Era uma vez o cinema na terra

A última vez que o vimos errava pelas ruas de Nova Iorque, dealer, pedinte, fura-vidas. Era assim que Ben e Josh Safdie, em Vão-me buscar Alecrim (2009), viam Abel Ferrara: fantasma de uma cidade e de um tempo, Nova Iorque dos anos 1970. Vão-me buscar Alecrim, assinalaram os Safdie, não era sequer um “filme de época” e isso é que era bonito: a forma como o espírito de algo que já desapareceu se materializava, vindo ao encontro dos cineastas – ou então assim: o olhar dos cineastas não conseguia evitar encontrar em cada esquina da cidade sinais de um mundo e de um cinema extintos. É assim que voltamos a encontrar o cineasta Abel Ferrara: feiti­ceiro, traf­i­cante, demi­urgo – como fantasma de um mundo que acabou.

Alguns dos seus filmes – estamos a pensar em The Blackout (1997) ou New Rose Hotel (1998) – parecem cor­rer o risco de se extin­guirem durante a pro­jecção. Como se nesse momento se tornasse man­i­festa a sua frag­ili­dade, a sua impossibilidade. Como se algo de funesto, um sentimento de catástrofe, se tivesse agarrado ao (seu) cinema, a uma forma de o produzir – uma vez que o gesto quixotesco só pode sobreviver (mal) pactuando com acrobacias produtivas que fazem da montagem de um filme uma sucessão de enxertos em corpo exangue. É pre­ciso ver, por isso, 4.44 Último dia na Terra: filme-catástrofe, literalmente, mas investido de tanto poder fundador. Eis o que Ferrara faz com um apartamento e com dois actores: sinais do que foi o cinema na terra.

Há hora marcada para o mundo acabar: 4:44. “The end will be sudden and global”. Intervenções de Al Gore, sobre o aquecimento global, e do Dalai Lama, sobre a falta de respeito pela Natureza, na televisão. Que mostra o mundo a iniciar a sua procissão em direcção ao apocalipse. (De forma menos explícita e mais interior: o pós-2001 e a crise financeira como cenários reais que, dizia Ferrara numa entrevista publicada neste suplemento em Abril, estiveram na origem do filme). Para passar a “mensagem” ambientalista, o realizador participa no tráfico de materiais de arquivo, forma muito directa e básica (é a economia da série B) de construir o sentimento de fim e, ao mesmo tempo, de aligeirar o peso do preaching – como se o despachasse.

O essencial passa-se no interior de um apartamento nova-iorquino, com dois actores, Willem Dafoe e Shanyn Leigh, e o som de sirenes lá fora. Pontuais, e fabulosas, excursões a um terraço deixam entrar o vento e o cheiro da catástrofe, algo que é doce, a aceitação, entrega. Sim, é o mais sereno filme-catástrofe de que há memória, mesmo se o vemos à beira da angústia porque nunca temos a certeza se tem condições para con­tin­uar. E assim, depois de reinventar, com uma facilidade que faz parecer cansado qualquer blockbuster destes tempos, a ficção científica apocalíptica (bastam-lhe para isso sons de sirenes na cidade; basta-lhe filmar Dafoe a deambular por Nova Iorque), Ferrara reinventa o “filme de casal”. Com uma intensidade que no cinema dele só tem paralelo, embora com outro tom, com a energia leonina do par Drea de Matteo e Lillo Brancato, Jr., nesse It’s a Wonderful Life on coke que é a obra-prima ”R Xmas (2001). A intimidade como a última coisa na terra.

Shanyn Leigh (Skyie) pinta, Willem Dafoe (Cisco) uiva, como outros uivantes personagens/actores ferrarianos, como Harvey Keitel ou Christopher Walken… Na relação entre Cisco e Skyie, autorizam-nos a dizê-lo declarações dos actores e do realizador, ecoam sinergias, por assim dizer, da relação entre Ferrara e a sua companheira dos últimos anos, Shanyn Leigh – o budismo dela a travar o consumo de drogas dele. A movimentação dos actores, a relação que improvisam, até as telas que ela pinta – e a cocaína que Cisco consome – não podem ser tomados por folclore ou tiques de um certo cinema novaiorquino (Cassavetes, por exemplo) que viajou de forma exploratória pelos sentimentos. É, antes, um património. A pose está ausente, o minimalismo é regenerador. Sem “statement” algum, uma ficção científica conta como foi, “era uma vez”… o cinema na terra. No pós-apocalipse cinematográfico, quem encontrar este Ferrara ficará a saber da consciência que tivemos de um fim.

Skyie a Cisco: “All we have is each other. All we have is each other. I love you. And we”re angels. Already”. À volta de 4.44 Último dia na Terra, nos ecrãs de cinema portugueses, só há estilhaços.

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