Ama o teu crucifixo

Anna Maria (Martia Hofstatter) dedica o Verão ao trabalho missionário, para que Viena regresse ao caminho da virtude. Em casa, entrega o desejo a Jesus, vergastando-se pelo que se entranhou de pecaminoso no seu pensamento e amando o crucifixo em toda a extensão. (Alguma imprensa italiana encontra assim o recorrente “film dello scandalo”, dizendo que a “fervente ultra-cattolica fa sesso col crocifisso”. O que é verdade e  mentira, mas escândalo não há). E eis que o marido ausente de Anna Maria regressa, é um egipcio muçulmano confinado a uma cadeira de rodas.

O que se vai passar em casa, quando o marido cobra o desejo da mulher que está dominado pela divindade católica, é uma miniatura do mundo, uma guerra de iconografias para impor (e sobreviver aos…) fundamentalismos.A solidão e as razoes jazem por terra. E num daqueles momentos em que Ulrich Seidl justifica o desconforto a que submeteu personagens e espectadores (é invariavelmente acusado de “exploitation”, poucos reparam na ternura), Anna Maria vergasta e depois abraça o crucifixo no final de Paradies- Faith (competição). Eis o segundo filme da trilogia Paraiso com que o realizador investiga o corpo e os desejos das suas protagonistas, o que as faz caminhar – depois do Amor em Cannes, antes da Esperança que chegará a Berlim.

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