O futuro de Portugal é o PENT

1. O turista aterra em Portugal sem saber da tragédia grega, nunca ouviu o nome Espírito Santo. Aterra feliz, porque acaba de ler no jornal que Portugal ganhou 16 (dezasseis) óscares europeus de turismo. De Lisboa à Madeira, do Porto ao Algarve, incluindo a TAP e os cruzeiros da Douro Azul, não há melhor destino para um turista em toda a Europa. Eis tudo o que um turista precisa: que o destino confirme o que ele espera.

 

2. Digamos que o turista aterrou em Lisboa, apanhou um táxi para um bairro histórico, saiu na rua principal e subiu três andares. Abre a porta: está em minha casa. Não é hipotético, é mesmo a minha casa, que como alguns milhares de portugueses estou a alugar a turistas para poder pagar ao banco aquilo que devo. Por acaso, por uma nesga, esse banco não é o Espírito Santo.

 

3. O turista são sempre dois, três, quatro, cinco, até seis (no caso da minha casa), visto que em geral o turista não se anima sozinho, exactamente da mesma forma que os frequentadores de cafés populares não se animam sem música, e os frequentadores de restaurantes populares não se animam sem televisão, no caso da terra alentejana onde moro diria mesmo que é impossível achar um restaurante sem televisão. O lombo é excelente, as migas são excelentes, o vinho é excelente, mas se a televisão está desligada as pessoas pedem logo para ligar, explicam os meus conterrâneos, embora onde moro não haja turistas, perdoem a digressão. Dizia eu que o turista nunca é um, digamos que são cinco. Cinco turistas radiantes, porque além da vista, além da casa, toda a rua, agora, é deles.

 

4. No começo deste milénio, quando havia empregos, empréstimos e as pessoas compravam casas, comprei a minha casa pelo dobro do que agora, 15 anos depois, já me deram por ela: eu e a torcida do Benfica. A rua, então, era uma pasmaceira. Todos os paquistaneses que a rua vira estavam na televisão, eram terroristas, pelo menos muçulmanos. Agora, os turistas saem da minha porta e entram na mercearia do paquistanês de Lahore, onde compram mortalhas, garrafas de água ou pêssegos, tudo mais caro do que no supermercado, mas, claro, nada se compara a podermos conversar sobre Lahore, ou deixarmos um molho de folhas de videira trazidas do nosso quintal do Alentejo ao cuidado do paquistanês de Lahore, porque um amigo quer cozinhar dolmatakhia, aqueles rolinhos gregos, e há-de passar a buscar. Ainda não passou, à hora de fecho desta edição estava na China, em 15 anos o mundo ficou uma casca de noz. E nós todos nela, da China à minha rua, prestes a afundar.

 

5. Então o turista é aquele travão do apocalipse. Cá está ele, a sair da minha porta. Tanto à esquerda como à direita tem bares, e, à esquerda e à direita dos bares, mais bares. Como o passeio é estreito e não dá para esplanadas, os bares estendem esteiras e os clientes sentam-se de rabo na calçada. Como as ruas são estreitas, há tuk-tuks como em Lahore, dezenas de tuk-tuks, com malas, sem malas. Tudo é gourmet, tudo são tapas, ou retrô, ou vintage. Até uma barbearia vintage ao fundo da rua, eu não queria acreditar. Calhou que acabava de fazer uma pesquisa sobre lâminas dos anos 40 para uma das minhas personagens, e de repente a lâmina da minha personagem estava na montra da barbearia da minha rua, à espera de algum taiwanês cool, daqueles dos filmes, que agora comem sardinhas no pátio vizinho.

 

6. O Inverno fustigara a casa, eufemismo para dizer que choveu lá dentro, portanto tive de fazer obras, portanto ao fim de quatro anos voltei a dormir lá algumas noites, para antes das obras deslocar o peso de milhares de livros das paredes para o centro, e depois das obras voltar a deslocá-los para as paredes. De cada vez que saía à rua alguém falava comigo numa língua diferente. De cada vez que eu entrava e saía do prédio tinha de furar por entre a multidão. E à noite era aquela alegria da cantoria até às cinco da manhã, e do cheiro a cerveja velha pela manhã. Ah, o cheiro a cerveja velha pela manhã.

 

7. Melhor que napalm, é certo, e com certeza melhor que a Herdade da Comporta neste Verão de 2014. Venha daí um Eurípedes que organize as 300 e tal personagens da tragédia, para ficarmos pela família. E os pequenos accionistas? E os trabalhadores? A que se há-de agarrar o português? Em quem confiar? É aqui que entra o PENT, Plano Estratégico Nacional do Turismo.

 

8. Descobri o PENT há um ano, ao fazer uns textos para um fanzine que cerca de 13 pessoas leram, portanto roubo de mim própria o título desta crónica, que era também o título de um desses textos: O futuro de Portugal é o PENT. Estou a ser irónica mas também objectiva, porque o futuro de Portugal ser o PENT é tão artificial e tão real como aquela fotografia do Martin Parr na Acrópole. Tive a minha cota de Acrópoles e Coliseus, não vou pasmar com a fila para as sardinhas.

 

(Público, 10-8-2014)

Gaza-Sines-Brasil

1. Sete tirinhas de Skype no telefone: “Desculpa não ter respondido mais cedo, quando não é o problema da electricidade é o problema da Internet / estamos bem querida / hoje o cessar-fogo começou às 7 da manhã / vai acabar daqui a uma hora e meia / consegui trazer água e comida / toda a gente manda amor e respeito”. Ayman Nimer, de Gaza para Sines, sábado, 26 de Julho, último dia do Festival Músicas do Mundo.

 

2. A última vez que me lembro de estar em Sines foi numa noite deste festival, há uns 15 anos. Antes disso, Sines era o Al Berto, mas nunca estive lá com ele, nem de dia. E antes ainda, era a petroquímica, chaminés, aquele cheiro quando se ia de Lisboa para o Algarve e a viagem demorava um dia, por alturas do 25 de Abril ou ainda antes de eu entrar para a escola, quando morei um ano em Santiago do Cacém.

 

3. Este Verão tive a sorte de ser paraquedista. O apache que dirige o festival resolveu incluir na programação duas sessões sobre livros, uma com o Afonso Cruz, outra comigo, o que fez de mim a única pessoa com uma pulseira de participante que não tinha uma banda, porque além de ter publicado 15 livros (30, contando com as ilustrações), ser pai de família, um encanto de pessoa, morar no Alentejo e desenhar, o Afonso compõe, canta, toca guitarra, harmónica, ukelele e actuou em Sines com a sua banda. Já eu, bem vi a cara do alentejano no bar dos artistas quando lhe pedi uma água. A pulseira não o enganou por um segundo: “Atão tem alguma banda?”

 

4. O apache que dirige o festival chama-se, claro, Carlos Seixas. Índio de Viseu e não do Texas, confidenciou-me o livreiro local ao jantar. Éramos 17 à mesa, incluindo a banda do Afonso, The Soaked Lamb. Belo nome, disse eu, mas o Afonso diz que não, porque as pessoas não pensam logo em ensopado de borrego. Já o apache de Viseu-Texas não estava presente para confirmar as suas origens, porque basicamente tinha cerca de 30 mil pessoas às costas.

 

5. Fiquei impressionada com a multidão que lota o festival, sobretudo os faquires rastafaris que levitam acima dos perigos, numa nuvem de marijuana. Alguém na Jamaica viu o futuro, e o futuro era Sines: belas raparigas com testas tatuadas e plantas dos pés de um negro imemorial; belos rapazes mais leves que todo o volume das rastas, empoleiradas na nuca, como um polvo de lã. São um povo preferencialmente descalço, com vocação para transportar a sua própria casa, e armá-la em qualquer passeio. Mas em Julho, em Sines, atravessam e são atravessados pelos outros povos, fãs de uma noite ou do pacote, viajantes, praieiros, famílias, betos, até.

 

6. O livreiro de Sines é o Joaquim Gonçalves. Foi ele quem me recebeu, para a fala de sábado, acabada de sair da toca. Achei que ia estar toda a gente na praia, mas havia gente vinda do Norte e do Sul com perguntas sobre Gaza, sobre o Brasil, uma Maria muito bonita com o contacto de um português fazedor de barcos em Pernambuco, que também anda descalço, até já andou nu. Sines tem uma costela pernambucana, quando o apache Seixas me ligou a primeira vez falou logo do Cordel do Fogo Encantado, banda que já esteve no festival e sobre a qual eu escrevera por causa do meu vizinho agricultor que lê Agamben. Ter costelas assim pelo mundo, Irão em palco numa noite, Israel na outra, depois dançar com o Benim, é política a longo prazo, porque o esquisito é sobretudo esquisito ao longe. Atalhando, quando depois da fala eu e o Joaquim conseguimos enfim chegar ao castelo já os Soaked Lamb iam a meio da festa, e aquela voz de bluesman era mesmo o Afonso Cruz: chapéu. Escrever é ok, mas todos queremos é ser o Lou Reed.

 

7. Entre os Soaked Lamb e o jantar dos 17, o Joaquim levou-me à livraria dele, com a cara de Al Berto à entrada, uma cara de rapaz no Verão, do tempo em que Sines era uma aldeia e se ia à boleia pela Europa. Além das novidades, a livraria tem fundos bastantes para fazer acontecer a feira do livro na capela quinhentista junto ao castelo, onde acabámos por encontrar o Luís Henriques, da Homem do Saco, que veio compôr cartazes artesanais, como as edições que eles continuam a fazer em Lisboa. Um cartaz, uma banda, peças únicas. Joaquim conheceu Luís, Luís conheceu Joaquim, ponto para a guerrilha. Estamos a falar do livreiro que ganhou o prémio de melhor atendimento em todo o país, e durante o festival atende neste altar sacro-profano, livros, discos e talha dourada.

 

8. Domingo de manhã, havia tendas em qualquer canto de Sines. Uns burgueses, comparados com aqueles que ainda não tinham dormido, ou simplesmente dormiam no passeio. Já em direcção a Alcácer, bem antes de aparecerem cegonhas e arrozais, alguém deixara cair o enxoval na estrada, panelas, pratos. Bom momento para aquele samba de Nelson Cavaquinho que sempre me deixa a saudade aguda de certo sábado no Rio de Janeiro, quando passavam 100 anos sobre o nascimento de Nelson Cavaquinho, e com a sua elegante voz de baixo o cavaquinista Gabriel Cavalcante lançou: “Tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor…” Foram estes versos que a banda de Afonso Cruz cantou ao poente no castelo, coincidindo com as sete tirinhas vindas de Gaza e a melancolia de quem ali em Sines pesava o que queria e não queria, luxo maior de estarmos vivos.

 

(Público, 3-8-2014)

Corta-e-cola até à derrota final

1. Um leitor instou-me a escrever sobre a nossa gente visto que agora moro em Portugal. Não sei o que seja a nossa gente, mas a minha gente inclui brasileiros, palestinianos, israelitas, afegãos, mexicanos, açorianos ou transmontanos, e é com todos eles que escrevo, seja de onde for. Uma das vantagens de Portugal, este trampolim, é que já nascemos prontos a saltar. Vamos uns, vimos outros, na contramão do confinamento, porque é possível, e para que seja possível.

 

2. Ninguém sabe tanto sobre confinamento como os meus amigos em Gaza, que me protegeram quando nada os protegia, até à última guerra que passámos juntos, em 2009. Foi a última vez que lá estive, e sem esses amigos, Ayman Nimer, a sua mulher Heba, e as três filhas de ambos, Lulu, Mimi e Nunu, muitas reportagens do Público não teriam existido. As notícias de 2014 parecem repetidas de 2009, que já pareciam repetidas de anos anteriores, e assim sucessivamente, como diria João César Monteiro. A diferença é que em 2009 eu estava lá e Ayman não precisava de me escrever pelo Skype a meio da noite, como agora (“Custa muito a passar o tempo até de manhã, quando Heba e as meninas podem dormir, porque só se sentem seguras quando o sol se levanta e fica brilhante, mas claro que não é um sono profundo, porque as pessoas não conseguem dormir profundamente durante o dia, é a estrutura biológica dos seres humanos, seja como for, nunca é um sono contínuo, e por aí fora, e isto há 11 dias, podes imaginar como é difícil manter o foco e a concentração, estamos alerta o tempo todo, prontos para todas as opções, incluindo ficar debaixo de ataque directo, muitos cenários………. opppppps, é mesmo cansativo”).

 

3. Privação de sono: no caso das três filhas de Ayman, desde que nasceram. Gaza tem vários recordes involuntários, como ser o único território do mundo com 40 quilómetros de comprimento por seis a dez de largura, onde quase dois milhões de pessoas não podem fugir para lado algum, mesmo que caiam bombas, como agora, como em 2009, etc. Quando esta crónica sair, os 11 dias de que fala Ayman serão 19, contando desde o início da Operação Limite Protector, eufemismo das forças armadas israelitas para a guerra de 2014, que também parece repetido do eufemismo da guerra de 2009. A eleição de Bibi veio na cauda dessa guerra. De facto, tudo estaria como em 2009, se não estivesse, ano a ano, pior. Corta-e-cola até à derrota final.

 

4. “Para a minha geração, é uma vergonha chamar-lhe uma guerra.
Lutámos contra os exércitos árabes, vimos os nossos aviões serem abatidos, os nossos tanques a explodir, enterrámos dezenas e dezenas de camaradas em guerras sucessivas. Agora esta coisa, um dos mais fortes exércitos do mundo a atacar uma Gaza desamparada, não é algo a que eu chame guerra.” Isto era o historiador Zeev Sternhell, uma referência dessa minoria estraçalhada que é a esquerda israelita, quando o entrevistei na sua casa de Jerusalém, em 2009.

 

5. A vergonha de Sternhell é a vergonha de quem fez Israel à custa de muitas guerras, veteranos que juraram não ser fracos depois do Holocausto. Eles vêem aquilo que construíram ser moral, política e financeiramente corrompido pela ocupação crescente dos territórios palestinianos, com a contínua deslocação de cidadãos israelitas para colonatos, e a contínua apropriação de recursos naturais, numa contínua violação de todas as resoluções internacionais. O governo de Bibi Netanyahu tem radicalizado a ocupação de uma forma que no presente é homicida para os palestinianos e no futuro será suicida para os israelitas. Impressiona-me o discurso a curto-prazo de quem defende Bibi, porque acha que assim defende Israel. Na lógica de quem quer preservar o estado de Israel, o primeiro alvo devia ser o governo de Bibi. Nada trai tanto a herança do Holocausto que justificou a fundação de Israel, nada afasta tanto Israel de uma solução política, e portanto nada o aproxima tanto do seu fim. Se ninguém faz tanto mal ao mundo islâmico (incluindo a resistência palestiniana, por arrasto) como os fanáticos pós-Al Qaeda no Médio Oriente ou em África, ninguém faz tanto mal aos judeus, aos israelitas e ao Estado de Israel como os fanáticos de que Bibi é instrumento. Nesse sentido, pela escala e consequências, a estratégia do actual primeiro-ministro de Israel só favorece o anti-semitismo.

 

6. A propósito, e poupando trabalho a algum comentador mais desocupado: tenho amigos judeus em Portugal e no Brasil, amigos judeus israelitas em Israel, gosto de acreditar que eu própria terei uma costela vizinha, árabe ou judia, e quero dizer, como os judeus dizem (wishful thinking): ano que vem, em Jerusalém. Deixo o bumerangue do anti-semitismo aos militantes que tanto se entretêm com ele, achando que cumprem o seu dever pela repetição de fórmulas como Israel ter o direito de se defender dos ataques do Hamas. Meio milhar de civis palestinianos mortos para três civis israelitas (à hora a que escrevo) não é um lamentável efeito colateral desse direito, nem um crime do Hamas que usa a população como escudo, mas antes de mais um crime de Israel (quanto a este ponto, recomendo o incansável Uri Avnery, 90 anos, pai espiritual da esquerda israelita pacifista, que na sua última coluna semanal aplica a retórica de Bibi ao bombardeamento de Londres na II Guerra: um relato Monty Python).

 

7. À hora a que escrevo, o que o actual governo de Israel conseguiu com esta guerra foi matar mais umas centenas, ferir mais uns milhares, destruir mais uma parte de Gaza, e ter o aeroporto de Telavive quase deserto, porque muitas companhias internacionais se recusaram a voar para lá, depois de um rocket do Hamas cair perto. Antes de Israel ter o direito de se defender de qualquer ataque do Hamas, teria o dever de acabar com a ocupação do território que o Hamas comanda, Hamas esse eleito quando a situação em Gaza chegou a tal degradação, alimentada por Israel, que os palestinianos quiseram tentar uma alternativa à Fatah, alternativa essa que Israel já usara a seu favor, etc, etc. Eu estava lá em 2006 quando o Hamas ganhou as eleições, sob a vigilância atordoada da comunidade internacional. Querem acabar com os rockets do Hamas? Comecem por acabar com a ocupação. Sem ocupação, o balão do Hamas esvazia. Querem acabar com a pressão internacional, os boicotes de cientistas e celebridades, os cancelamentos das companhias aéreas, a queda na bolsa de valores mundial? Acabem com a ocupação, desfaçam os colonatos, cumpram as resoluções internacionais. Quem fortaleceu o Hamas foi a ocupação israelita combinada com a decadência da Fatah, toda uma aliança simplesmente favorável à continuação da guerra por todos os meios.

 

8. Nunca cancelei a recepção de emails das organizações israelitas e palestinianas, então ao longo do dia vou recebendo as actualizações de um lado e do outro. Do lado de Israel, o GPO (Government Press Office, sem o qual nenhum jornalista tem acesso a Gaza) informa-me que devido “à continuação dos combates” os jornalistas não podem entrar nem sair de Gaza (corta-e-cola 2009). Do lado palestiniano, todos os dias recebo a notícia da morte de mais um jornalista local. Já não faço parte da redacção do Público, mas o Público também não tem ninguém em Gaza. Cada vez é mais caro fazer reportagem, e cada vez será mais difícil cobrir Gaza.

 

9. À hora a que escrevo, 2h42 da manhã, Ayman não está online, e o mais provável é que já não tenha electricidade, porque só 10 por cento de Gaza ainda tem electricidade. Acredito que desde 2005, quando nos conhecemos, muito mais gente rejeita a estratégia de Israel, e disse-lhe isso a última vez que falámos. Ele disse que sim, que sentia isso em tudo o que lhe chega de fora, e que isso ajuda a manter a força. É por isso que vale a pena cada sinal, mesmo à distância, de fora. Para mim, será uma forma mínima de reconhecimento, porque o melhor que sei sobre resiliência e dignidade aprendi-o com ele, com eles, nos piores dias da Faixa de Gaza.

 

10. Agora são 12h45 do dia seguinte. Ayman continua sem aparecer online. Leio que as famílias em Gaza se estão a dividir, pai e filhos para um lado, mãe e filhos para outro, para que pelo menos uma parte sobreviva. Não sei como faz uma família com três meninas.

 

 

(Público, 27-7-2014)

 

 

O Brasil sempre à frente de si mesmo

1. Um amigo carioca, professor de cinema numa universidade pública, mandou-me um livro do Rio de Janeiro para o Alentejo. Quando escrevi a agradecer, disse-lhe que esperava que a infatigável polícia brasileira não o tivesse incomodado em casa. Ele respondeu que não: a cota dos professores detidos já estava preenchida. Bem-vindos ao pós-Copa 2014.

 

2. Porque é que a polícia brasileira havia de perder tempo a ir a casa deste académico, pai de família, activista desarmado? Boa pergunta. Mas a verdade é que perdeu tempo indo a casa de professores e estudantes, alguns adolescentes, para os levar detidos, em vésperas da final da Copa, na maioria das situações porque eles protestam nas redes sociais e nas ruas. Outra amiga, professora de literatura, acentuou em caixa alta no mail que me mandou a falar dos colegas: “presos EM CASA”. Argentina de Buenos Aires, há anos no Rio, esta é duplamente uma história dela.

 

3. Professores e estudantes presos por “formação de quadrilha armada”? Escutas telefónicas comprovando a compra de fogos de artifício? Polícia de choque carregando a eito sobre activistas e repórteres (“uns animais”, resumiu o meu fotógrafo mais próximo)? Nada que não tenhamos visto antes. Por exemplo, a Presidenta Dilma Rousseff. Ela viu bastante disto quando era militante da extrema-esquerda e a polícia política a apanhou, e fez aquele retrato que se acha no Google logo à primeira busca por “Dilma Rousseff”, uma garota de óculos grossos e camisa aos quadrados, presa como guerrilheira no auge da ditadura brasileira. Gostava de saber o que acontece com estas pessoas quando, 45 anos depois, estão sentadas no Palácio do Planalto e acham um espelho.

 

4. Mas o Brasil é aquele país que tem uma Presidenta de esquerda (?) e mulheres que continuam a ir ao México e a Portugal para abortar, no caso das que conseguem arranjar dinheiro. No caso das que não conseguem, é como sempre foi, e era em Portugal, problema delas, não tivessem engravidado. Entre evangélicos, ruralistas e figurões da ditadura, muita gente no Congresso brasileiro ainda pode ser útil à coligação no poder, não convém aliená-la. O PT é um campeão daquela ginástica conhecida como “governabilidade”. A final da Copa, com os seus presos e a sua tropa de choque, coincidiu com eu estar a ler “Imobilismo em Movimento”, ensaio de Marcos Nobre sobre as últimas décadas do Brasil que explica bem este status quo progressivamente ufanista.

 

5. O momento em que o ufanismo baixa a bola (7-1) é o momento em que o status quo mais teme, e portanto ataca. É que entretanto o meio-campo, o centrão, está de luto. Não vi o Alemanha-Brasil, e ri ao saber do 7-1 só dava para rir, de tão burlesco, como muito carioca fãzaço de futebol diria que só dava para rir, de tão ruim. A minha piada favorita é aquela em que às tantas da noite alguém escreve: já tem umas seis horas que a Alemanha não faz gol. Foi a minha carioca em Londres que generosamente me contou isso, apesar de eu estar a ser tão incompreensiva com a derrota do Brasil. Depois mostrou-me o Facebook do meu primeiro mestre carioca e ele estava numa dor pós-7-1 de meter dó. E aí é como religião, não acredito no que ele acredita mas acredito nele. Para citar outro dos meus cariocas, tão anti-situação como anti-violência: se fosse fácil era fácil.

 

6. Já outro amigo no Rio, sociólogo em fase de doutoramento, o que inclui dar aulas numa universidade pública, confessou-me ao fim de uma hora no Skype, que torcera pela Alemanha. Em jovem era tão fã de futebol que chegou a fazer teste para time. Hoje, quando conta isso aos alunos, eles caem na gargalhada só de o imaginar, zero de atleta. Falámos quando ele acabava de voltar do “ato”, o protesto no Centro do Rio de Janeiro contra a prisão de 19 activistas incluindo professores e estudantes, incluindo aquela activista a quem chamam Sininho com a qual a “Veja”, no ano passado, engendrou uma das capas mais nojentas da história da imprensa, fazendo de Sininho uma espécie de saco-de-pancada do Brasil ufanista, uma Geni política (“Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni! Ela é boa de apanhar! Ela é boa de cuspir!”). A “Veja” dá 10-0 a qualquer activista quanto a caso de polícia. É, semanalmente, um caso de polícia. E vende mais de um milhão.

 

7. O “ato” tinha centenas de pessoas, menos do que o meu amigo e seus amigos esperavam. A sociedade brasileira é muito conservadora, diz ele, as pessoas compram a ideia de que esses activistas foram presos porque são violentos, e compram essa ideia dos media, que na melhor das hipóteses propagam uma neutralidade conciliatória. E pairando sobre tudo isto está o PT no poder, no qual o meu amigo já votou e não votará mais.

 

8. A história do meu amigo, que hoje mora no Rio, podia dar um video-propaganda do PT. Paulista dos subúrbios, cresceu num bairro tão pobre assim: “A gente ia para a escola comer.” Hoje ele vai lá e “parece que houve uma revolução”. Vai lá e é doutorando de sociologia. Quando eu estava em Londres ele tinha ido lá, feliz da vida. Mas essa “revolução” não aconteceu com Lula, ressalva, vem da ampla movimentação política que antecedeu a Constituição de 1988, e de processos que envolveram muitos actores políticos.

. “Vi isso acontecer no meu bairro antes do Lula, o crescimento atingia a todos. Meu irmão mais novo não passou nem um décimo da necessidade que eu passei. Houve um processo amplo.” Não há qualquer ambiguidade quanto a isto: “O Brasil hoje é muito melhor do que na década de 1980 e início de 1990. Posso dar minha família como exemplo de mudança estrutural.” Por tudo isto, o meu amigo é um crente no Estado. “A ideia anarquista é importante, mas na prática o Estado é um agente. É brutal, cruel quando o monstro está à solta, mas é um agente de transformação. O importante é ter uma reforma do aspecto repressor.”

 

9. No bairro do meu amigo claro que o futebol é uma festa, e ele esteve lá durante a Copa, mas no auge do seu corte com o futebol por discordar da “forma como a Copa foi usada para justificar arbitrariedades”, fazendo apelo a uma unidade patriótica. “Todos somos um, todos somos Brasil, essa confusão entre o país e uma selecção que é uma espécie de anúncio ambulante de marcas transnacionais, delírio patriótico, propaganda infame.” Tudo isso o impeliu a não torcer pelo Brasil. Então foi ver o Alemanha-Brasil num bar cheio de torcedores mas torceu secretamente pela Alemanha. “Cada golo era uma alegria.” Quando chegou aos 5-0 os próprios torcedores começaram a rir da situação, já esperando o próximo golo, então sentiu que não precisava mais esconder-se, podia troçar. “Quando o jogo acabou, fui para a Lapa beber, foi como lavar a alma. Torci contra sem nenhum problema. Selecção brasileira não é sociedade brasileira. Foi a maior derrota do futebol brasileiro na história.” Por isso mesmo, os efeitos não vão acontecer na sociedade? “Tem um imapcto no ufanismo, vamos baixar a bola porque não somos isso tudo. Só não sei se isso não é só o intelectual brasileiro, que é uma casta. No meio intelectual e político houve um impacto. Mas entre as pessoas comuns acho que não. Eu via as pessoas na fila do ônibus, brincando, sem nenhum fantasma.” Vai Brasil, sempre à frente de si mesmo.

 

(Público, 20-7-2014)

London London

1. Estou em Londres e é quarta-feira, o que quer dizer que acabo de tomar café lendo na imprensa inglesa sobre a “humilhação abjecta” do Brasil. Não num tablóide, no “Guardian” mesmo, e não numa coluna de opinião, no “lead” da notícia. A imprensa no mundo vai acabar antes de chegar aos pés da imprensa inglesa, é muito carácter. E se Londres acabar, é porque as cidades já terão acabado: o bairro onde estou tem o seu próprio jornal. O seu parque, a sua biblioteca, as suas ciclovias, os seus autocarros 24 horas, as suas estações de overground, a sua recolha de lixo separado, os seus mercados orgânicos, os seus habitantes do mundo inteiro, a sua rádio local e o seu jornal, incluindo caderno de cultura, que qualquer pessoa leva de graça, por exemplo da biblioteca.

 

2. A biblioteca está aberta sete dias por semana, com dezenas de computadores. Sempre que lá fui estava cheia, gente de todas as cores, um piso para crianças. Mas, claro, não sei como será voltar para um daqueles Council Flats que existem quase em cada rua, microapartamentos sem bay windows, sem jardins, sem bicicletas à porta, para não falar dos Mercedes. A minha amiga que mora no bairro fica fascinada por eles morarem cara com cara, de cada lado do passeio, os das janelas minúsculas que não têm computador em casa e os das bay windows que pagam milhares de libras de aluguer. Ela é carioca e isso seria impensável no Rio de Janeiro.

 

3. O silêncio seria impensável no Rio de Janeiro. O silêncio do autocarro que chega deslizando, pontual ao minuto, de acordo com a tabela digital na paragem; o silêncio do condutor protegido por um vidro que não deve ser abordado, porque uma gravação a bordo diz tudo o que é preciso, onde estamos e para onde vamos. Só à noite, depois do álcool, esse silêncio se quebra, vira purga da semana inteira em London London.

 

4. Todas as manhãs entro na sala da minha amiga, Caetano Veloso olha para mim da capa de um álbum, Outras Palavras, e eu penso noutro álbum, aquele que tem London London, o exílio de Caetano durante a ditadura brasileira.

 

I’m lonely in London, London is lovely so


I cross the streets without fear


Everybody keeps the way clear

I know I know no one here to say hello


I know they keep the way clear


I am lonely in London without fear


I’m wandering round and round, nowhere to go


While my eyes go looking for flying saucers in the sky

 

5. Vi a vitória do Brasil sobre a Colômbia na casa de uma carioca namorada de um inglês. O melhor de tudo foi vê-lo a ele a vê-la a ela. O mundo vai acabar antes da vida num inglês chegar aos pés da vida numa carioca. Não vi a vitória da Alemanha sobre o Brasil, só soube na rua, já tarde. Supus a minha amiga em prantos, o incêndio no Rio de Janeiro. Quando cheguei a casa, ela ria porque as notícias do Rio eram que depois de acabar o jogo rolara até samba no Cardosão.

 

6. Mas bem que os ingleses se esforçam, de qualquer raiozinho fazem um solário. Nunca tinha ido a Hampstead Heath com mais de 20 graus. Fui com a minha amiga no overground, parecia a praia. Há décadas que Hampstead tem esta tradição, lago de mulheres, lago de homens, lago misto. E o misto era uma amálgama de corpos pálidos, biquinis nada brasileiros, mas finalmente biquinis.

 

7. Não é preciso sair do bairro para tomar banho de sol, porque a três quarteirões está London Fields, um daqueles parques com grandes relvados delimitados por grandes árvores, zona infantil, zona de barbecue, piscina aquecida, jogadores de críquete louros e vestidos como nos anos 30, basquetebolistas negros e altos como em Nova Iorque, campos de papoilas e violetas com caminhos aos ésses, mães vietnamitas empurrando carrinhos de bebé, dezenas de bicicletas e centenas de corvos. É, ao mesmo tempo, completamente londrino e completamente cosmopolita. Dia sim, dia não, vou, volto, passando aquelas casas com sacos à porta que dizen Garden Waste, transbordando de folhas e ramos. E à noite, os guinchos nas traseiras da minha amiga serão raposas a copular loucamente. London, London.

 

8. Vida de bairro, com poucas excepções. Ontem apanhei o 38 e atravessei a cidade até Cambridge Circus para ver a nova Foyles. Continua a ser em Charing Cross, cinco andares, provavelmente a maior livraria de Londres, embora o único livro de 2013 que pedi para procurar no computador não existisse, e eu tenha saudades do chão que range. O café do quinto piso tinha uma senhora brasileira a organizar as tartes. Dava ordens em brasileiro porque o empregado também era brasileiro. Isso aqui está cheio de brasileiros, confirmou ela, recomendando-me os scones doces, mais gostosos. Preferi os salgados e foi então que soou o alarme: a voz grave de um cavalheiro britânico instava-nos a evacuar o edifício imediatamente sem usar os elevadores. Então centenas de pessoas abandonaram scones, tartes, novelas gráficas, a edição de bolso do “The Goldfinch” de Donna Tartt que está em primeiro lugar no top, talvez mesmo “Skylight” de José Saramago e “A Man: Klaus Kump”, de Gonçalo M. Tavares, únicos romances portugueses que vi em destaque na Fiction A/Z, ou seja, fora da mais recôndita secção Portuguese. Nada de pânico, nada de barulho, tudo descendo ordeiramente os cinco pisos, porque alarme de incêndio é mato em Londres, explicou depois a amiga portuguesa com quem me encontrei quando o Brasil estava a sofrer a sua “humilhação abjecta”.

 

9. Em Trafalgar, um pastor negro bradava por Jesus de punho cerrado enquanto homens-estátuas vestidos de Guerra das Estrelas entretinham os turistas, e acrobatas negros davam cambalhotas frente à National Gallery. A novidade do último ano na praça é o galo azul-ultramarino, uma escultura gigante que rivaliza com Nelson e os leões. Azul-ultramarino no meio daquele bege-cinza que é a cor genérica de Trafalgar. Tão extravagante como só o detalhe extravagante do mais inglês dos ingleses.

 

(Público, 13-7-2014)

 

 

Tudo o que podemos fazer com o insucesso

1. Ia começar esta crónica quando tropecei na conquista do Oeste do Iraque e do Nordeste da Síria por aquele exército demente que declarou a restauração do Califado. Estive no Iraque em 2003, na Síria em 2009, esta história também é minha. Dementes manobrando deus como manobram um arsenal, muito bem sucedidos: ninguém fez tanto mal ao islão quanto eles. Há sucessos aniquiladores, a nossa história comum está cheia deles, tal como a nossa história individual está cheia de insucessos à espera de tudo o que podemos fazer com eles.

 

2. Alguém aqui sabe quem foi Blarmino? Não confundir com o pugilista Belarmino, com que Fernando Lopes marcou o Cinema Novo, em 1964. Este Blarmino é uma personagem contemporânea: a figura do insucesso. Fiz uma busca de Blarmino no Google e as primeiras imagens que aparecem são todas de Belarmino. Aliás o Google tenta corrigir Blarmino para Belarmino, e depois de nos dar imagens de Belarmino dá-nos umas moças em pose sexy. Em suma, não há uma única imagem de Blarmino no Google, e ele foi um artista. Caso de insucesso agudo.

 

3. Digo foi porque já não é, largou o nome. Blarmino era o pseudónimo de um duo de Coimbra que tocava tecno, e em seguida do rapaz que escrevia as canções desse duo, e continuou a escrever a solo, pop-rock. Compôs pelo menos umas 70 canções na primeira década do século XXI, deu vários concertos em Portugal, mas nunca gravou um disco, e hoje ninguém sabe quem ele foi, sendo que tudo isto aconteceu ontem.

 

4. Este ninguém é retórico. Algumas pessoas sabem. Músicos que terão tocado com ele. Cantores para quem ele terá composto. Gente que terá partilhado casa com ele. Vamos parar nesta última hipótese: Rui Catalão. O inventor-de-um-género-cénico Rui Catalão partilhou casa com Blarmino. Não apenas: admirava-o tanto que foi até ao Minho para dançar em concertos de Blarmino. Isto é muito, porque o Rui não é de admiração fácil. Mais ainda: o Rui admira-o tanto que no domingo em que lerem esta crónica estará em palco a apresentar/representar canções i comentários ― Exmo. Sr. Blarmino no teatro Maria Matos, em Lisboa, depois da estreia sábado, e antes da continuação terça e quarta. Declaração de interesses: sou amiga do Rui há muitos anos, desde que ambos trabalhávamos na redacção do Público. Vi esta peça-concerto-documentário em antestreia na Black Box de Montemor-o-Novo no mês passado.

 

5. Eu não fazia ideia do que ia ver. À entrada recebíamos uma folhinha com letras minúsculas. Percebi adiante que eram as letras de Blarmino, e que ele tinha sido um músico. Como o Rui falava sempre no passado passei o espectáculo a achar que Blarmino já tinha morrido. O Rui falava porque é isso que ele faz, fala connosco. Em pé, quase sempre à boca de cena, começa a contar-nos a história de uma catástrofe, o dia em que uma conduta de água rebentou na rua de Alfama onde eles moravam, Rui e Blarmino, e uma enxurrada entrou por uma janela e saiu por outra, porque a casa tinha janelas na frente e nas traseiras, sendo que de um lado era cave, do outro primeiro andar, ou vice-versa, estou a resumir de memória. Ora, além dos bens do Rui, que nesse momento se achava na Roménia, o tesouro da casa era o estúdio de Blarmino. Foi um rio que passou na vida dele, diria Paulinho da Viola. Blarmino nunca descolara como músico e agora a água levara tudo. E isto é só o prólogo, pouco revelo. Saibam apenas que por trás de Rui está o antigo parceiro do duo, Pedro Oliveira, mais João Bento no som e Cristóvão Cunha na luz, trio que toma conta da cena entre os episódios falados, recriando mais do que a música de Blarmino, a sua ausência.

 

6. No Maria Matos, Rui fará uma coisa que não fez na antestreia. Canta uma canção que Blarmino compôs para amigos, e começa assim: boy / vou te contar como até dói / a bicharada emergiu do esgoto e invadiu o cristo rei. Talvez Blarmino tenha soado demasiado tarde e escrito demasiado cedo. “A tese que defendo em canções i comentários é a de que Blarmino é a grande voz da sua geração exatamente porque não foi escutada pela sua geração”, diz Rui Catalão no press release do espectáculo. “Nós pensamos que vivemos um tempo difícil porque não há trabalho, não há dinheiro e não conseguimos fazer o que queremos; mas este é um tempo difícil porque ainda não aprendemos a fazer coisas consideradas importantes por quem está à nossa volta. É um problema de poder, de falta de empatia.” Nunca tinha visto isso posto em cena assim. É exactamente por isso que esta peça é uma grande peça da sua geração.

 

7. Então, Rui canta e há vários registos de Blarmino em várias versões: concerto. Mas também teatro: texto, luz, cena. Quando o corpo domina a expressão, dança. Tudo somado, autobiografia. Já era assim em Por Dentro das Palavras, o espectáculo de 2010 em que Rui Catalão inventou este género literário em palco. Há um momento de canções i comentários em que ele fala da geração de talentosos fracassados, nascidos pouco antes ou já depois do 25 de Abril, autores de música que não se grava, filmes que não se filmam, livros que não se publicam. O que Rui tem feito desde 2010 é expandir o seu próprio género, que consiste em levar para cena a sua arca de noé, e transformar a música que não foi editada, o filme que não foi feito, o livro que não foi publicado, na paródia trágico-marítima do seu próprio naufrágio, desde a adolescência no Cacém. Multiplicado na plateia, será o naufrágio de cada um.

 

8. Depois da fase em que achei que Blarmino estava morto, e que o espectáculo era uma espécie de luto (não deixa de ser, seja como for), veio a fase em que achei que talvez tivesse visto Blarmino ao vivo sem saber. Porque, entre as rarefeitas informações aqui e ali na Internet, colhi a referência de uns concertos no Arcaz Velho e de um derradeiro concerto no Left. Ora, o Arcaz Velho era um bar ao fundo da rua onde morei durante anos em Alfama. E o Left era um bar em Santos onde me lembro de ver música ao vivo. No fim dessa fase, eu já estava convencida que de certeza vira Blarmino. Foi mesmo antes de me assaltar a certeza: Blarmino não existia.

 

9. Liguei ao autor da personagem. Porque é que não havia fotografias de Blarmino na Net, nem uma fotozinha vagabunda? O autor explicou que a personagem tinha uma relação difícil com a exposição, e que além disso naquela altura não havia estas câmaras todas. Naquela altura, tipo, ontem, hummm. E, onde é que ele estava agora? O autor nomeou uma cidade europeia onde, por estranha coincidência, me acharei no momento em que esta crónica for publicada. Quando disse isso ao autor, ele ofereceu-se para me dar os contactos de Blarmino, rapaz aliás encantador, que com certeza falaria comigo. Mencionou músicos como B Fachada ou Samuel Úria que conheceram Blarmino. Deu-me novas do que ele anda a fazer nessa tal cidade europeia, sob outro nome: baterista aqui, parceiro de um velho músico africano ali. Passou-me o gmail dele.

 

10. Ao longo do telefonema caiu a ficha. Ou Blarmino escolheu deixar de ser Blarmino ou o autor escolheu que Blarmino deixaria de ser Blarmino, fosse como fosse não havia razão para lhe escrever. Blarmino é o seu próprio desfecho, tudo o que é possível fazer com o insucesso. Nada nos aproxima tanto, portanto nada mais poderoso.

 

(Público, 6-7-2014)

Tomba-gigantes

1. Ao fundo da sala desce um écrã, as equipas entram em campo lá no Brasil, o hino nacional brada no campo e na sala, patriotas de vermelho-selecção, punho no peito, nobre povo. Estamos em Lisboa, a 90 minutos de poemas vão suceder 90 minutos do futuro de Portugal, e há quem fique de uma sessão para outra, como teriam ficado Ruy Belo, Assis Pacheco & etc de poetas. É a chama imensa ou o poema contínuo, mas eu saio antes que acabe o hino. A sala foi ficando densa de fumo, amigos foram em busca de ar, e eu vou, com outros, reunir-me a eles.

 

2. Caminhamos de Santos ao Cais do Sodré, comentando como a sala enchera para ouvir poemas, ficara até difícil passar entre as mesas, tanta gente de pé, quantas pessoas ao todo, 70? Nisto entramos no novo Mercado da Ribeira e 700 pessoas estão sentadas no chão, esfuziantes porque Portugal acaba de marcar um golo.

 

3. Novo Mercado da Ribeira: não sei se o futuro de Portugal é o futebol mas o presente é gourmet. Por exemplo, os amigos brasileiros que nos esperavam tinham chegado há uns três dias e aquela era a terceira vez que comiam ali. Eu não estava a par do acontecimento, todas aquelas bancas de chefs. Os chefs são os novos profetas, conciliam em vez de dividir, multidões no espaço e não no tempo, porque a vida do estômago é instantânea e mortal, ao contrário da vida da cabeça. A Time Out é que fez o novo Mercado da Ribeira, explicou-me uma amiga portuguesa. O futuro da imprensa já é gourmet.

 

4. Já multidão e poesia são compatíveis mas assíncronas. Nos raros casos em que a multidão vem, o poeta foi. O que define um poeta de multidões não é ser mau, é estar morto. A multidão de um poeta acontece no tempo, por acúmulo de um mais um mais um, entregues à própria cabeça.

 

5. A propósito, entre a sessão de poemas e o jogo de Portugal, um velho leitor de Herberto falara-me do novo livro de Herberto, e de manhã, horas antes dos poemas, outro velho leitor de Herberto, na outra ponta de Lisboa, falara-me do horror à idolatria. Comprei o novo livro de Herberto na manhã em que saiu, trouxe-o do Porto para o Alentejo para dentro da lareira que já não é lareira, mas ainda não o tirei do celofane. Estou à espera que assente a poeira da corrida, ou como lhe chamar.

 

6. Há na idolatria uma pulsão sacrificial que é vitória da morte. O contrário será a insurbordinação, pulsão de vida. Sophia de Mello Breyner Andresen tem aquele verso, Não servirei senhor que possa morrer. O meu horror à idolatria é o horror à subserviência, aos venerados em altar da literatura: não servirei senhor que me possa matar. Idólatras são tudo o que um aumentador de cabeças como Herberto não precisa, potência insubordinada ao tempo, e ao seu derradeiro julgamento.

 

7. Entre os poetas da sessão pré-jogo não havia veneráveis. Naquele arco que vai dos gregos a Adília Lopes seriam quase todos pós-Adília. Falta de solenidade não é falta de ritual, nem de sagrado, como sabe quem tenha vivido a sério um Carnaval. É só uma espécie de desassombro, de riso na cara do rei que vai nu. E enquanto os poetas rirem na cara do rei que vai nu ainda cá estamos, glóbulos brancos, glóbulos vermelhos, luta de titãs com a morte.

 

8. Raul Mourão, artista brasileiro que mencionei na semana passada, tem esta frase numa peça: Poesia come tudo. Índios disseram isso de outra maneira, Oswald de Andrade disse isso de outra maneira, o Brasil diz isso ao mundo embora ouça várias outras coisas em outras direcções. O que o Brasil diz não coincide com o que o Brasil ouve. Pois sim, poesia come tudo, de agriões a rilke shakes (para aludir a uma poeta “parente” de Adília Lopes, a brasileira Angélica Freitas que hoje deve ter acordado no Porto, se virem uma gaúcha de óculos vermelhos é ela). Mas onde eu queria chegar era a isto, se a poesia come tudo é o tomba-gigantes da morte.

 

9. Foi na madrugada desse domingo dos poemas e do jogo de Portugal que morreu o Miguel Gaspar. Não trabalhei de perto com ele enquanto editor do Mundo, e na fase em que integrou a direcção do Público estivemos em pólos diferentes. A imagem que guardo é bem anterior, a do compincha do jornal rival, quando passámos dias a cobrir a Bienal do Rio de Janeiro, ele para o “Diário de Notícias”, eu para o Público, ele sempre mais rápido, eu sempre atrasando o fecho, escrevendo textos lado a lado e divertindo-nos o resto do tempo. Passaram exactamente 15 anos até à última vez que o Miguel me escreveu no Facebook, já eu estava aqui no Alentejo, uma mensagem compincha como um arco no tempo, por cima de toda a usura. Ele disse que estava feliz e eu sorri.

 

(Público, 29-6-2014)

Esse espinho no Verão

1. Escrevo ao lado de uma aranha verde-lima. Está pendurada na ameixoeira à sombra da qual escrevo. Primeiro, de cabeça para cima, desceu a um palmo do meu ombro. Depois, de cabeça para baixo, desatou a subir como um micropolvo, toda cabeça e tentáculos. Eu e uma aranha alpinista nos 35 graus do quintal, nem uma aragem que agite a recta dela. Alguém em linha recta nesta casa.

 

2. Voltar a casa nos 35 graus do Alentejo: passagem entre o sol e o interior de uma bilha. Está tanto calor como há seis meses no Rio de Janeiro, com a diferença de que no Rio as paredes não são passagens secretas. É uma diferença decisiva, acho que até acima dos 40 vai ser tranquilo, com excepção do quintal, no auge da maturação acelerada. Uma semana fora e já há ameixas do tamanho de ameixas, algumas já rosadas, uma tão precoce que caiu roxa no chão. Dióspiros, só perto do Outono, mas aquilo que era um botão agora é um bolbo, verde como a aranha. E o vaso da hortelã, devastado em chás diários, explodiu numa copa.

 

3. Um pequeno índio, totalmente nu, nem tanga nem nada, veio pela selva em S para não pisar as couves, as alfaces, tudo aquilo que os humanos tentam comer antes dos caracóis. Era o meu vizinho Vasco, que continua com sete anos. Já não o via há uma semana, o tempo em que dormi no Porto e as ameixas incharam. Atámos juntos a rede carioca, o Vasco saltou lá para dentro e deu-me as novidades: vinha aí um porco-espinho africano. Ele tinha apresentado várias hipóteses aos pais, incluindo um lagarto espinhoso e um porco-espinho africano, e a mãe, segundo ele, escolhera o porco-espinho africano. Eu não sabia que os porcos-espinhos variavam conforme os continentes e também nunca tinha ouvido falar de um lagarto espinhoso. Parece que por baixo dos espinhos tem um sensor de água, então será possível andar pelas selvas com ele, tipo varinha de vedor, ou o Vasco já estava a falar de outro lagarto e eu confundi, mas definitivamente falou de um lagarto que encontra água. Muita sorte voltar a casa e ter um índio que multiplica a nossa cabeça, género fissão nuclear. Por baixo desse espinho no Verão haverá água, quem sabe afinal não morreremos.

 

4. À noite ficou aquele luarão, terão visto, hemisfério norte, hemisfério sul. O meu quintal estava um pé cá, outro lá, a minha irmã em visita sentiu-se no jardim do Cosme Velho onde morei. Trazia-me o seu índio de dois meses, um budista que olha para o mundo com pernas em flor-de-lótus, um braço atrás da cabeça. Aos dois meses tanto faz se é dia ou noite, o tempo é um nirvana. O indizionho budista dormia, acordou, comeu, dormiu, nu como um índio de tanga amarela. Primeira viagem, o Alentejo.

 

5. O que toca de sinos nesta terra. Uma amiga minhota a quem há tempos falei dos sinos estranhou, se ainda fosse no Minho. Pois o meu Alentejo é um lugar em que a CDU tem mais de metade dos votos mas as igrejas fazem campeonatos de sinos. Hoje, que é domingo, acordei às oito e meia da manhã com aquelas badaladas que não são horas, disparam num contínuo. Entraram pelo meu sonho, e acordei sem saber se era morto, se era fogo, se era o rei, porque ainda estávamos no século XIX. Essa parte do século XIX há-de ser porque adormeci em cima de Brás Cubas, o mais célebre defunto da literatura brasileira.

 

6. Ora enquanto eu convivia com Brás Cubas, aí pelas quatro e tal da manhã, um seu compatriota mas nosso contemporâneo, o artista brasileiro Raul Mourão mandou um mail a perguntar por onde andava eu. Às seis e tal mandou outro mail porque acabara naquele instante de topar com um acaso: a crónica anterior a esta, chamada O Plano e o Acaso. Enviava-me em attach um vídeo seu de 2009, chamado Plano/Acaso. Não tínhamos qualquer contacto há pelo menos um ano, se não dois, e duas horas depois de me escrever aparece-lhe um texto meu com um título paralelo a uma peça sua. Li os mails depois de acordar com os sinos, e vi o vídeo, de que nunca nem ouvira falar: uma câmara vai descendo de elevador num edifício-garagem do Centro do Rio de Janeiro, a luz está do lado direito, cada vez menos, até às trevas, mas antes há um momento em que vêm pássaros pousar no parapeito. Quando lerem isto o Raul terá inaugurado uma exposição no festival Próximo Futuro, na Gulbenkian, em Lisboa, fica de convite.

 

7. Outras duas coisas meio conterrâneas de Brás Cubas terão acabado de passar pela Gulbenkian quando lerem isto: Carmen Miranda pelo Real Combo Lisbonense (RCL) e Angélica Freitas por Angélica Freitas. Esta Carmen/RCL vai-se fazer à estrada, até chegar mesmo a Várzea de Ovelha, lugar de onde foi levada com meses, lá nas redondezas de Marco de Canaveses, será questão de estar atento. Quanto a Angélica, que agitou um Rilke Shake na poesia brasileira, ainda estará hoje a ler em Lisboa (Guilherme Cossoul, 19h30).

 

8. E a Copa? Fiz Porto-Lisboa no dia da estreia. Vi o jogo num sotão com feijoada portuguesa, a melhor de que me lembro em anos recentes. A maioria dos comensais eram portugueses, mas havia torcedores de França, Perú, Guatemala, Brasil e Croácia, a brasileira a fazer caipirinhas de tangerina com gengibre, o croata a fazer mexilhões ultrapicantes, os melhores de que me lembro, ponto. Sendo que o croata era o homem da casa mais parecido com um brasileiro (ou um paquistanês, ou um turco, alguém escuro). Também havia um indiozinho igual ao principezinho e uma banda indie de raparigas no piso de baixo. A única portuguesa torcedora pela Croácia indignava-se com o aparente facto de o Brasil ter de ganhar para a revolução não estalar na rua.

 

9. A propósito de revolução, eu voltara do Porto com a notícia do despedimento de mais dezenas e dezenas de jornalistas, incluindo o João Paulo Baltazar. Somos da mesma turma na faculdade, exactamente da mesma geração, aquela em que o jornalismo teve mais meios do que nunca para cobrir uma guerra, e aquela que para fazer jornalismo agora tem de estar em guerra.

 

10. Já não sei da aranha que sobe em linha recta, nem estou já no quintal, quente demais. Hora da sesta para bichos e índios em geral. Às 17h30 os sinos dispararam outra vez, por cima de um galo perdido nas horas. Talvez sejam os bárbaros.

 

 

(Público, 22-6-2014)

O plano e o acaso

1. O plano era dormir no Porto três noites, de quinta a domingo. Já chovera e o céu ameaçava mais, talvez até ao fim, então botas, gabardine, biquini. O biquini é a esperança que ficou na caixa de Pandora, ou só a falta que a água faz. De repente, ao fim de dois meses na minha toca alentejana vi aquilo que faltava. Lisboa é uma cidade flutuante. Em Jerusalém, o que falta em água sobra em fé, salva que o mar está perto. No Rio de Janeiro, a Lagoa estava a duas paragens de autocarro e na chuva era a Amazônia. Em compensação, no meu Alentejo sem água não há turismo. Difícil ter água e não ter turistas, equação que já nem se põe em Lisboa, cada vez mais bonita para quem vem de fora. Idem para o Porto, pelo menos chegando assim na primeira quinta-feira de Junho, em plena tomada espanhola: dava para ver todo o Primavera Sound e ir derrubar a monarquia.

 

2. No primeiro concerto do Primavera, bem dia claro, talvez fôssemos mais americanos que ibéricos. Rodrigo Amarante tocou o seu Cavalo tão sorridente como Johnny Guitar, se Johnny Guitar fosse do sertão. Cavalo faz-me pensar num Brasil filmado por Nicholas Ray. Lá para o fim vem, e veio, o meu verso favorito, fera dos palácios, peste dos jardins, que na boca de um carioca acaba járrdjinsshh. Era como espalhar pelo Parque da Cidade o que tenho no ouvido há semanas. O plano do Porto começara em Rodrigo Amarante, e o acaso foi ter encontrado na relva o Luca Argel, poeta da Tijuca que eu não via desde a minha casa no Rio de Janeiro, e agora mora no Porto, aliás ia lançar um livro no sábado.

 

3. Ainda quinta, já lua alta, Caetano Veloso e o trio eléctrico da Banda Cê soltaram o Abraçaço na encosta do palco principal, álbum de uma solidão colectiva, atravessado por um arrepio (e o lugar mais frio do Rio é o meu quarto). Caetano pós-caracóis, pós-tanga, um senhor de cabelo liso, camisa branca, mas pronto a deitar-se no chão, cantar desde que o samba é samba: Existe alguém aqui / fundo no fundo de você / de mim / que grita para quem quiser ouvir / quando canta assim: / eta / eta, eta, eta! Entrou e saiu amado, uma plateia de barbas e flores como na tropicália, só que já sabendo do que o mundo não foi capaz. Não sei se é a melhor geração de sempre, mas será a mais bonita, e com certeza a primeira em que um rapaz dorme em casa dos pais com a namorada que antes dele tinha uma namorada.

 

4. Sexta de manhã era o temporal, rajadas, dilúvio. Apanhei o metro, que em Lisboa seria um eléctrico, saí em São Bento, desci a rua das Flores, agora sem carros, com cafés de degustação e gente nórdica. Agora, quer dizer, desde a última vez que desci a rua das Flores, ou seja, há anos. Mas, sim, do lado esquerdo de quem desce mantinha-se o alfarrabista do meu plano, como um parêntesis no meio de 2014: silencioso, vazio, numa semiobscuridade em que apenas a primeira sala estava iluminada: nos fundos e escada acima, escada abaixo, luzes apagadas por contenção. Há no Porto antigo algo de lacónico que é a derradeira elegância, no limiar entre a sensatez e o mistério.

 

5. Os dois livros do meu plano, reservados há um mês, esperavam intactos, capa de couro carmim, estrofes que talvez ninguém tenha folheado desde 1870, tendo em conta que o autor é daqueles com que o tempo foi justo, pouco lido então, agora nada. Mas escada acima, escada abaixo, acesas as luzes à vez, havia muito acaso em pequenas pilhas atadas com cordel, autor ou tema manuscritos num cartão, sem nenhum pó.

 

6. Desci com uma pilha nova, uns daqui, outros dacolá, até ao balcão. O único cliente era um cavalheiro de sobretudo e gravata, cabeleira para trás como no cinema mudo, que cavaqueava com os dois anfitriões. Ora um dos acasos que eu trazia vinha de folhas soltas, o que levou um dos anfitriões a revelar-se restaurador na hora: pincel e cola branca, cartão para nova lombada, forro de papel vegetal. O cavalheiro seguia o acontecimento com o vagar de quem já fintou a morte. Quer ver uma coisa bonita?, perguntou, abrindo uma pasta de couro de onde tirou a carta de um Wellington que falava em Tomaz de Mello Breyner. Ah, o avô de Sophia?, perguntei. Médico da corte, confirmou ele, e passou a narrar a autópsia de D. Carlos depois do regicídio. Sob as mãos tinha uma pilha de livros, depreendi que de uma vasta biblioteca, porque me disse que já não comprava nada, apenas vendia quando precisava de dinheiro, e disse-o tão naturalmente como os anfitriões haviam dito que a luz apagada era por causa da crise. Estava com 85 anos, já ia a prole em não sei quantos bisnetos, só faltava algum interessado em livros.

 

7. Subi pela rua dos Caldeireiros. Paredes grossas de granito, janelas de guilhotina, a Adega Vila Meã, só razões para morar no Porto. A construção é sólida, come-se bem, é mais barato. Os estrangeiros devem concordar, porque só me cruzei com estrangeiros até aos Clérigos.

 

8. Luca, o amigo carioca, mandara uma mensagem com as coordenadas do lançamento. Então, sábado à noite, deixei o Parque da Cidade de fitas atadas no pulso como uma presidiária e atravessei a cidade até à rua do Rosário, onde estaria um tal Gato Vadio. Estava mesmo, e com muitos livros de Alberto Pimenta logo à entrada. Pimenta, fanzines, combate, uma parede de belas ondas vermelhas, um frasco de belas bolachas de chocolate, q.b. de mesas e sofás, ao fundo um jardim, e entre o jardim e as bolachas um rapaz de barba que por acaso entrara porque era amigo da casa, por acaso encontrara Luca que por acaso já conhecia, por acaso ficara para o lançamento, por acaso era agricultor biológico, por acaso já ouvira falar no meu amigo agricultor do Alentejo, de onde eu saíra para por acaso encontrar Luca no concerto do Rodrigo Amarante, que por acaso era o que se ouvia agora no Gato Vadio. Há um biofísico, Stefan Klein, que escreveu um livro sobre o acaso, disse-me este rapaz. De resto, falámos sobre a proximidade entre quem planta e quem come, o cheiro da terra quando não se vive num apartamento, e calámo-nos para ouvir Luca.

 

9. Ele sentou-se com uma guitarra eléctrica, computador à mão, um link da net projectado na parede, olivrodereclamacoes.tumblr.com: cada filme um poema, cada poema uma canção. Então Luca cantava o que tinha escrito e na parede apareciam os filmes feitos para cada texto (uns dele, outros de uma estudante de cinema galega, que também mora no Porto). Eu nunca tinha visto um lançamento em forma de cinema cantado, concerto filmado, livro de música. Seja como for, é para circular pelos becos. Venham daí, gatos vadios.

 

10. Luca é ainda aquele cara de espessa barba ruiva ao centro da roda de samba acabada de nascer na cave do Café Ceuta. Num dos intervalos, contou-me que caminha no Porto como em cidade pequena, sem quase tomar transporte. Mas tem 26 anos, boa idade para derrubar a monarquia ainda que ela se chame república brasileira, quer dizer, estar lá, no olho do cavalo, no transe da rua. Passava da uma da manhã, noitada de cariocas, baianos, tantos deles músicos, uma aniversariante de samba no pé, dançarinos de forró, curiosos, paraquedistas, tudo isso entre o palco e as mesas de snooker, que no Rio se chama sinuca. Era como um bairro extra do Rio ali por cima dos Aliados, de segunda para terça. E ainda aqui estou.

 

 

(Público, 15-6-2014)

A toupeira e os leitores

1. Achei a toca onde moro graças a um leitor meu, que ainda há dias me bateu à porta como antigamente, PAM!, PAM!, PAM!, para me trazer laranjas, apesar de eu ser o eremitão, ou mesmo a toupeira do eremitão: o Zé, agricultor biológico, leitor de uma boa tralha. Num dia em que o Zé estava a ler este jornal calhou de me ler, então quando vim ao Alentejo à procura de uma toca com quintal já ele sabia coisas de mim que eu nem lembrava, até de algum livro meu. Zé, hei-de sair da toca lá para o começo do Outono, quando os animais começarem a hibernar, contando que acabe este livro antes que ele acabe comigo. Mas ainda antes disso, pelo menos antes de ficar inteiramente maluca, passo-lhe a Inconstância da Alma Selvagem, onde o Eduardo Viveiros de Castro explica melhor aquilo da humanidade ser um ponto de vista (a onça vê-se como humana e vê o homem como caça, o homem vê-se como humano e vê a onça como caça, por aí fora). Não desista de mim, Zé, até já.

 

2. Quando esta crónica sair, já terei ido ao Porto, procurar livros de 1870 e ouvir canções de agora (para começar, as de Rodrigo Amarante, num disco chamado Cavalo em que estou viciada). Tanto os livros como as canções têm a ver com o tal livro que estou a escrever enquanto toupeira: há uma personagem que precisa dos livros e outras que precisam das canções. Mas o que importa aqui é que devo a toca onde terei ficado a uma leitora que está a morar no Rio de Janeiro. Isto, porque resolvi pôr no Facebook que precisava de alugar algo junto ao Parque da Cidade durante esses dias tão bucólicos em que 20 mil pessoas estariam no Parque da Cidade. Um acto irreflectido, a não repetir, visto que os leitores são desmedidos, os leitores são obstinados, os leitores oferecem as suas casas mais ou menos até Espinho, e boleia para ir e voltar. Nunca vi esta gentil leitora, não trocara sequer uma palavra com ela, e a nossa conversa foi toda alentejana, naquele sentido de uma pessoa aqui no Alentejo ter que insistir para pagar. Nada carioca, concordámos ambas.

 

3. Eu devia ter lido os sinais. Num post anterior já pedira sugestões de alfarrabistas no Porto para poesia portuguesa do século XIX, e ao fim de alguns dias ainda estava a receber sugestões. Os leitores desdobram-se, vão buscar links, capas. Numa crónica recente cometi o erro de dizer: se virem por aí o Samba do Orestes Barbosa, interessa-me em qualquer estado. Pois um leitor antigo escreveu a ceder o exemplar da sua biblioteca e um leitor recente foi localizar um exemplar em Alcobaça. Os leitores não são razoáveis, os leitores descobrem livros brasileiros de 1933 em Alcobaça. Adoro Alcobaça, faz-me pensar em Inês de Castro, mas: Alcobaça? Quase me senti mal por já ter comprado o livro na Estante Virtual. Nunca mais dizer coisas assim, retóricas, se virem fulano interessa-me em qualquer estado. Os leitores levam-nos a sério.

 

4. O amabilíssimo leitor de Geraz do Lima escreve cartas camilianas, manda fotografias dos carvalhos, dos nenúfares, um destes dias mandou um filme. Tenho uma banda larga móvel, o que significa que há uma altura do mês em que a Internet entra em TPM e eu transformo-me numa toupeira de mobilidade reduzida. Passa a ser uma odisseia fazer um download, portanto, ainda não vi o filme do meu leitor. Outra coisa essencial sobre os leitores: citius, altius, fortius. Eles estão sempre à frente.

 

5. À frente aos 71 como aos 17. Um leitor de 17 anos escreveu-me a propósito de um texto na revista Granta. O tema da revista é “Casa”, eu escrevi sobre o corpo enquanto casa, e ele quis dizer que se tinha sentido “próximo da confusão, do caos”, que ficara a pensar no corpo como “a casa mais turbulenta onde alguma vez viveremos” e que não sabia explicar bem nada disso. Eu também não sei explicar bem nada do que quis dizer, mas se um leitor de 17 anos escreve a dizer isto talvez o texto já se tenha transformado noutra coisa, também caótica, confusa, turbulenta, mas dele. Talvez a adolescência.

 

6. Um leitor de 17 anos: cacete, diria uma das minhas personagens. A Internet tem esta coisa extraordinária. Aos 17 eu não podia mandar mensagens ao autor que acabara de ler, muito menos ele responder uma hora depois (ou um dia, que fosse, nem havia telemóveis, quanto mais Internet). Agora os leitores estão a um clique de quem lêem, a não ser que o autor seja toupeira a tempo inteiro.

 

7. Não estou a falar de leitores de ocasião, daqueles que nos apanham uma vez ou outra. De entre esses o meu favorito foi um indignado com a minha suposta mudança de nome. Ele apanhara qualquer coisa sobre um discurso político que eu fizera e queria dar a sua opinião: eu mudara de nome para não ser acusada de nepotismo. Aproveito mais esta ocasião para reafirmar que a minha amiga Alexandra Prado Coelho e eu somos duas cidadãs (com diferentes pais, mães, avós, tetravós, até onde sabemos) e não uma entidade sobrehumana que vai mudando o apelido do meio consoante as páginas desta revista, e consegue entrevistar chefes de cozinha internacionais ao mesmo tempo que não sai da minha cozinha no Alentejo.

 

8. Autor e leitor não caminham na mesma direcção, e a excepção é que se cruzem. O que um e outro sabem que querem é distinto e autónomo. Podem coincidir no que não sabiam, mas isso não se procura. E que nenhum se acomode ao outro, porque o que um sabe que dá não é o que o outro sabe que recebe. Tenho sempre presente esta passagem de Herberto Helder (numa raríssima entrevista a Fernando Ribeiro de Mello publicada no Jornal de Letras e Artes n.º 139, de 17 de Maio de 1964): “O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia.”

 

9. O leitor lê o que quer, lê ao contrário até, e é sempre o último a escrever. Ama e zanga-se, com sentido de posse, porque, mesmo que não o conheça de carne e osso, o autor é seu. O autor sabe disso porque também é leitor: sabe que o leitor tem na cabeça um autor que só existe na cabeça dele. Então o leitor quer dar-lhe coisas, segredos mesmo. Recebi cartas de leitores que talvez mais ninguém pudesse ler. A bondade dos estranhos coexiste com a violência dos estranhos, que coexiste com a intimidade dos estranhos. É assim. Há coisas radicais que só acontecem entre quem não se conhece.

 

10. Quem escreve está tão sozinho como cada um está sozinho até ao fim. Depois o texto entra, ou não, em relação com o mundo, mas isso só acontece quando é lido. Produção e promoção já não são o autor, estão depois dele, venda e compra ainda não são o leitor, estão antes dele. O único frente-a-frente real é de um para um, escuro em volta, autor e leitor. Aí, quem escreve já não é aquele que está a ser lido. A toupeira está na toca, o autor na cabeça do leitor. E se o leitor não estiver lá, ninguém está.

 

 

(Público, 8-6-2014)