Fumar/não fumar em Belgrado

  1. Saí do Rio de Janeiro no último dia da Primavera, aterrei em Belgrado no primeiro dia do Inverno. É o que acontece quando atravessamos o Equador em Dezembro. Não consigo ver a distância no Google Maps, porque não dá para ir a pé, de carro ou de autocarro. Ficam só dois pontinhos no planisfério, sem ligação disponível. Procuro “distância entre cidades”, dá 9961 quilómetros. No meu telefone diz que quando esta crónica sair estarão 34 graus no Rio e nevará em Belgrado. Já são três horas mais tarde agora. Mas nem os quilómetros nem a temperatura nem a diferença horária dão conta do grande curto-circuito no tempo: toda a gente fuma nos bares, cafés e restaurantes de Belgrado. Difícil saber se isto é o passado ou o futuro.

 

  1. Já chegaste a Sarajevo, pergunta um amigo, deves estar na Croácia, escreve uma amiga. Nada que os nacionalismos gostem de ouvir, mas a Jugoslávia ainda é uma ideia forte, penso, antes mesmo de o meu anfitrião sérvio Vladimir dizer o mesmo, à mesa de um restaurante onde nesse momento somos quatro, e três fumam.

 

  1. Ia escrever que estive em Sarajevo e na Croácia no fim da guerra, mas aqui não dá para dizer isto assim, no singular, quando só nos anos 90 houve guerra bastante para se ter sido criança numa e adolescente noutra. Então, estive em Sarajevo e na Croácia no fim da guerra de 1995, mas nunca tinha estado em Belgrado. É a cidade que mais foi bombardeada no século XX, diz o meu anfitrião português André. Só entre o aeroporto e a casa dele dá para ver a ruína do ministério detonado pela NATO em 1999 e as janelas entaipadas da ex-embaixada americana. Difícil manter um vidro americano intacto, em Belgrado, no pós-1999.

 

  1. Os subúrbios lembram todas as cidades da Europa de Leste onde estive antes da queda da URSS, mas o centro tem ecos de Atenas e Istambul. Mais otomano, ou menos eslavo, do que eu imaginava. Do céu dá para ver os rios na planura, Sava e Danúbio, que separavam o império austro-húngaro do otomano. Depois, cá em baixo, nas margens do castelo, também: o Sava em primeiro plano, a ilha de ninguém que até hoje é um pântano desabitado, o Danúnio por trás e Nova Belgrado, com as suas torres corporativas, que ao crepúsculo têm qualquer coisa da Disney. Além, os Habsburgos, aqui os turcos. Belgrado era um entre-mundos.

 

  1. A verdade é que nem ao crepúsculo o frio estava mortal, mesmo para quem vem do Rio de Janeiro. Pelo menos para uma europeia que vem do Rio de Janeiro com uma súbita nostalgia de árvores caducas, casacos de Inverno, ocre em vez de verde, silêncio em vez de ruído. Belgrado vindo do Rio é como se alguém tivesse cortado o som. Há carros, velhos eléctricos vermelhos do tempo da Jugoslávia, é uma capital, e nos Balcãs, mas o som parece ter ficado dentro de uma fotografia, uma daquelas fotografias de quando toda a gente fumava nos cafés.

 

  1. No centro há livrarias por toda a parte. Parte dos livros estão em cirílico, parte não. O alfabeto oficial é o cirílico, nas fachadas dos museus como nos documentos, mas depois tanto há jornais em cirílico como não, e por aí fora, cardápios, anúncios, grafitti, a opção é de cada um. Há muitos graffiti, e misteriosas instalações de arte urbana, como aquela por trás do apartamento onde estou a dormir, em que alguém todos os dias põe e dispõe objectos avulso nos relevos e reentrâncias da parede. O meu anfitrião André já perdeu a conta aos dias, semanas, meses que isto dura, mas nunca viu o artista. Talvez seja um colectivo. Talvez haja uma câmara no topo do prédio em frente para observar a nossa reacção. São objectos desirmanados, um sapato, uma bolsa, um recorte de revista, sempre velhos, quebrados, sujos. Ainda assim, a primeira coisa que me ocorre é que no Rio de Janeiro não durariam assim, sem que ninguém lhes mexesse. Alguém já teria levado aquela bolsa, aquele pedaço de lata, tem catador para tudo. Aqui ninguém mexe, ali estão a cada manhã.

 

  1. Também não se vê gente a dormir na rua, mas isso é porque faz demasiado frio, explica a minha anfitriã sérvia Maja. Há uns abrigos com uns colchões onde os sem-abrigo de Belgrado vão dormir. E se esta conversa começou, quando estávamos à espera do 2, que é o elétrico que dá a volta ao centro de Belgrado, foi porque veio um homem com um saco de plástico e começou a falar com a paragem do eléctrico. Falava com a paragem como se ela respondesse, fazendo pausas, antes de retomar o que estava a dizer. Depois entrou para o elétrico, que, tal como os cafés, não se sabia bem em que tempo estava. Não paguei bilhete porque a condutora disse que a máquina estava avariada. Era uma máquina contemporânea da Jugoslávia, talvez mesmo dos Não Alinhados.

 

  1. A meio do círculo do 2 passamos por um cartaz do que será a nova zona ribeirinha de Belgrado, uma frente-de-água género Manhattan-Xangai-Dubai que não deixa de parecer mais antiquada do que os cafés retro de 2014, incluindo aquela cafana com dois séculos, onde bebemos uma rakia de medronho. Cafana é uma taberna, e rakia é aguardente. Para quem vem do Rio de Janeiro, mais forte do que cachaça, mas o André diz que é questão de hábito.

 

  1. Com tudo isto, mais os preços baratos, Belgrado podia ser uma Berlim, pergunto eu? Não, dizem os meus anfitriões. Porque, por exemplo, numa parada gay de 500 há 7000 polícias para evitar chacinas. Altamente improvável avistar um par gay em Belgrado, e por aí fora, no que isto implica de liberdades individuais. Os anos 90 terem sido de guerra significou também uma pausa nisto, estava toda a gente ocupada a sobreviver. Então, pode-se fumar dentro dos cafés, mas dois homens também não dão beijos na rua.

 

  1. O Vladimir, que vai fazer 50 anos, continua a identificar-se como jugoslavo quando sai da Sérvia. Mas quando foi à Índia, a Mila, que tem 32 anos, fez o mesmo. Uma geração de diferença e a Jugoslávia continua a ser uma ideia forte. É porque não era artificial, diz o Vladimir. O que não quer dizer que seja reversível. Mesmo não-nacionalistas como eles dirão que não é reversível. Apenas, e essa é a melhor das hipóteses, que exista como ideia de parceria: uma espécie de passado para o futuro.

 

(Público, 28-12-2014)

Diga à morte que estou escrevendo

1. Foi uma semana antes do Carnaval de 2005, lembra ela. Estavam juntos havia 15 anos e ele nunca ficava doente, mas dessa vez havia “uma sensação de congestionamento na garganta”, um pigarro persistente, perda de paladar. Portanto, apesar de ele sempre fugir de médicos, nessa semana foram juntos ver o que era. Quando a consulta acabou, ele vestiu-se à pressa, ansioso por ir para casa. Tinha um livro para acabar de escrever, na verdade mal começara, ia na página 89 e seriam mais de 500. Só que o médico tinha outra ideia, na verdade uma ordem, ele teria de seguir para um especialista nesse dia mesmo. E os exames confirmaram: era um cancro debaixo da língua, com metástases, já.

 

2. “Ia fazer cinquenta e sete anos e estava começando a escrever o livro mais importante da minha vida. Não podia me dar ao luxo de morrer.” É assim que ele lembra o que então pensou. Sim, fácil pensar a meio da escrita de um livro, não posso morrer agora, pelo menos não antes de acabar, e esse pensamento facilmente impele a escrita. Mas não tão fácil quando se seguem três meses de radioterapia diária e de quimioterapia semanal, porque a coisa está tão adiantada que operação já não resolve.

 

3. Então, durante três meses ele saiu de casa todos os dias para a radio, e à sexta para a quimio. Deixou de comer, não podia, ingeria calorias numa bebida a que carinhosamente chamava milkshake de carpete, vários ao dia apesar da garganta em ferida, depois de uma vida lauta a comer, beber, fumar, fora tudo o resto. Escrevia durante o dia inteiro, e todos os dias, conta ela, tão enlouquecido como nos outros livros, com intervalo só para aquela excepção “braba”, o tratamento: trinta e quatro sessões de rádio, sete de quimio, vinte e nove consultas, quinze idas ao dentista, cinco biópsias, cinco exames de sangue, duas ressonâncias magnéticas, duas chapas de pulmão, uma endoscopia, e enfim uma cirurgia, porque já não dava para operar antes mas ainda teve de operar depois, mais punções para esvaziar o líquido do pescoço, mais sessenta e uma sessões de fisioterapia.

 

4. O copo do milkshake de carpete era igual ao do Bob’s, conta ela, igual ao dos milkshakes do Bob’s que ele adorava. O Bob’s é uma espécie de McDonald’s brasileiro, nunca parei para pensar no Bob’s nos meus anos de vida brasileira, quanto mais entrar. Mas entretanto acabo de ler o que ela conta sobre o milkshake de carpete e aterra no Rio um amigo que adora o milkshake de ovomaltine do Bob’s, e de repente, à meia noite, estamos em Copacana a partilhar um milkshake de ovomaltine, o primeiro Bob’s da minha vida, o meu primeiro milkshake de ovomaltine, para estrear os meus 47 anos. Pois no dia seguinte, ao descer da ladeira do Cosme Velho onde morei, lá estava o Bob’s ao dobrar da esquina, sempre estivera, eu é que não via. Agora, nunca mais poderei olhar um Bob’s sem me lembrar do milkshake de carpete, que para mim sabe a ovomaltine.

 

5. Só chamar o milkshake de carpete já manda a morte bugiar. Sempre a rir, com aquela sua queixada estúpida, a morte não tem nuance, e portanto não tem humor.

 

6. Um dia, depois da brabura do tratamento, veio o teste da empadinha. A ver se ele conseguia comer aquilo, se tinha sabor. Quem passa por um cancro destes perde muitas vezes a capacidade de produzir saliva e torna-se difícil comer algo seco, explicou-me ela. A massa esfarelada da empadinha era um bom teste. E foi.

 

7. Outro dia, conta ela, o telefone tocou, era ele. Porque eles moram em casas separadas, embora durante a brabura ela meio que se mudou para casa dele. Mas nesse dia o telefone tocou e ele disse que tinha acabado. Então leu para ela o último capítulo. Ela tinha lido todos, um a um, à medida que foram sendo escritos. O último parágrafo dizia assim: “Como afluentes humanos que desaguavam pelas transversais de Botafogo, gente de todas as idades, cores e categorias sociais continuava engrossando o cortejo — ao todo seriam centenas de milhares —, cantando os sambas e marchinhas. Nos braços do povo, Carmen Miranda vivia o seu maior Carnaval.”

 

8. É isso aí. Ruy Castro escreveu quase toda a biografia de Carmen Miranda (sua mais recente obra-prima biográfica, depois de, por exemplo, Nelson ‘Anjo Pornográfico’ Rodrigues e de João ‘Chega de Saudade’ Gilberto) enquanto levava doses cavalares de veneno para matar o cancro, além de todo o elenco médico que citei. “Eu tinha de conseguir. Não podia decepcionar a Carmen.”

 

9. Agora, em 2014, Ruy é o herói que joga com a morte, como no “Sétimo Selo” de Bergman, no livro de sua mulher, Heloísa Seixas. O livro chama-se “O Oitavo Selo” e a autora descreve-o como um “quase romance”. E, para começar 2015, ela publicará uma biografia juvenil de Carmen Miranda. É o chamado casamento bem a quatro mãos, até hoje em duas casas. Encontram-se todos os dias para caminharem juntos pela orla, Leblon-Ipanema.

 

10. Como vai a sua saúde, perguntei-lhe ao chegar, óptima, respondeu ele, tem mais de dois anos que quase não morro. Continua, portanto, de calção, e pronto para mandar a morte bugiar. Uma das coisas que lhe custa quando tem de enfrentar TV paulista é isso de quererem que o cidadão bote calça comprida, etc. Paulista é outro planeta, e isto, e aquilo, descemos ao piso de baixo a ver a biblioteca, só de livros do Rio de Janeiro é toda uma parede. Como dizem os cariocas, morri. Eu que acho que estou a escrever um livro do Rio de Janeiro. Uma pessoa cai em si e pensa que está lixada, mas só até deixar de pensar, que é quando volta a desfaçatez da ignorância. Entretanto, arrumando-me por completo, Ruy guiou o caminho até às estantes de Nelson Rodrigues como se fôssemos ver a caverna de Alibabá. Tive assim na mão uma primeira edição de Suzana Flag, essa pepita pseudónima que morava num lobo cerebral do grande Nelson, e fez derramar lágrimas tão cariocas. Uma, duas, todas as primeiras edições em geral. Tudo em geral.

 

11. É que eu tinha um novo disco de Carmen Miranda (Real Combo Lisbonense, “Saudade de Você”, 2014) para dar a Ruy Castro, longa história que não vou contar aqui mas por acaso começou no apartamento dele. Porque, abreviando, e em suma, esse disco nasceu da leitura da biografia de Carmen. O tal livro de mais de 500 páginas em que Ruy jogou com a morte e ganhou. E eu apostaria em como a história, com seus possíveis rebentamentos, não acaba aqui.

 

Público, 21-12-2014

Babilónia

  1. Nunca tinha trepado as traseiras do Leme. Anos de Rio de Janeiro e tanto por começar, tomara o amor em geral. O Leme é aquele bairro que é uma ponta de Copacabana, o desfecho da baía de Copa antes do morro que esconde, do outro lado, a baía de Botafogo. Não muito a minha praia, mais um toca-e-foge, quando era o caso. Clarice Lispector foi o caso por ter morado lá, acho que todas as fotografias que vi dela na praia eram no Leme, tão esfíngica como sempre. Depois Nelson Rodrigues foi o caso, ali me sentei com o seu filho Nelsinho, para ele me contar como a ditadura brasileira nunca os afastou apesar de todos os equívocos, pai com fama de reaccionário, filho prisioneiro político, e o meu fascínio pelo maior cronista do planeta só cresceu nessa esplanada do Leme. Finalmente, o Leme é o bairro daquele inexplicável totem carioca chamado Fiorentina, onde tantas noites de pós-qualquer coisa sempre desaguam, estreias, lançamentos, festas, entre as paredes assinadas pelos astros, e as ementas com nomes de astros, filé de fulano, escondidinho de sicrano. Como dizer que nunca consegui comer nada de jeito no Fiorentina que ainda por cima não custasse os olhos da cara sem o Rio me cair em cima? O Fiorentina é um totem-tabu carioca. Do Leme.

 

  1. E ainda teve o carioquíssimo aniversário de 2014 do meu Dylan Thomas Tupiniquim, personagem carioca destas crónicas desde 2010. Foi dias antes de eu deixar de morar no Rio, todo mundo à noite na praia, que era a do Leme, com canga, piquenique, mergulho e lua. Qual é a boa, pergunta o carioca por isto e por aquilo, a cada estação, a cada momento; pois no Verão, naqueles dias que prometem 40 graus com sensação térmica de 50, a boa é praia de noite. E, estando no Leme, não tem curva que vá mais longe que esta, até à outra ponta de Copa, um sem-fim.

 

  1. Com tudo isto, o Leme para mim sempre foi a frente: esplanada, praia, dia ou noite. Mas por acaso, agora, um amigo está a morar nas traseiras do Leme.

 

  1. Por acaso não é por acaso, só mania de português de Portugal. Acho que nunca me tinha apercebido disso até Tatiana Salem Levy, a minha amiga carioca mais lisboeta, chamar a atenção. Português de Portugal diz por acaso a torto e a direito. Como diz gostava quando quer dizer gostaria. Carioca cai na gargalhada: gostava de ir ao cinema quer dizer que já não gosta???

 

  1. Só para chatear, como no refrão de um velho samba, podemos até dizer: por acaso, gostava de ir ao cinema.

 

  1. Mas o facto é que não foi por acaso que o meu amigo se mudou para as traseiras do Leme. Antes porque os preços no Rio se tornaram aquele escândalo, e agora ele paga 800 (oitocentos) reais de aluguer, menos do que o condomínio em certos prédios da Zona Sul, e menos do que um quarto assim-assim em Lisboa. Porque as traseiras do Leme significam morro, um morro que são duas favelas: Babilónia e Chapéu-Mangueira (não confundir com a Mangueira, bairro e escola de samba, bem longe de Copa). Então, depois de comermos um “hummus” no Amir, que é o árabe do Lido (e o Lido é a passarela das prostitutas e dos travestis que vivem dos gringos que enchem os hotéis de Copacabana), caminhei com o meu amigo pelas traseiras do Leme até àquela esquina com o nome de Ary Barroso. Aí, nos graffiti coloridos, começa a subida.

 

  1. Seriam umas dez da noite e já dava para ver a movida só na primeira inclinação, táxis e mototáxis subindo e descendo. Este morro virou um point, como dizem os cariocas. O primeiro bar que avistei até se chamava qualquer coisa Point. E chegando ao fim dessa primeira inclinação, para a direita é Chapéu-Mangueira, para a esquerda Babilónia.

 

  1. Não por acaso, a bifurcação estava cheia de Polícia Militar de espingardão em riste. Há anos que o morro tem uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), aquela tal política em que a polícia se instala na favela em vez de entrar e sair a matar. Acontece que dois dias antes havia balas a passar na varanda do meu amigo. Sem me adiantar no complexo xadrez facções do tráfico-polícia, digamos que Chapéu-Mangueira é território de uma facção, Babilónia de outra e que as brechas do tal programa de pacificação policial estão abrir por todos os lados, até nos morros cartão-postal, como a Babilónia.

 

  1. Este cartão-postal tem até tapete vermelho. Em 1959 ganhou Palma de Ouro em Cannes e Oscar em Hollywood, porque foi aqui que se filmou “Orfeu Negro”, essa espécie de musical-naif, com banda-sonora de Jobim e Vinicius. Aliás, foi por causa do Orfeu que eles se conheceram, Jobim e Vinicius.

 

  1. Virámos à esquerda para a Babilónia. Que metáfora que nada, qualquer metáfora está aquém do Rio, mito no Rio é literal: virámos à esquerda para a Babilónia. É lá que fica a casa do meu amigo, quer dizer, lá depois de trepar, e trepar, e trepar.

 

  1. Rapidamente termina a largueza de carros, começa a estreiteza das motos, e depois a estreiteza de só nós, passando entre escadinhas, vãos, becos. Morar realmente na favela é isto, subir pelo próprio pé mil vezes ao dia, viver de certa forma como os gatos, que aliás enchem o labirinto da Babilónia. A missão deles é extinguir baratas e ratos. Os gatos da Babilónia são uma higiene. A verdade é que não vi nenhuma barata, nenhum rato, ao contrário do que acontece, digamos, quase todos os dias quando volto a casa (não ratos, mas baratas, sim).

 

  1. Morar realmente na favela é ser um gato trepador, chinelo no pé, mas mais: deixar de ver as montanhas de lixo na curva, de ouvir os rádios dos vizinhos, de temer a chuvarada na vertigem das casas. Favela é labirinto, aperto, ruído, calor, risco de desmoronamento (fora o risco de bala). Não por acaso, 800 reais, e já está caro. Porque a casa do meu amigo é bem lá no alto, e acaba de ser construída. Então, morar na favela também é isto, acabamos de trepar o último lance, e pah!, Copacabana está aos nossos pés como eu nunca a vira, aquela cimenteira de prédios lá em baixo, o mar tão escuro como o céu, uma noite à altura do Orfeu Negro.

 

  1. Dormir bem por cima de tudo isto, e todos os dias: o lixo, o som ao redor, a fina parede que separa do abismo. Vejo o meu amigo na varanda, que é só tijolo bruto, e não vejo qualquer esforço. Não é apenas coragem, nem fazer parte. É como Jobim diz que é a Bossa Nova, sendo o avesso da Bossa Nova: tudo muito natural. O meu amigo vem do asfalto, e volta ao asfalto diariamente, mas a casa dele agora é aqui, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. E em caso de enfarte? Em caso de emergência? Como chega uma ambulância? Perguntas para alguns milhões de cariocas, além do meu amigo. De resto, o amor dele enfim chegou, e que lixo, que ruído, que bala o quê, para quem sobreviveu à maior falta.

 

(Público, 14-12-2014)

E a sá-uuuuu-dádji

1. Aterrei no Galeão às 7h18 da manhã e três horas depois saí do táxi, um recorde pessoal. Ah, que saudades eu tinha de derreter no trânsito, dos ônibus desembestados, do motorista dizendo que lugar de grafiteiro é na cadeia, do patrão de motorista dizendo que o salário mínimo está é alto, e as obras que avançam para a Olimpíada, e as favelas que estão onde estavam, falando sério, deus na terra é nóis e o Rio de Janeiro continua lindo.

 

2. Do ponto de vista dos cães, nove meses fora, nada. Lá estavam a Preta e a Bela ao cimo do jardim no Cosme Velho, como se nos tivéssemos visto ontem. Nove meses para elas é o dobro do que é para nós, não?, e cada dia fora é tempo que não estivemos juntas. Mas a verdade é que volto em visita como se nove meses fora fossem outra vida, portanto, como se o dia seguinte a 7 de Março fosse 27 de Novembro. Preta e Bela estão certas, não há ex-casas, não há ex-cidades, não há ex-cães, apenas vamos e vimos entre as nossas várias vidas.

 

3. Não que eu tenha voltado a dormir no jardim do Cosme Velho que será sempre a minha casa-grande no Rio de Janeiro, sem senzala, sem arame farpado, sem câmaras, sem porteiro e vizinha da favela. Lá estavam os garotos da favela em cima das motos, uns os mesmos, outros já outros, um dos novos chamava-se Anderson e foi firme comigo: sim, eu tinha mesmo de pôr o capacete, porque desde que a polícia se instalou na favela aquele carro da polícia não sai daqui. Isto, na esquina onde os mototáxis se juntam para levarem as pessoas aos pontos mais íngremes por dois reais e meio. Um café na Zona Sul são quatro reais.

 

4. No meu ponto mais íngreme há um homem descalço. Não vou contar aqui como e por que nos cruzámos, mas quero dizer que ao contrário de mim ele sobe a ladeira descalço e desce a ladeira descalço. Ele vive descalço no Rio de Janeiro para não ficar diferente de quem vive descalço no Rio de Janeiro.

 

5. O jovem mototáxi Anderson tinha ficado de subir de novo a esse ponto mais íngreme para me trazer de volta mas não apareceu. Acontece bastante no Rio de Janeiro: uma coisa que se aprende aqui é a não esperar nada, o que, claro, é uma forma de esperar tudo. Desci a pé com as minhas sandálias, e só isso já era um luxo. Passei a curva onde sei que apareciam cadáveres noutro momento da história do Rio. Ultimamente, contam amigos cariocas, a história veio de novo, estupros, assaltos, violência em geral, parece que piorou. A amiga que me acolhe no bairro de Laranjeiras contou-me que um colega de faculdade estava sentado num bar da Lapa quando uma bala perdida entrou na cabeça dele. Acaba de acontecer, histórias de Dezembro em plena inauguração da árvore de Natal da Lagoa, quando em frente aos shoppings aparecem ursos gigantes de peluche, como se estivéssemos na América do Norte.

 

6. No Rio de Janeiro, calor demais é pé-de-chinelo, fracasso, desleixo. Nos shoppings, nos restaurantes, nos cinemas, estão aqueles tais 17 graus. Ah, que saudades eu tinha de caminhar pelo Verão carioca com um casaco e um lenço do tamanho de um lençol, porque vou entrar num cinema.

 

7. Fui ver “O Vento Lá Fora”. A declaração de interesses é que o realizador é meu amigo de casa-e-pucarinho, o Marcio Debellian, presença destas crónicas há anos. Claro que foi por causa disso que fui ver o filme três dias depois de aterrar, mas não é por causa disso que falo dele aqui. “O Vento Lá Fora” é um filme com Cleonice Berardinelli, Maria Bethânia e Fernando Pessoa, bastaria isso para falar dele aqui. Bastaria Dona Cleo, porque não apenas ela é a mestre dos estudos portugueses no Brasil como aos 98 anos, sempre elegante, está mais travessa do que nunca.

 

8. A sala estava acima de meio cheia, bem bom para um cinema na Era Download. E, sendo um filme de texto, e sendo o texto uma longa sequência de poemas, a sala interagia: ria, comovia-se, comentava. Já eu, chorava como a mais ridícula das Ofelinhas. Chorava pelo meu amigo, pela reunião daqueles três, por Dona Cleo ter este divertimento aos 98 anos, por a podermos ver assim para sempre, fazendo tropelias com Maria Bethânia, a seu lado, de branco, dando-lhe o palco. É que Maria Bethânia é adorada no Brasil, coisa de devoção, ícone, santa, além de que muitos brasileiros descobriram Fernando Pessoa com ela, ouvindo-a dizer, ouvindo-a cantar. E aqui está ela, repetindo, uma duas, três vezes “E a saudade”, enquanto vemos a cara de Dona Cleo: hummm. Porque a métrica ainda não está bem, o tempo não está bem. Bethânia repete e olha para ver se acertou. Hummm, quase, Dona Cleo exemplifica. Até que Bethânia consegue: “E a sá-uuuuu-dádji.”

 

9. O texto dito é o centro do filme, mas os bastidores da voz, do engano, da dúvida, também lá estão, e a junção dessas duas coisas parece-me pôr o texto no lugar justo. O texto é o centro mas não há idolatria. Um filme de encontro e atenção.

 

10. Se simpatia é quase amor, como diz um bloco de Carnaval, certamente atenção é quase amor.

 

11. Segunda-feira foi o lançamento do DVD na PUC, que é a universidade católica. Centenas e centenas de pessoas, uma fila interminável para autógrafos. Bethânia não se furtou, assinou ao lado de Dona Cleo um bom pedaço. Eu furtei-me, fiquei na varanda a beber um copo de vinho, à espera que a fila se diluísse. Na varanda apareceu um rapaz chamado Yago. O Rio de Janeiro é isto, estamos numa varanda que parece debruçar-se sobre a selva, porque todas as árvores são brutais, Maria Bethânia está ali à frente a assinar DVD’s com a cara de um poeta português morto, e um rapaz chamado Yago aparece, trazendo com ele todo o cruzamento possível entre Shakespeare e as favelas que nos rodeiam, porque é um bolseiro da PUC. Yago com ipsilon, porque estamos no Brasil, já viveu em todo o subúrbio imaginável, e descobriu, sim, Fernando Pessoa, com Maria Bethânia. Olhem, assim de repente, acho que é a isto que os diplomatas chamam a ponte entre Portugal e o Brasil. Pois, funciona quando é de verdade.

 

12. Depois do lançamento descemos ao Baixo Gávea para beber, comer uma farofa. Fiquei a ouvir histórias da briga que foi a última eleição, e continua, xingamentos, pancadaria, amizades que foram ao ar, no duelo final entre Aécio e Dilma. O Brasil está fracturado, diz-se. Ou seja, fractura exposta, porque a fractura já estava lá. Quando tem algo para rebentar, a todo o momento rebenta, podemos até estar sentados numa esplanada, bebendo capirinha, comendo farofa. Que saudade, farofa de banana.

 

 

(Público, 7-12-2014)

Eu estou aqui

1. É num destes dias de chuva interminável em Lisboa. Venho de Santos para o Cais do Sodré junto ao rio, passando armazéns e restaurantes fechados, aquela desolação das traseiras das coisas quando chove, e rajadas de partir guarda-chuvas do chinês. Então, ao dobrar o último edifício antes da estação de barcos, há uma família encolhida por baixo de um vão, pai, mãe, crianças, adolescentes. Estão sentados, todos de frente para mim, tão imóveis e de frente como se eu estivesse a tirar-lhes uma fotografia. Não parecem ter sido apanhados de surpresa a meio de um passeio, até porque chove há dias. No instante em que nos cruzamos penso que devem morar ali, no vão. É um instante apenas: acabo de dobrar a esquina, a irradiação dos corpos faz-me voltar a cabeça para a esquerda, os nossos olhares coincidem, o filme pára por segundos. Depois eu sou aquela que continua, com o seu guarda-chuva e a sua vida, e eles são aqueles que ficam para trás.

 

2. Na vez seguinte que caminho entre Santos e o Cais do Sodré continua a chover, e ao dobrar a esquina do último edifício antes da estação de barcos olho para a esquerda sem esperar a irradição, mas o vão está deserto. É a porta de uma garagem reparo agora. Há um carro estacionado em frente, graffiti nos muros em volta, ao lado um barco chamado ANAUM. Creio que já o vi numa fotografia que uma Ana pôs no Facebook há tempos. Mas talvez haja dois barcos ANAUM, e o da fotografia dela fosse o outro. Não me lembro de o ver no dia em que a família estava aqui. Mas que faz um barco a seco aqui? Do lado de lá, reparo, há outro vão, e um graffiti na parede branca a dizer: EU ESTOU AQUI, com uma seta a apontar para baixo. Olho para baixo: um rodilho de cobertores molhados, pedras em cima para o vento não levar. Quem está aqui de momento não está. Mas entrando pelo vão há uma grade, e do lado de lá uma espécie de armazém cheio de tábuas. Aproximo-me, vejo um homem, ele sorri, aproxima-se, eu digo bom dia, ele diz, bom dia minha menina. É como se ele viesse do passado, ou eu viesse do futuro, e nos encontrássemos numa fábula.

 

3. Pode entrar, minha menina, diz o gentil homem, abrindo a grade. Vejo então que o que parecia uma carpintaria é mais exactamente um estaleiro, dominado por um interminável casco de cedro. Que lugar é este, pergunto, é da federação portuguesa de remo, diz o homem, mas antes era o mercado do peixe. Antes, quer dizer muitos anos antes, quando ele veio para cá. Então não é de Lisboa, pergunto, e ele diz que não, que é lá de cima, de Resende, mas foi para Angola moço, ia para trabalhar na construção civil e foi dar num grande estaleiro na Ilha de Luanda, quando deu por si era dom natural, os barcos saíam-lhe das mãos, pouco tardou e era o mestre do lugar. Até que veio a Independência, e, diz ele, já não dava, já não dava, como agora também não dá, diz ele. Não entra em detalhes e eu não os peço. Acrescenta só, a gente antes andava à vontade, e depois já não dava. Então veio para Alcântara em 1975, continuou a fazer barcos. É coisa que não se acaba, enquanto houver mar.

 

4. As aparas de madeira estalam sob os pés. Não há mais ninguém no estaleiro, Mestre Fernando trabalha sozinho e muito, apesar de reformado. Quando lhe pergunto o nome pergunto também se posso contar a história dele. Ele diz, claro, minha menina, diz-me que já apareceu até na televisão, mostra-me um placard na parede, onde pinups (mais vestidas que despidas) se misturam com fotografias de barcos em vários estádios de evolução e um recorte de jornal que é um perfil de página inteira de Mestre Fernando (na secção de Desporto, mas não consigo perceber que jornal, coisa antiga, já).

 

5. Que o casco é de cedro sei porque Mestre Fernando me diz, e cedro do Brasil. Coisa para 14 metros e meio de uma ponta a outra, oito remadores mais um ao comando. Tabuinhas cortadas, moldadas, polidas, soldadas, para água nenhuma entrar, trabalho para várias máquinas e um só homem. Eu toco estes instrumentos todos, diz Mestre Fernando, abarcando o estaleiro num gesto, máquinas, tábuas, ferramentas. Isto, em reformado, que faria no auge. E sem deixar de ser homem de família, mulher e dois filhos, sim, mostra-me até fotografias antigas, desde Luanda a Alcântara. Moram numa casinha que a federação cedeu. Mas Mestre Fernando continua a vir fazer barcos para estas traseiras de Lisboa, aqui para onde ninguém está a olhar.

 

6. Por isso é que vem para aqui quem está fora do postal da fachada. Há dias passei e havia uma família ali na esquina, digo eu a Mestre Fernando. Ele espanta-se, uma família?, não dei por nada, devia ser da chuva, quem mora na esquina é um rapaz de cor com uma rapariga muito branca, e debaixo do barco também há quem durma. Além do sem-abrigo que mora aqui mesmo à porta, o tal que escreveu EU ESTOU AQUI. Porque um dia o pisaram, explica Mestre Fernando, um funcionário da câmara vinha a andar, não reparou e pisou-o. Então ele resolveu escrever na parede o aviso. Dorme ali há meses, diz Mestre Fernando, tem uma barba, trazem-lhe comida, as pessoas que tratam dos sem-abrigo. Qualquer coisa nele é decidida, porque não só escreveu a declaração na parede como decidiu que Mestre Fernando se chama Manuel. Mestre Fernando não sabe porquê.

 

7. Quando saio vejo as roupas penduradas à chuva, jeans de homem magro, aquele que à noite volta para dormir no rodilho dos cobertores molhados. É uma tristeza porque aqui chove, diz Mestre Fernando, e a cara dele diz a mesma coisa que a voz.

 

(Publico, 30-11-2014)

A Amazónia salva das águas

1. O terceiro taxista com quem falei disse que aquela chuva toda era vontade de deus, eu disse que era culpa do homem, ele rematou:

— E o que é que vamos fazer?

Mas pelo menos levou-me ao Museu de Etnologia, coisa que não fizeram os dois primeiros na praça de táxis de Belém, o primeiro porque dizia que não sabia onde era, o segundo porque dizia que claro que o primeiro sabia, não queria era ir lá por ser uma corrida curta. Lisboa devia ponderar a importação de taxistas do Rio de Janeiro como terapeutas dos taxistas de Lisboa. Além da simpatia, que é quase amor, são veteranos desta chuva.

 

2. Na véspera, o director do museu, Joaquim Pais de Brito, avisara-me que andavam a acartar baldes de água. Quando o taxista crente em deus me largou frente ao museu chovia como na véspera, e o pote colocado no átrio já estava cheio. Seguindo pelos corredores, havia de facto um balde e recipientes compridos. “São bacias de revelação fotográfica”, explicou Pais de Brito, desolado. Aproveitaram o que tinham à mão para conter a água das goteiras espalhadas pelo museu. Há 15 anos houve obras de ampliação mas a tela dos tectos tem aberto frechas onde se concentra a água, que vai corroendo o material. Em alguns pontos há já buracões no tecto. O mais grave é chover nas reservas. Só a da Amazónia, aberta ao público mediante visita guiada, até agora escapou.

 

3. Pais de Brito conta que quando António Hespanha era presidente da Comissão dos Descobrimentos, e lhe perguntou o que seria possível fazer com o Brasil no museu, surgiu a ideia de uma exposição sobre índios. Aconteceu em 2000 e chamou-se “Índios, Nós”, com a colaboração de antropólogos brasileiros e vários tribos.

— A participação dos índios foi muito importante.

Mais de 200 peças foram reunidas para o efeito, mas havia muitas mais para mostrar. Disto resultou, em 2006, uma galeria nos subterrâneos do museu dedicada à Amazónia. É por isso que Pais de Brito diz:

— Vou à frente porque aqui são as tripas.

Descendo, descendo.

 

4. Abre-se uma porta trancada. Da escuridão lampejam olhos, saias de palha, máscaras xamânicas. Quando as luzes se acendem nas vitrines é toda uma fileira encarando quem entra. Estamos perante um vestígio dos Wauja, tribo do Xingu onde o antropólogo brasileiro Aristóteles Barcelos Neto passou meses, e de onde trouxe uma colecção para o Museu de Etnologia. Basicamente, esta galeria da Amazónia cruza duas grandes colecções, a de Aristóteles entre os Wauja do Xingu, recente, e a que o viajante e etnólogo autodidacta Vítor Bandeira trouxe de vários pontos da Amazónia em 1964-65 (ver texto nas páginas da Cultura).

 

5. — A colecção de Aristóteles tem mais de 500 peças, e praticamente todos os objectos têm o nome do autor, que antes era apagado — explica Pais de Brito. — Gerou-se uma intimidade [entre o antropólogo e os membros da tribo]. E pensei logo fazer uma reserva visitável.

 

6. Neste ponto da conversa ainda mal começámos a circular entre as vitrinas, o que é um estranho passeio para quem já esteve na Amazónia, e viu muitos destes objectos em movimento nas próprias tribos. O que há de estranho é eles estarem imobilizados dentro de caixas de vidro: o nível de concentração e de imobilidade. Um museu é um lugar estranho quando conhecemos os vivos de onde os vestígios vêm. O avesso deste pensamento é que, assim, quem não pode ir à Amazónia tem algo da Amazónia. E o avesso do avesso é que talvez não seja possível ter a Amazónia fora da Amazónia.

 

7. A galeria abrange 40 tribos, “até aos Jívaros, a cair para o Perú”. Ao fundo da sala, libertas das vitrinas, estão as máscaras maiores, fabulosas, algumas ainda antes de perderem os seus vermelhos, tingimentos que o sol e o tempo apagam. Variam muito de tribo para tribo, por exemplo, as que Vítor Bandeira trouxe dos Tukano e dos Tikuna nos anos 60 parecem quase de pano, entrecasca de árvores batida ao ponto de parecer tecido, pintado com pigmentos minerais e vegetais.

 

8. Mais de 40 máscaras trazidas por Aristóteles foram feitas para um ritual induzido pelo próprio antropólogo durante a sua estadia, explica Pais de Brito.

— Havia um chefe doente e ele [Aristóteles] pagou as despesas do ritual do Apapatai.

Uma dança de cura, incluindo comida para todos. Máscara que foi dançada tem um valor extra do ponto de vista do museu.

 

9. Quando chegamos às vitrinas com plumas, sabemos que são objectos da colecção de Vítor Bandeira.

— Agora o Brasil já não deixa sair plumária, até já impede a venda nas lojas índias, em nome da protecção das espécies.

Difícil para os índios, para quem as plumas de arara, papagaio ou tucano são vitais, usam-se na cabeça, no pescoço, nas flautas, nas máscaras.

 

10. Chocalhos, cachimbos, bastões, coroas, cigarros para soprar fumo no doente, que são uma folha seca enrolada: eis o estendal de um xamã, posto em vitrina. Ou a cultura da mandioca: desenterradores, raladores, torradores, panelas de barro.

— Os Wauja são grandes oleiros.

Vi muitas panelas no Pará e no Amazonas, mas estas panelas dos Wauja do Xingu têm formas, desenhos e cores de animais, como gaviões ou onças.

— Há um investimento muito grande dos índios no acabamento das panelas. Houve uma que ficou tão perfeita que o índio disse, esta não a posso vender, é para dar. Porque dar é a forma mais importante de conseguir prestígio na troca entre aldeias. Mas as cores desaparecem quando o fogo age, o que levanta a questão da efemeridade da arte.

 

11. Nas prateleiras de cima está a bela cestaria, com desenhos pretos, ou pretos e vermelhos, ou só vermelhos, dependendo da tribo. A galeria inclui até as embalagens em que vieram peças, porque as próprias embalagens são objectos interessantes. Dando a volta, o visitante pode percorrer uma parede com fotografias que vários antropólogos tiraram, incluindo uma em que um índio vê o católogo da colecção de Vítor Bandeira levado por Aristóteles Barcelos Neto.

 

12. As plumas que Bandeira ainda coleccionou profusamente dão belos brincos, travessões, colares, uma festa de vernelhos, azuis, verdes, amarelos. Não muito longe há zarabatanas, flechas, redes de pesca, armadilhas. E por baixo, peixinhos que não são para pesca, mas se usam como zunidores, na ponta de um fio flexível, que o índio faz rodopiar.

— As mulheres não os podem ouvir, é parte do território sonoro interdito.

Interdito às mulheres, como vários outros, rituais ou bebidas.

 

13. Cada região tem o que tem. De Manaus vieram uns animais em látex, antas, peixes-boi, pirarucu, aproveitando a borracha das árvores. Como de Marajó, a ilha da grande cerâmica amazónica, vieram urnas funerárias, o ponto alto arqueológico da galeria. É uma questão em aberto entre Portugal e Brasil, o estatuto destas nove urnas, provavelmente do século XVI. Uma solução possível é passarem a ser depósito de longa duração no aqui, o que significaria que o Brasil assumiria a propriedade.

 

14. De volta ao piso térreo, e às águas. A grande sala da exposição permanente também não foi poupada: a um canto, já delimitado por uma corda, como nos crimes, o chão de tacos de madeira rebentou em vários pontos, do excesso de água por baixo.

 

Público, 23 de Novembro de 2014

Aquilo que nos deixa adormecer a cada noite

1. Animais: sento-me em frente ao mar de Caxias e logo o cão da mesa ao lado vem agitar a cauda, investigar-me. A dona diz, Mel, deixa a senhora, mas eu faço festas ao Mel e passamos bem. Converti-me aos cães, tudo é possível. Isso aconteceu no Rio de Janeiro, com a Bela, com a Preta, as duas cadelas que já moravam no jardim onde aluguei parte de uma casa. E nunca mais deixou de acontecer, continuou nos dois cães que já moravam no quintal onde aluguei parte de uma casa em Montemor-o-Novo até ao fim de Outubro. Agora cruzo-me com os cães na rua como se também eu estivesse dentro daquele segredo que liga as pessoas aos animais.

 

(2. Sem esquecer o segredo que liga as pessoas às pessoas. É possível estar vivo sem outras pessoas? É possível estar vivo sem amar? Porque são precisos pelo menos dois, ainda que o amor seja unívoco. E para quem deixou de amar univocamente, como viver acreditando que nunca mais amará? Excluindo quem se entrega a deuses, é possível viver achando que não se amará mais? E se sim, então para quê?)

 

3. Cuidar dos vivos. Por exemplo, dos amigos. Por exemplo das casas. A semana passada falei de Gaza, hoje podia falar dos Açores. Porque tenho um livro de fotografias dos Açores na escada do meu quarto, e porque tenho dentro do meu mail um texto que a micaelense Renata Correia Botelho me enviou há (muitas) semanas e eu ainda não li. Não devia fazer mais nada antes de ler esse texto. Portanto, vou interromper aqui a crónica e ler este texto, que sei que tem a ver com a Achadinha., um lugar que a Renata me mostrou.

 

4. Sim, o texto começa na Achadinha, São Miguel, Açores, e é sobre animais; “cães, gatos, cavalos, burros, passarinhos de toda a espécie, tartarugas, grilos, caracóis, lesmas, borboletas, bichinhos de conta”; “a espantosa grandeza” “com que passeiam sobre o inferno”; gostar tanto deles que “talvez isso seja aquilo que ainda [nos] deixa adormecer em cada noite”. Diz a Renata: “Aos animais devemos essa luz solitária, quase música, quase silêncio, a que chamamos deus. Não o deus da Bíblia, que não sei onde repousa, mas aquele que cuida da alvorada. Porque eles o conhecem, porque com ele privam quando a primeira luz desponta.” Este texto saiu em Maio, no número cinco de uma revista chamada “Cão Celeste”.

 

5. O nome da “Cão Celeste” (dirigida pelos poetas Manuel de Freitas e Inês Dias, com grafismo de Luís Henriques) é um tributo a Diógenes, o Cínico, filósofo nascido 412 anos antes de Cristo, sendo que cínico é uma palavra que vem da palavra cão. As lendas que chegaram até nós asseguram que Diógenes vivia como um mendigo, procurando com uma lanterna um homem verdadeiro no meio de um mundo corrupto, tentando acima de tudo manter-se tão livre que nada esperassse nem precisasse de ninguém. Uma das lendas que sobrevive (por exemplo na enciclopédia romana online no site da Universidade de Chicago) diz que uma vez Diógenes estava a apanhar sol quando apareceu Alexandre, o Grande, que lhe terá perguntado o que podia fazer por ele. Soberano, Diógenes respondeu, não me tires o sol. Alexandre terá passado a dizer que se não fosse Alexandre queria ser Diógenes. Diógenes acreditava ser um cidadão do cosmos, não de um estado, e vivia sem nada, conta-se que dentro de um barril. O cosmos era o seu barril, num sentido amplo. Eis o cão celeste.

 

6. O livro que tenho na escada do meu quarto e é a outra razão para pensar nos Açores foi fotografado e auto-editado pela terceirense Sandra Rocha. Chama-se Anticyclone”. Vou interromper para o ver em papel, depois de o ter visto antes de haver livro, em computador.

 

7. Não há cães no “Anticyclone”. Mas há bichos: um tigre de peluche, um pássaro-móbil, patos de verdade, um bambi contorcionista. Isto tudo acontece na Ilha Terceira, onde a Sandra cresceu antes de ir pelo mundo (agora mora em Paris). Este livro é uma volta a casa, irmã, primas, família, plantas, o mar, o mar. Aquilo que a deixa adormecer a cada noite.

 

8. Fomos juntas a Torres Vedras ver a exposição do Pedro Letria sobre Gaza de que falei há uma semana (já terminou, mas estou a falar dela outra vez a ver se brota um cogumelo, e ela prossegue algures). Na semana passada pensei que ia citar a frase do Pedro sobre cães em Gaza. Ele escreve na exposição: não vi um só cão em Gaza. Seria um cão preso, um cão em Gaza, ainda que celeste. Um cão celeste preso.

 

9. Sempre tive tão timorata relação com animais que uma vez em São Jorge, Açores, desisti de descer uma fajã porque havia vacas no caminho. Receei que me abalroassem, entre um lado e outro do abismo. Eu achava que ia este ano aos Açores, mas já não vou a tempo. Em 2015 irei aos Açores e passarei no meio das vacas. Quando se perde um medo, isso é irreversível, como perder o medo de dormir sozinha numa grande casa antiga. É onde estou acampada, numa casa que um Croft construiu em 1893, num quarto com uma escada em frente ao mar, onde, quando acordo muito cedo, começo por ler uma daquelas crónicas que desde há meses Frederico Lourenço posta no Facebook, e me fazem acreditar nos homens honestos que Diógenes procurava, com pormenores que um helenista como o Frederico poderia acrescentar longamente aqui, e eu não saberia nem encontrar numa enciclopédia online. Há-de ser um grande livro, esse que ele vier a fazer, espécie de autobiografia em crónica. Será a soberania dos pré-estóicos sobre a grande praça do Facebook, que aliás tem a cara de cada um. No Facebook da Renata, por exemplo, estamos sempre rodeados de animais, como Diógenes dentro do barril, rodeado por cães.

 

 

 

(Público, 16-11-2014)

Cut Short

1. Entre fechar um livro e mudar do Alentejo estava difícil uma ida conjunta a Torres Vedras para ver a exposição que o Pedro Letria lá montara. Ele foi propondo combinações de gente e transportes até que in extremis houve fumo branco. Literalmente o sábado em que a exposição acabava, 1 de Novembro. Juntámo-nos em Lisboa, no Jardim Constantino, onde eu não ia há séculos. Pensei no Manuel Hermínio Monteiro a caminho da Assírio & Alvim, onde o Pedro também publicou livros. Foi, aliás, assim que nos conhecemos, entrevistei-o por causa de um livro de fotografia, creio que o Mármore. E foi através dele que conheci outros fotógrafos do colectivo Kameraphoto, hoje amigos de muito lastro. A Kamera já não existe como tal, mas os amigos continuam, dos dois lados do Atlântico. O Jordi Burch tinha voltado há dias para São Paulo, e da esplanada do jardim fizemos um skype para Buenos Aires, onde está o João Pina. Quando arrancámos pela A8, o sol dobrava a tarde, dois carros de gente. Naquele em que eu estava falou-se da festa mexicana dos mortos, porque era véspera disso. De resto, eu não sabia nada de ao que ia, lá em Torres.

 

2. O Pedro Letria cresceu em Inglaterra e até hoje faz jus a essa discrição: queria que eu visse a exposição, especialmente esta, mas não explicara porquê, do que se tratava.

 

3. Se alguma vez estive no centro histórico de Torres Vedras, não me lembro daquela luz, daquele castelo, daquela Rua dos Cavaleiros da Espora Dourada, por onde metemos a pé até à galeria da Cooperativa de Comunicação e Cultura (CCC). E foi só ao passar a porta que li, no texto introdutório: “Cut Short é uma exposição que reúne fotografias e textos produzidos e coleccionados por Pedro Letria por altura de uma viagem à Faixa de Gaza em 2009.”

 

4. Há muitos caminhos para casa, muitas casas na cabeça, acreditando que avançamos pela soma e não pela redução. É uma velha crença antropófaga, eu acredito. Gaza, via Torres Vedras.

 

5. O texto continuava: “Tendo chegado ao território palestiniano em Julho, seis meses depois do fim da operação militar israelita Cast Lead, Letria foi recebido pela agência noticiosa Ramattan, que lhe facultou a sua agenda diária e uma mesa de trabalho na redacção. Ao longo da semana seguinte, cobriu os acontecimentos que mereceram a atenção dos media locais, fotografando, entrevistando e escrevendo as suas impressões e reflexões num pequeno caderno de capa negra.”

 

6. Estive em Israel e em Gaza durante a Operação Cast Lead, enquanto repórter, nesse começo de 2009. Quando voltei, o Pedro estava a preparar a sua viagem. Conversámos: pessoas, lugares. E agora a sequência disso estava ali na parede, uma conversa retomada tanto tempo depois, intacta, com o Pedro a mostrar como encontrara tudo.

 

7. O chocalhar dos carros de burros. As cadeiras de palha dos anos 70. As mesas de escritório sem um papel. Os lenços das raparigas. Os abraços dos rapazes. As bandeirinhas no tecto. Os cobertores felpudos. O tédio, o tédio. O brilho do mar, sempre ali, para quem nunca sai dali.

 

8. A última peça da exposição chama-se Entry Instructions for Gaza, um texto que aparentemente começa como um texto oficial. Fiquei muito tempo frente a ela, mais ainda do que em todas as outras peças anteriores. Porque Cut Short tem 27 fotografias em pequeno formato, com dois níveis de textos por baixo, então demora mais a ler do que a ver. De certa forma, contraria o princípio de uma exposição, e do que se tornou banal para a retina, imagem após imagem após imagem, tudo dado, pronto, fácil, rápido, de encher o olho. De certa forma, Cut Short é o contrário de cutting short. Nem dado, nem pronto, nem fácil nem rápido, nem de encher o olho.

 

9. Gaza é uma história tão velha, e tão quotidiana, que o primeiro problema de quem lá chega depois de tudo o que já foi reportado é essa exaustão. O Pedro mostra isso: a exaustão, e como o jornalismo pode contribuir para perpetuar a exaustão, fotografia incluída. Nada no trabalho dele é o resultado directo dos dias em que seguiu a agenda da agência Ramattan. As fotografias parecem estar sempre um passo atrás, à frente ou ao lado do que os outros queriam mostrar, ou esperam ver (como na sombra da câmara do fotógrafo nas costas do primeiro-ministro Ismail Haniyeh). Tudo o que ele mostra é a partir da própria cabeça, e o que o Cut Short diz é que não haveria outra possibilidade. Ou seja, o Pedro encontrou a sua forma de lidar com a impossibilidade de Gaza: uma imagem e dois níveis de texto, um com o que o autor escreveu então no seu caderno, outro com o que escreveu depois. Ao todo, três camadas em que cada uma revela a contingência da outra: a imagem por se reduzir ao enquadramento, o texto de então por estar próximo, o texto posterior por estar distante. Cabe a quem observa, lendo, seguir o seu próprio caminho a partir dessa confluência fértil. Em vez de um beco sem saída, ou de um desfecho, uma bifurcação. Então, sentei-me muitas vezes nesta esplanada, passei muitos dias neste hospital, estive com estes rapazes em concertos de rap, mas esta história de Gaza aparece-me como inédita e única, nos seus limites, cruzamentos e propagações.

 

10. Entre a galeria e o terraço, a cooperativa tem salas de residência, estúdios e laboratório, todo um projecto. Quando chegámos ao terraço, anoitecia sobre o castelo, a lua foi ficando mais nítida e Inês Mourão, a directora, preparou gins com alecrim e pimentas para toda a gente. Não bebo gin, mas precisava de beber qualquer coisa depois de Cut Short. De resto, não bebo gin mas já trafiquei gin para dentro de Gaza, nas barbas do Hamas.

 

11. Em 1972, palestinianos atacaram a aldeia olímpica em Munique, mataram dois atletas israelitas e tomaram mais nove como reféns, que também acabariam por morrer. Nixon condenou o acto terrorista enquanto os seus próprios soldados andavam a bombardear escolas no Vietname. Adelino Gomes, que então trabalhava no programa “Página 1” da Rádio Renascença, leu em directo um comentário sobre isso, falando tanto de Munique como do Vietname. Tinha conseguido escapar à censura, atrasando o texto. No dia seguinte estava impedido de trabalhar, teve de ir arranjar emprego na Alemanha. Grandes repórteres mudaram assim o mundo, um pouco, milimetricamente. Talvez isso ainda seja possível, torço para que sim. Cut Short é simplesmente outra coisa, que pode ser revelada por aí fora sem prazo nem pressa, e podia começar por descer a Lisboa, ou subir ao Porto. Tive, e ainda tenho, dificuldade para falar sobre ela, também por desde Junho, que foi o último remake da Operação Cast Lead, ter pensado tanto em voltar a Gaza, mas não para uma reportagem.

 

(Público, 9-11-2014)

O fim do mundo na próxima curva

1. Ao fim de sete meses sem mar, tenho o mar do outro lado da rua. Esta casa já existia em 1961, portanto gosto de imaginar que o blindado da Fuga de Caxias passou mesmo por baixo da minha janela, com os GNR a correrem atrás dos comunistas, igual a um filme do Chaplin. Escrevo a uma caminhada da prisão, coisa de meter por um atalho aqui nas traseiras, e suponho que a praia, então, não teria gente, porque a fuga foi em Dezembro, e os glaciares eram um pouco mais firmes. Agora, por exemplo, vamos entrar em Novembro, e ainda dá para um mergulho. Está claro que o mundo vai acabar na próxima curva, mais ou menos como o restaurante Mónaco, que naquele momento de 1961 estaria a preparar os almoços. Porque ainda não eram dez da manhã em Caxias quando os clandestinos do PCP derrubaram o portão, a bordo do blindado.

 

2. Talvez porque acabo de ser penhorada pela Segurança Social ao fim de vinte e tal anos de contribuições mensais, talvez porque isso é apenas um byte mais na informatização geral do cidadão enquanto resíduo sólido, nunca matutei tanto na clandestinidade. Então, entre duas estações de metro, numa daquelas carruagens cheias dos turistas que vão salvar Portugal, leio que o director do Instituto de Ciências Sociais decidiu suspender a impressão, e destruir o que já estava impresso, da última “Análise Social” por causa de um artigo que reproduzia graffiti “ofensivos”, leia-se, satíricos em relação ao poder político e económico. A “Análise Social” é uma revista académica mais velha do que eu, e quase contemporânea da fuga de Caxias. Acho que foi mais ou menos por essa altura que o Zé se pirou do Alentejo à boleia. Tinha 16 anos.

 

3. O Zé é o meu amigo agricultor biológico, de quem comecei a falar há sete meses, quando me mudei para o Alentejo. Fomos vizinhos em Montemor-o-Novo, entre fim de Março e fim de Outubro. Na véspera de encaixotar as minhas coisas, subimos para jantar na ermida, o único lugar de Montemor de onde se avista a colina do Castelo, por ser a colina oposta. As velhas oliveiras a meio do caminho estavam esplêndidas, mas o Zé confirmou que este ano não se aproveita uma azeitona para azeite, nem daquelas cortadas, para comer com oregãos, porque o Verão que veio agora não veio no Verão. Mas como já tínhamos tido toda uma conversa sobre o assunto, não nos estendemos nisso. O nosso jantar de despedida foi mais sobre guerrilha.

 

4. Aos 16 anos, o Zé correu a Europa à boleia. Depois, já universitário, e para escapar à recruta colonial, acampou em Genebra, a estudar sociologia, cada vez mais metido nas lutas de esquerda, ao lado dos imigrantes. Anos entre quartos de namoradas e casas colectivas, combates de rua com a polícia suíça e noitadas a ler marxismo, incluindo conversas com Antonio Negri, que além de marxista é um espinozista. Espinoza continua a ser leitura sazonal do Zé, a par de Agamben, Deleuze e o próprio Antonio Negri, que o Zé lê em tradução francesa ou directamente do italiano, herança desses sete anos de leitura e combate na Suíça.

 

5. Na noite anterior ao nosso jantar, eu fora a Évora ler um texto. José Alberto Ferreira, que é professor de teatro na universidade, organiza uma sessão mensal chamada Cruzamentos, em que convida alguém a trazer um texto para ser lido em voz alta e depois debatido, numa igreja junto ao centro histórico. Levei “A Inconstância da Alma Selvagem”, do antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, e li uma parte do ensaio “O mármore e a murta”, título inspirado num célebre sermão do Padre António Vieira em que ele diz que há povos que são mais como as estátuas de mármore e outros que são mais como as estátuas de murta, no que respeita à resistência e constância na fé. Por exemplo, europeus não católicos eram resistentes à conversão mas depois estátuas de mármore, que já não requeriam mais jardinagem espiritual, tal a solidez da fé, uma vez adquirida. Já os indígenas brasileiros, não resistiam à conversão, pareciam dóceis, mas nada neles se mantinha, cedo saíam braços extra da estátua, como nas estátuas de murta, que o jardineiro tem de estar sempre a podar. Em suma, os índios eram uma incerteza sem fim para os laboriosos jesuítas com que o império português contou na colonização: inconstantes almas selvagens. E esta leitura deu mais de uma hora de conversa, incluindo o fim do mundo que Viveiros de Castro vê realmente na próxima curva, ele que se tornou um guerrilheiro internáutico, combatendo inimigo de índio, como ele diz, e portanto incapaz de votar em inimigo de índio, como ele diz. Era isto na véspera das eleições no Brasil. Portanto, discutimos o Brasil e o apocalipse segundo Viveiros de Castro, sobre o qual teríamos muito aprender com os índios, porque eles trazem o apocalipse incrustado geneticamente há 500 anos.

 

6. A leitura na igreja foi quarta, o jantar com o Zé na quinta, sexta encaixotei a toca, e sábado fui com o ucraniano Alexander para Lisboa. Alexander acha que Portugal é o país mais lindo da Europa, de tudo o que ele viu, entre a Ucrânia e Lisboa. É aqui que o seu filho de um ano vai crescer, falando português e ucraniano, e essa é a melhor razão para não dar razão a Viveiros de Castro, ou seja, para que o mundo não acabe já na próxima curva: o filho do Alexander, e o meu sobrinho de sete meses, que agora é meu vizinho na casa em frente ao mar onde estou acampada por umas semanas. Um dia destes até já lhe posso contar da fuga de Caxias, prepará-lo para o que aí vem.

 

(Público 2-11-2014)

A resistência em Marrocos vista de Paris

1. Perdi por um triz a exposição “Marrocos Medieval”  no Louvre, porque o meu voo Paris-Lisboa era um dia antes da abertura. Mas consegui ver, a caminho do aeroporto, “Marrocos Contemporâneo”  no Instituto do Mundo Árabe, inaugurada na véspera. Ambas resultam da colaboração entre franceses e marroquinos, e articulam-se, em contraponto. Mega-presença marroquina na “rentrée” do ex-colonizador.

 

2. Se traçarmos uma linha de Rabat ao Cairo, Marrocos é o único país do Norte de África que se manteve em relativo sossego desde o início da chamada Primavera Árabe. Digo relativo porque o meu ponto de vsita é exterior. Não vou a Marrocos desde 2007.

 

3. Na abertura de “Marrocos Contemporâneo”, Jack Lang — que em França foi ministro da Cultura ao longo dos anos 80, depois ministro da Educação ao longo dos anos 90, e actualmente preside ao Instituto do Mundo Árabe — assegurou que Mohammed VI apoiara os organizadores, dando-lhes “a mais total liberdade”. Mais, sublinhou: “Quero dizer e repetir a que ponto o Rei de Marrocos, homem esclarecido, apaixonado, profundamente erudito, cultivado, traz ao seu país uma visão, um olhar pleno de esperança neste momento em que os confrontos, as violências, aqui e lá, por vezes levam a duvidar do ser humano.” Demasiado enfático para elogio de circunstância, pareceu-me, ainda mais vindo de alguém como Lang. Fui conferir com um amigo académico que trabalha com Marrocos há anos, e ele falou-me de outros projectos a que o rei também dera todo o apoio, sem interferências. Mohammed VI não é Hassan II, distinguiu, respira-se uma certa liberdade em Marrocos. Com três excepções: não se diz mal do rei, e não se fala de Ceuta nem do Saara Ocidental, territórios em disputa.

 

4. Bate certo com o que está exposto nos três pisos do Instituto do Mundo Árabe, entre pintura, escultura, vídeo, fotografia e instalação de 80 artistas contemporâneos marroquinos: não há sinais de rei, Ceuta ou Saara Ocidental. Fora isso, só em Beirute vi arte contemporânea de um país muçulmano tão contundente em relação a sexualidade e questões de género, e nunca vi nada tão ousado quanto a religião. Depois, estão cá as revoltas árabes, estão cá as mortes no Mediterrâneo, e o ex-colonizador não escapa, estraçalhado de forma simbólica.

 

5. O percurso é descendente, o que corresponde também a uma descida do mais pacífico para o mais polémico, já nas caves do Instituto. Começa-se pelo segundo piso, com uma panorâmica que cruza cerâmica e tapetes, vídeo e fotografia, maquetes e instalações. A pulsão dominante parece ser a de libertação, a arte como um espaço alternativo, saltando no espaço, ampliando o real. Isso está nas montagens fotográficas de Hicham Benohoud, que subvertem o interior de uma sala de aula, pondo alunos a flutuar, entortando mesas, separando partes de corpos, como se um pedaço da cena tivesse decidido autonomizar-se no seu sonho. E está nas montagens fotográficas de Merji, que enchem de girassóis a icónica praça Jamma el Fna, em Marraquexe, ou incrustam um par de dinossauros na paisagem. Uma sala interior expõe, em montras, as peças de de Khalil El Gherib como “o artista que não vende”. Gherib, que vive em Tânger, não assina nem data as peças, e não as comercializa, ou seja, não participa do mercado. Dentro das montras, como vestígios arqueológicos, as suas peças parecem, de facto, quase fósseis, lâminas de pedras, pedra misturada com tecido, pedra com inscrições. Voltando à sala grande, outra montra desfaz um dos símbolos quotidianos da vida nesta parte do mundo, o bule, de café, de chá, que aqui aparece em versões de cerâmica cubista, quebrando totalmente a forma até à inutilidade. E em frente está a bela série de André Elbaz que estraçalha esse símbolo da cultura do colonizador que é Madame Bovary. Elbaz meteu cópias do romance de Flaubert numa trituradora. Com as tirinhas constrói telas que são uma espécie de argamassa mais ou menos em relevo, em que ainda distinguimos claramente palavras (“Madame Bovary à letra”), ou põe-nas dentro de uma gaiola (“Será preciso engaiolar Madame Bovary?”). Seria como um moçambicano meter numa gaiola “Os Maias”.

 

6. A descida para o piso inferior faz-se através de uma instalação de Faouzi Laatiris, com várias peças políticas. A primeira é uma espécie de pórtico com mosaicos de arte islâmica atravessados por uma daquelas fitas amarelas da polícia, onde se lê em inglês: “Police line do not cross crime scene”. Entrando, há letras prateadas na parede, e as mesmas letras projectadas por cima: “Resistir é criar”.

 

7. Os visitantes continuam o percurso atravessando zonas de serviço onde há tapetes pendurados, o que reforça a ideia de a exposição ter tomado conta do Instituto. Ao fundo da escada, uma pirâmide branca convida a descalçar para entrar, como numa mesquita, e lá dentro está talvez a peça mais hipnótica da exposição, centenas de candelabros no tecto, multiplicadas ao infinito por espelhos, como um céu nocturno. A ideia da mesquita prossegue noutra instalação de luz, em que os crentes aparecem como uma massa de blocos brancos, todos iguais. Numa instalação vídeo de Leila Alaoui, três painéis alternam imagens do Mediterrâneo e rostos de imigrantes subsarianos, enquanto se ouvem as histórias de quem tentou atravessar para a Europa.

 

8. Mais uma descida e a exposição desemboca no subterrâneo do Instituto, cujos pilares lembram, aliás, a lógica de uma mesquita como a de Córdova. Aqui estão algumas peças de designers de moda, e depois, ao longo de dois salões, as propostas eventualmente mais controversas. Na primeira, uma série fotográfica mostra manchetes de tablóides sobre bombas sucidas entre sacos de lixo ou um homem com uma venda nos olhos que é a bandeira dos Estados Unidos. Noutra série, uma grávida exibe o barrigão nu, lingerie de couro preta, botas de salto alto, numa sequência de poses. Há uma fotografia em que o corpo de uma mulher sai de um colchão esventrado, e o que vemos são apenas as suas pernas nuas no ar. Um vídeo mostra uma jovem mulher coberta de negro da cabeça aos joelhos, e depois de pernas nuas e saltos altos, andando pelas ruas de Marraquexe. Ao lado uma citação de Rilke: “As obras de arte nascem sempre do que desafia o perigo, do que vai até ao fim de uma experiência, até ao ponto que nenhum humano pode passar. Quanto mais longe vamos, mais própria e pessoal, mais única se torna uma vida.”

 

9. Então na última sala está o vídeo de Mehdi-Georges Lahlou que se chama “Andando 30 km de saltos altos entre dois espaços artísticos”: o artista, de collants negros até à cintura, e sapatos vermelhos de salto alto vermelho, penosamente caminhando entre os carros. Como disrupção do imaginário macho muçulmano, nunca vi semelhante. O mesmo artista tem uma instalação na sala em que a cabeça de um homem equilibra o cubo negro que é o edifício-símbolo da peregrinação da Meca, e portanto intocável para milhões de muçulmanos em todo o mundo: a Kaaba, ponto mais sagrado do Islão. Outro artista, Said Afifi, também desafia o cubo num díptico de foto-montagens intitulado “A quadratura do círculo”: na primeira imagem, em vez de um cubo há uma esfera gigante no meio dos peregrinos; na segunda, a esfera está dentro de um quadrado. E há um vídeo em que jovens de calças e lingerie fazem a barba a tapetes de mesquita, literalmente com um barbeador, pacientemente indo e vindo, sentados no chão. Finalmente, na instalação de Batoul S’himi chamada “Mundo árabe sob pressão”, aparecem panelas de pressão rebentadas, machados com recortes no metal e instrumentos de cozinha que são espelhos.

 

(Público, 26-10-2014)