Concubina (o trauma da denúncia do pai como contra-revolucionário estava no íntimo de Kaige) e Zhang Yimou em Viver — neste último caso, dir-se-ia até que Yimou se sentiu obrigado a também ele falar da Revolução Cultural, como se isso fosse o que o Ocidente esperava dele.

O que distingue O Papagaio de Papel Azul (também baseado em memórias pessoais de Zhuangzhuang) é então a incrível e pungente proximidade do realizador face às personagens, em especial do espantoso Tietou, espectador silencioso mas também cruel da tragédia dos pais, que é também a sua tragédia. Nesse sentido, este filme será mesmo o oposto de Adeus, Minha Concubina: há mesmo quem defenda um como sinal do desgosto em relação a outro, e o próprio Zhuangzhuang é um crítico do filme de Kaige, “um problema de forma sobre o conteúdo”, segundo ele. Aquilo que no filme de Kaige era projecção da História, como se de transparências se tratasse, por trás das figuras (o lado “bertolucciano” que muitos detectaram, a componente decorativa e coreográfica), está ausente das intenções de Zhuangzhuang. A este, o que interessou foi o quotidiano e filmar, do lado das personagens, a repercussão trágica da História.

E a História é implacável — como começa por contar Tietou, no início da sua narração, devido à morte de Estaline os pais tiveram de adiar o casamento, logo, adiado ficou também o seu nascimento. É um movimento que ultrapassa as personagens e ao qual elas reagem como quem lida com o inevitável. E isso Tian Zhuangzhuang verbaliza assim: “Se a China quer mudar completamente, tornar-se forte e próspera, precisa livrar-se da noção de que é a política que controla o social como um todo, e que ainda hoje domina na esfera política chinesa.”

É isso o que é impressionante: uma força arbitrária vai derrubando e eliminando personagens, fazendo-as aparecer e reaparecer (os comboios que chegam e partem, a progressiva cegueira que vai contaminando um homem ou o “não tinhas alternativa” que não serve de consolo à culpa de quem denunciou outro); filmar as personagens como se elas estivessem cercadas e abafadas pelas paredes do cenário (a casa, a prisão); o doloroso silêncio sobre tudo isso — a impossibilidade do grito é insuportável —, como naquela cena em que um homem cai no chão e o barulho é abafado pelo som das explosões dos festejos do Fim de Ano chinês.

Se foi a figura do pai — e a sua denúncia por um filho, Chen Kaige, nos tempos em que este era guarda vermelho — que esteve na génese de Adeus, Minha Concubina, essa era uma “cena” que estava fora-de-campo. Era um trauma escondido, não directamente figurado, já que nesse filme se mostrava a traição entre dois amigos, cantores da Ópera de Pequim. Ora, em O Papagaio de Papel Azul há um confronto mortal com a figura do pai, de tal forma que até perguntaram ao realizador se ele queria dizer algo sobre o complexo de Édipo — Zhuangzhuang riu-se, respondeu que não…

A propósito do pai… por mais do que uma vez é possível, ao ver este filme, detectar curiosas semelhanças com outro, português, A Idade Maior: a “voz-off” de alguém que, ao evocar a sua infância, enfrenta/supera uma orfandade; a semelhança de uma mesma cena, a da árvore, a que sobe Tietou para ir buscar o papagaio de papel, e que no filme de Teresa Villaverde era o lugar onde Alex procurava a boina de tropa do pai; e, fundamentalmente, o confronto com a imagem paterna. “O papá é mau, vou matá-lo…”, diz Tietou ainda criança. O pai morre, e Tietou terá mais dois pais. Também serão enviados para longe, para campanhas de purificação, também morrerão.

A figura paterna e todas as suas figuras de substituição (o filme é dividido em três partes: O Pai, O Tio, O Padrasto) tendem assim para a diluição, para a sua eliminação. O desejo da criança é concretizado como se esse desejo fizesse também parte da mesma implacabilidade, terminando então o filme com a inscrição do trauma que só será resolvido quando Tietou atingir a “idade maior”.

Como se disse, Tian ZhuangZhuang é crítico em relação ao filme de Kaige, e de uma maneira geral às obras da sua geração — incluindo as suas, como o celebrado Horse Thief —, e já mostrou a sua admiração pela disponibilidade do olhar que revela o cinema de Hou Hsiao Hsien ou de Edward Yang, cineastas de Taiwan. O Papagaio de Papel Azul pode então ser visto como reacção ao formalismo saturado que é habitual na Quinta Geração — “Não é apenas um problema meu, mas de toda a minha geração” — e que foi a forma de um grupo de jovens cineastas da Academia de Pequim inscrever o cinema chinês nos circuitos mundiais e corresponder às solicitações ocidentais.

A consciência crítica que revela Zhuangzhuang é a que mostra também, por exemplo, Kaige — num retrato que dele fez a escritora Jianying Zha [Sight and Sound de Fevereiro 1994], Kaige aparece como um daqueles aristocratas trágicos ultrapassados pelo tempo e entre dois lugares (a China e o Ocidente) sem pertencer a nenhum deles e descontente com o “declínio cultural” do seu país, dividido ainda, como as personagens de Adeus Minha Concubina, entre a obsessão por um ideal de beleza e a inevitabilidade dos compromissos.

O sucesso internacional da Quinta Geração é a razão principal para as críticas que hoje fazem o meio intelectual chinês e os cineastas da Sexta Geração (“filmam para ocidentais”). Sobre eles caiu já também a sombra das autoridades.

O Papagaio de Papel Azul, cuja primeira versão do argumento foi proibida, teve papel determinante para o cerco: financiado pelo Japão e por Hong Kong, a pós-produção foi interdita por o filme veicular “mensagens políticas contrárias ao regime”, mas o negativo e o som conseguiram chegar a Tóquio e a Cannes. Para voltarem a tomar o controlo, e para que isto não se repetisse, as autoridades não só impuseram novas regras contraditórias com o seu habitual pragmatismo — por exemplo, mesmo no caso das co-produções, que passam a ser em número limitado, os projectos têm de passar pelos serviços de censura antes de deixarem o país — como fizeram circular listas com nomes de cineastas com quem trabalhar significa incorrer em ilegalidade. Zhuangzhuang, o único membro da comunidade cinematográfica a assinar em 1989 uma petição para libertar presos políticos depois de Tiananmen, foi também o único nome da Quinta Geração proibido de filmar — mas há notícias contraditórias segundo as quais Zhang Yimou teria sido obrigado a interromper as filmagens do seu Shangai Triad.

“Quando fores mais velho, as coisas serão mais fáceis”, dizem a uma criança em O Papagaio de Papel Azul. Esse é o filme em que uma criança perde definitivamente o seu papagaio, rasgado em cima de uma árvore, e em que a cegueira, como se diz, é também “a maneira de os sonhos não se realizarem”.

Sem poder concretizar os seus está hoje um cineasta chamado Tian Zhuangzhuang.

2 comentários a A geração perdida

  1. Texto interessante.

    Agora, o Vasco não quer dedicar um parágrafo ou dois ao DVD?

    Existem edições em DVD de filmes asiáticos com qualidade paupérrima (incluíndo do Zhuangzhuang, na edição do Horse Thief da Fnac Espanhola) que deterioram irremediavelmente a experiência de ver filmes desta qualidade.

    A primeira informação que aparece nas caixas destes filmes que estão a ser editados em conjunto com a FNAC (do HHH, do Tsai Ming Liang e este) não é animadora: os filmes são apresentados em DVD Letterbox não anamórficos….

    Numa altura em que já se consegue ter experiências mais próximas à de uma sala de cinema com DVD de boa qualidade e Blu Rays, e com tanta coisa boa a sair, custa um pouco estar a investir 10 euros em filmes mal apresentados, por muito interessante e representativo que seja o filme…

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