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  • O Recife em transe por um Galo

    Há dois dias que o Galo da Madrugada ocupara, imponente, uma das pontes que cruzam o rio Capibaribe e ligam o bairro do Recife ao resto da cidade. Ontem, pela manhã, a majestade dos seus 27 metros de altura e as suas três toneladas conferiam-lhe um ar grandioso mas inocente, como se todos os esforços para a sua construção e instalação não tivessem passado de um capricho pueril. A cada hora que passava, porém, a sua presença começava a fazer cada vez mais sentido. Aos poucos, milhares, dezenas de milhar, centenas de milhar, seguramente mais de um milhão de pessoas começaram a concentra-se à sua volta. Os mais ousados fizeram questão de lhe passar por baixo, de o fotografar de todos os ângulos, de aparecer na fotografia como seu fosse uma figura pública, de o comentar, elogiar, ou de forma velada idolatrar. Outros esperaram ao longe, no recato, como se acumulassem energias para a luta.

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    Até que lá para a uma da tarde quente de ontem todos aqueles artifícios explodiram. Lá ao fundo, começa-se a ouvir o barulho de fundo do trio eléctrico do Galo da Madrugada e foi como se um rastilho se tivesse acendido. Primeiro ao longe, a “muvuca” ganha força, contagia as margens da Avenida Guararapes, irrompe pelas paralelas, instala-se nas ruas particulares e o Carnaval toma conta da multidão. Seria assim, sempre assim, nas muitas horas seguintes. A cada passagem de um dos previstos 30 trios eléctricos (camiões transformados em palcos gigantescos, decorados com colunas nas laterais e na parte traseira), as canções repetiam-se e a multidão acentuava o seu transe. “Chegueeei, Recife/Foi a saudade que me trouxe pelo braço…”, “Quando a maré encher/toma banho de canal quando a maré encher”, “Ai que calô, ôôô, ôôô”.

    No eixo da avenida uma imponente força policial acentuava a tensão, o clima de risco, como se fosse necessário um outro acelerador da adrenalina. Nos camarotes de gente VIP, prolongavam-se as danças que vinham do pavimento. No asfalto, a multidão foi ficando cada vez mais compacta. Quando os camiões passavam, grupos de homens musculados esticavam uma corda à sua frente para forçar as pessoas a comprimirem-se ainda mais contra os edifícios. Os corpos suados eram forçados a colarem-se, a vontade de seguir uma direcção de pouco valia face à força da corrente humana, que apesar de tudo dançava, cantava, erguia as mãos em gesto de permanente celebração. Como se tivesse entrado em transe provocado pelo calor, pela música debitada em caudais de decibéis que faziam os ouvidos zumbir e o peito baquear.

    É difícil imaginar o que uma multidão possuída pelo Carnaval pode sofrer para seguir um trio eléctrico e dançar. Dançar contra a falta de espaço, contra as calcadelas, os empurrões, o desvario dos mais endiabrados pode ser um sacrifício com que se cumpre a promessa do Carnaval.

    No meio daquela quase loucura que ajuda a explicar os lados mais irracionais das multidões, porém, havia uma rede invisível que não aparece nos relatos oficiais do Carnaval do Recife. A das centenas de homens e mulheres que se mantinham no meio da loucura com as suas caixas de esferovite cheias de gelo e de cervejas geladas. Ou ainda a teia logística de homens que com caixas de latas e sacos de gelo conseguiam vencer os muros da multidão para as abastecer. Se os foliões merecem o Galo da Madrugada pelo empenho com que o devotam, essa rede de homens e mulheres têm o direito de reclamar para si o heroísmo de lhes tornar o seu dia bem mais suportável.

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