Ano Grande Brasil

Brasil

  • E a festa tão ansiada começou

    Pela manhã, um dos jornais diários do Recife titulava a toda a capa: “Que felicidade”. Raramente uma manchete de um jornal consegue acertar com tanta precisão antes do acontecimento como a do Diário de Pernambuco. Uma fotografia de uma pessoa em pose eufórica, com um gesto algures entre o devaneio e a celebração era apenas uma boa antecipação do que se preparava para acontecer nessa noite no Marco Zero, o epicentro da geografia e, por afinidade, da cultura do Recife e de Pernambuco. Depois do final da tarde, centenas de milhar de pessoas invadiram o bairro antigo para serem felizes, para dançarem como se nunca tivessem dançado, para rirem como se tivessem esperado, para se abraçarem como se despedissem para longas ausências.

    11E difícil descrever o que é o Carnaval no Recife. Por causa dos semblantes, do movimento, da forma como se dança, sem dúvida. Mais ainda por causa da impossibilidade de descrever tantos odores, de queijo coalho na prancha, das espetadas, do suor, da maconha, do esgoto fugaz mas insistente. Ou da música, do som dionisíaco das orquestras de frevo, do estilo forró que sai dos palcos, do maracatu que cruza as ruas ou dos trios ou quartetos de homens tisnados do sol que vêm do interior apenas para tocar numa esquina do carnaval. Como de Bosco, que veio do Lajedo com o seu grupo de bombo, caixa, flauta e pratos para colonizar uma esquina com aquele ritmo irresistível da miscigenação cultural do Brasil. Após tantas dimensões impenetráveis do Carnaval do Pernambuco fica uma certeza: é um dos maiores festivais de World Music do mundo.

    Foram quase três horas de concerto no palco grande, no Marco Zero, onde passaram cantores indígenas e anónimos e pernambucanos conceituados como Lenine – Elba Ramalho não é pernambucana de nascimento, mas foi adoptada e por lá passou também. Mas se na sua órbita gravitavam os corpos em movimento de milhares de pessoas, a quintessência do Carnaval recifense passava-se nas ruas do interior do bairro primordial da cidade. Era lá que esse enorme caos controlado melhor se expressava. Grupos de jovens em correria, homens e mulheres de idade provecta, crianças, pretos, brancos, pardos e de todas as outras tonalidades do Brasil, rapazes que carregavam caixas de esferovite com cerveja e outras bebidas frescas, pobres que apanhavam as latas ou as garrafas plásticas do chão, mascarados ou anódinos, o enorme torvelinho do Carnaval fazia ali todo o sentido no seu aparente caos.

    E porquê? Porque, talvez, tudo aquilo era colado por uma cultura que todos partilham e um estado de espírito que todos comungam. Uma obrigação voluntária, passe o contra-senso. É difícil entender esse Carnaval porque se nota que se incrustou nas pessoas que, como uma criança com os seus quatro anos que integrava um dos blocos de maracatu, batem nos tambores desde que são o que são. Aos de fora, não há muita oportunidade para perceber tanta música, tanta gente, tanto odor, tanto riso e tanta paixão. O melhor mesmo é seguir o bloco, deixar-se guiar pelo frevo e reconhecer ao menos que aquela é uma festa que sublinha a felicidade e tudo o que há de melhor do género humano.

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Comentários

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  1. Ana Silva

    Muito bacana o texto!

  2. João Paulo

    Nossa, que texto lindo! Como pernambucano, jamais conseguiria descrever em palavras o carnaval como aqui posto, tamanha a felicidade que inebria a razão.

  3. Flávio Domingues

    Pernambucano. Simplesmente feliz. Obrigado.

  4. nerivalda guimaraes

    Parabéns! Linda matéria.
    Texto irresistível de se ler.
    Sensibilidade e admiração a flor da pele.
    Como pernambucana da gema e distante neste carnaval,
    agradeço imensamente pela reportagem.
    Grande abraço,

    Neri

  5. Ailton Lessa

    Sou recifense com muito orgulho e esse texto seguiu fiel ao que vejo no carnaval d’aqui. Parabéns pelo trabalho maravilhoso, aos jornalistas, cinegrafistas e editores por essa belíssima narrativa.

  6. Joanna

    Que saudade do meu Recife, da minha Olinda e do meu pernambuco. Meu mesmo, por que Pernambucano sai de Pernambuco, mas Pernambuco não sai de Pernambucano. Esse é meu primeiro ano morando em outro estado, há 3.500 quilômetros, longe desse carnaval que era quase uma obrigação anual pra mim, para amigos e familiares. Saudade da mistura de cor, de odor e de som. Alguns podem achar “bagunçado”, “fedido”, “desorganizado”, mas é justamente esse “popular” que o faz tão rico e único. E viva o frevo!

  7. Ivenes

    Sou recifense e a sessenta e dois anos -minha idade – vivo o carnaval pernambucano. Como o sr. Jornalista descreveu com precisão esta nossa festa! Encantada e emocionada fiquei. Parabéns. O sr. conseguiu traduzir com perfeição o que acontece aqui. É o povo na rua com um único intúito de dançar, cantar, divertir-se. É uma catarse. Ainda nessa altura da vida, gosto de sair atrás de um bloco, com frevo ou maracatu, e simplesmente segui-lo dançando. E só preciso de beber água (nada de álcool ou maconha; sequer sei como é o seu cheiro). Basta tocar um frevo, que as pessoas ficam embriagadas, como tão bem diz a música: “quero sentir a embriaguês do frevo, que entra na cabeça, depois toma o corpo e acaba no pé” (Voltei Recife).

  8. Mayra

    sou de Recife. é lindo ver que a energia desse carnaval continua viva. é muito difícil descrever a emoção do nosso carnaval!!!
    “É lindo ver o dia amanhecer, ouvir ao longe pastorinhas mil,
    dizendo bem, que o Recife tem,
    o carnaval melhor do meu Brasil!”

  9. Catarina

    Sou do Recife e fiquei admirada como conseguiram, com palavras, explicar o que é o carnaval em minha cidade! Ficamos realmente em extase com os diferentes ritimos musicais. É impossivel ficar parado! Dançamos e cantamos com o coração. Prabéns pela perfeita reportagem.

  10. Bruno Rafael

    Peço que faça uma correção no seu texto. No Brasil e especialmente em pernambuco é proibida a maconha. Não tem maconheiro aqui e se tiver vai preso.

    • Flavia Lima

      Nunca ninguém conseguiu representar com tanta fidelidade o nosso carnaval!! Texto lindo, emocionante e fiel!!! Terminei de ler o texto as lágimas. Amo meu Pernambuco!!!!

  11. Daniel

    bandinhas de pifes <3 <3 <3