Herberto volta a Minas

A última vez que estive aqui, era Inverno como agora, no Hemisfério Sul, Herberto Helder estava vivo e acabava de publicar Servidões. Li-o nesta varanda voltada para uma montanha chamada Pedra do Papagaio. Por isso, ao lugar cá em baixo as pessoas chamam A Pedra. Não é sequer aldeia: uma casa aqui, outra ali. Da […]

O vestido pós-11-de Setembro

Quatorze anos depois, voltei a pôr o meu primeiro vestido pós-11 de Setembro no aeroporto de Istambul, entre vir de Lisboa e voar para o Iraque. Isso aconteceu na quarta-feira, e vesti-o todos os dias até hoje, sábado. Aliás, de ontem para hoje nem cheguei a tirá-lo, dormi com ele no chão de uma sala […]

Tome espaço do estado da justiça

Eu morava no Brasil, impossível esquecer, quando o então ministro da Justiça disse: “Do fundo do meu coração, se fosse para cumprir muitos anos em alguma prisão nossa, preferia morrer.” Porque, explicou, as prisões no Brasil são “escolas do crime”, onde quem entra “como pequeno delinquente muitas vezes sai como membro de uma organização criminosa […]

O amor ocupa a morte

Escrevo à mão porque tenho frio, vim para a varanda onde o sol queima, e estão os livros de Herberto: um gato, uma serra eléctrica, nêsperas maduras, os morangos que trouxe da rua esta manhã. Estava na rua quando me ligaram, ia a caminho do correio com sacos cheios de lixo, plástico, papel, rodara tudo […]

Um pesadelo para acordar

Enfim bons motivos para celebrar as eleições israelitas: acabou o blablabla sobre o processo de paz, o futuro estado palestiniano, o empenho do governo de Israel, a única democracia do Médio Oriente. A vitória de Netanyahu é o fim da sonsice após décadas de banho-maria. Ele disse, finalmente, que é contra um estado palestiniano; apelou […]

Estar lá

Mossul, Ninive, Nimrud, Hatra: enquanto os buldozers do ISIS (o auto-proclamado “Estado Islâmico”) avançavam mediaticamente para novos níveis de horror, André Tomé continuou a preparar a sua viagem. Vai partir a 1 de Maio para o Norte do Iraque por causa de uma tabuinha de argila. A tabuinha tem mais de cinco mil anos, o […]

O galo da minha aldeia

Acabo de me mudar para uma aldeia onde ouço o cantar do galo ao longo de todo o dia, ora longe, ora perto, está visto que são vários. Também há um sino, talvez para ocasiões especiais porque só o ouvi uma vez, embora a igreja fique já aqui atrás. A escadaria que lá dentro há-de […]

O malabarista do sinal vermelho

Foi Luís Fernando Veríssimo quem uma vez falou no malabarista do sinal vermelho a propósito de quem escreve. Estávamos numa FLIP, a festa literária brasileira que atrai milhares de pessoas a Paraty, cabiam-lhe as honras da abertura, e o que ele vinha dizer à plateia, com a gentileza dos verdadeiros tímidos, era que o malabarismo […]

Jugo-nostalgia

O voo Lisboa-Belgrado acabou na véspera de eu deixar Belgrado. Parece que havia um trânsito forte de Belgrado para Lisboa mas não o inverso. É verdade que quando alguém em Belgrado pergunta de onde somos, ah, Lisboa, abre-se uma luz. Belgrado tende a achar-se uma cidade deprimente, o contrário de Lisboa (na imaginação de Belgrado). […]

Paris-Srebrenica

Há um ruído extremo a que só responde a mudez. Seria como falar num funeral onde gente que nunca conviveu com o morto disputa o luto com gente que atira mortos para debaixo do tapete. O horror do que acaba de acontecer, do que acontece em contínuo e do que se anuncia confluem num silêncio. […]