Ano Grande Brasil

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  • Lenine a jogar em casa

    Primeiro ele andou pelas traseiras do palco a fazer fotografias ao lado de quem lhe pedisse, a dar abraços que indiciam saudade, a conversar aqui e acolá com a naturalidade de quem se movimenta em território conhecido. Lenine, 55 anos, está na sua cidade, o Recife, e há quem considere que é ali, no Marco Zero da cidade, nas noites do Carnaval, que ele costuma dar alguns dos concertos mais sentidos da sua carreira. Há 14 anos que a façanha se repete e, diz que tem memória de todo o processo, não houve momento algum em que uma intensa simbiose entre o palco e a plateia não tenha produzido aquela categoria de concertos em que a música é apenas o ingrediente principal da comemoração emocionada do reencontro.

    Quando o apresentador grita, “ei Recife, Leeeeniiiiineeeeeee”, levantam-se os braços, rasgam-se os sorrisos, grita-se, salta-se e o Marco Zero transforma-se numa festa indescritível. Lenine joga em casa e há que atender à força do regionalismo no Brasil para se perceber o que significa o regresso a Pernambuco da sua mais emblemática estrela nacional. Lenine agradece, visivelmente emocionado. Quem está a escassos metros da sua figura esguia é capaz de perceber que balbucia a palavra “maravilha” a cada passo.

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    O que se segue é um concerto extraordinário. Porque o cantor e guitarrista está em grande forma física, que lhe permitem correr e saltar sôfrego pelo palco. Mas também porque a sua condição vocal está no auge. Empurrado pelo entusiasmo de dezenas, muitas dezenas de milhares de pessoas que fazem coro, repetem os seus versos e o aplaudem com paixão, Lenine tem o dever da reciprocidade e cumpre-o. O espectáculo do palco contagia o espectáculo da plateia e em conjunto os dois pólos do concerto alimentam-se.

    Nos seus temas (a maioria da sua obra crucial, “Na Pressão”) mais eléctricos pela energia, ou nas suas variantes mais regionais pelo uso do cancioneiro tradicional, percebe-se que quem ali está está de propósito. Nada lhes é desconhecido, ou estranho. Quase toda a canção Leão do Norte, onde Lenine canta “Eu sou mameluco, sou de Casa Forte/Sou de Pernambuco, sou o Leão do Norte” é entregue a um coro arrepiante da multidão de vozes. Quase toda a série dedicada a Dominguinhos, um clássico da música nordestina que morreu no ano passado e que teve a participação especial de três sanfoneiros (Toninho Ferragutti de São Paulo, Renato Borgheti do Rio Grande do Sul e José Waldonys do Ceará), é acompanhada sílaba a sílaba por muitos dos presentes.

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    Quando Lenine, literalmente molhado de suor, se despede, um enorme aplauso dá conta do que se tinha passado naquele palco. Fica-sea perceber a motivação de um grupo de jovens que na plateia empunhavam um cartaz onde diziam ter vindo do Ceará uma vez mais para ver Lenine no Carnaval do Recife. Logo a seguir. Gilberto Gil teria a sua oportunidade de convocar as hostes para a sua música, o que faria com um retumbante sucesso. Para rematar, a cantora meio brega (pimba) do Pará, Gaby Amarantos, voltaria a electrizar as hostes com a sua folia, num final apoteótico de mais uma noite no Marco Zero. Mas depois de Lenine, seria difícil experimentar o mesmo índice de inspiração. Aquela era a noite dele e dos dele. Uma oportunidade que nem ele nem os que o foram ver e ouvir quiseram desperdiçar. Inesquecível.

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Comentários

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  1. Ana Silva

    Parabéns Manuel pelo belo trabalho de relatar com a alma tamanha beleza do nosso carnaval!

  2. taciana flores

    Lenine, o sábado é do Galo da Madrugada e seu! Temos orgulho em vê-lo a cantar suas músicas que são tão nossas….sou do grupo que fica tímida em pedir uma foto ou cumprimentá-lo. O que eu mais quero no fundo é ver a sua energia no palco, sua poesia em cena.Você faz nosso carnaval ser mais lindo, ter mais brilho. Lá em Portugal ou cá em Recife, tenho uma frase clássica: “Lenine, só você me entende!”. Belo texto, captou a essência do nosso sábado de carnaval.

  3. Anne Alves de Lima

    Parabéns Manuel Carvalho pelo belíssimo texto sobre meu conterrâneo querido !

  4. Jefferson

    Desta vez não pude assistir ao concerto, mas há, de fato, qualquer coisa de mágico quando Lenine se apresenta em Recife.