Estar lá

  1. Mossul, Ninive, Nimrud, Hatra: enquanto os buldozers do ISIS (o auto-proclamado “Estado Islâmico”) avançavam mediaticamente para novos níveis de horror, André Tomé continuou a preparar a sua viagem. Vai partir a 1 de Maio para o Norte do Iraque por causa de uma tabuinha de argila. A tabuinha tem mais de cinco mil anos, o ISIS estará a cem quilómetros, de alguma forma fazem parte da mesma história por contar. E não vale a pena perguntar a André se não tem medo. Sem medo seria estúpido.

 

  1. Conheci André há umas semanas no bar de um amigo onde outro amigo decidira acabar a noite depois de lançar um livro pelo menos tão blasfemo como aquele que Slavoj Žižek lançou há pouco (O Islão é Charlie? Considerações Blasfemas Sobre o Islão e a Modernidade). Foi um daqueles encontros abre-alas. Porque ali, no meio dos copos, André contou-me como começara a escavar na Síria antes de a guerra o empurrar para o Iraque, de onde o ISIS o veio a empurrar, mas não definitivamente: planeava voltar em Maio e eu seria bem vinda.

 

  1. Em 2008, a Síria estava tão quieta que o regime tinha agentes suficientes para vigiarem até repórteres de países insignificantes que resolviam ir passar férias à Síria, como me veio a acontecer. Foi nesse ano que André, então um finalista da Universidade de Coimbra com 22 anos, se estreou a escavar na região. Em 2009 conseguiu financiamento para um projecto mais ambicioso, e voltou à Síria todos os anos até 2011, com a guerra civil já em curso. Em 2012, a violência aproximou-se tanto que a missão foi cancelada. André mudou-se temporariamente para a Holanda, onde fez uma especialização, mas não desistiu da Mesopotâmia. O seu foco era o quarto milénio antes da era comum, quando a escrita começou a ser desenvolvida. Ainda em 2012, decidiu ir ao Curdistão iraquiano com um colega americano. Bem recebidos pelas autoridades locais, visitaram mais de trinta sítios possíveis até acharem vestígios do quarto milénio num pequeno monte, Tel Kani Shaie, junto à aldeia de Bazian, entre as cidades de Suleimania e Kirkuk.

 

  1. O monte deu nome à missão (https://kanishaie.com), uma parceria da Universidade de Coimbra com o Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Património e a Universidade de Pensilvânia, sob a direcção de André Tomé e Ricardo Cabral.

 

  1. Calhou a Ricardo topar com a tabuinha de argila numa manhã de Setembro de 2013. André viu o colega aproximar-se a correr, debaixo de um sol ardente, com aquilo nas mãos. Pela bela impressão cilíndrica de um barco, pessoas a bordo e veados perceberam logo que a peça era importante, mas não toda a extensão do que ali estava, ainda sujo. Porque havia um furinho, não de um lado ao outro, como para um colar, mas como uma marca numérica, muito precoce para aquela época, naquela região.

 

  1. O que então se passava nas grandes cidades a sul, por exemplo a mítica Uruk, era que os mercadores usavam estas tabuinhas como facturas de transacções. A impressão cilíndrica era a assinatura do mercador e o furinho circular podia equivaler a dez unidades, que podem ter sido dez animais, eventualmente vindos de longe. As hipóteses que aqui se abrem têm fascinantes correspondências com o presente. Por um lado, a tabuinha é o vestígio de um sistema que exigia factura, tão burocrático como o estado português, compara André. Por outro lado, será a indicação de que este monte era uma colónia de cidades que já possuíam uma sofisticação burocrática, e, como grandes poderes contemporâneos, conquistavam território para explorar recursos. Possivelmente, Uruk. Mas só analisando a argila se conseguirá saber de onde ela vem, e isso faz parte das tarefas da próxima expedição, em Maio. Os arqueólogos vão e vêm mas a tabuinha fica no Museu de Suleimania.

 

  1. Entre o vídeo dos carniceiros do ISIS a escavacarem o Museu de Mossul e anúncios de destruição em Hatra e Nimrud fui pensando em André, se manteria os planos de Maio. Estive em todos estes lugares em Maio de 2003, o mês que abriu a Caixa de Pandora iraquiana, quando Bush júnior achou que punir Saddam Hussein era um bom argumento oficial para invadir o Iraque: a muralha de Ninive, os pórticos de Nimrud, os templos greco-romanos de Hatra desertos, o Zigurate de Ur antes da ocupação americana. Fora o Museu de Mossul, onde parte era réplica de gesso mas muito era original, vimos pouco do que o ISIS agora fez desaparecer — ou não. O que aconteceu ao certo em Hatra, cidade arqueológica imensa? Por que não há imagens de Hatra se a propaganda do ISIS passa por chocar o mundo com imagens do impensável ainda ontem?

 

  1. Sim, é a primeira palavra que André diz quando lhe ligo esta quinta-feira a perguntar se mantém os planos. Sim, falou com o director de Antiguidades em Suleimania, eles estão prontos para o receber, o bilhete está comprado, ida a 1 de Maio, regresso a 15 de Junho. Neste momento, o que o preocupa é a casa onde a missão tem estado instalada, por ser isolada e muito perto da estrada, muito visível. Não se trata de ignorar os riscos, mas de lidar com eles um a um. “Ontem tive pesadelos pela primeira vez com isto por ter estado a falar com gente que falava nos riscos. Não quero passar a ideia de que somos corajosos. Se o risco for perceptível não arrisco, isto não é o Indiana Jones, se for preciso cancelamos a missão.”

 

  1. Cada missão cancelada é menos que se vai saber. “O ISIS quer que as pessoas se choquem, faz parte do espectáculo, da provocação. Eles querem uma reacção.” Cancelamentos e debandadas são reacções que favorecem a propaganda: o vídeo do Museu de Mossul, por exemplo, foi parcialmente gravado no início de Janeiro, mas apareceu agora, como parte de uma sequência imparável de avanços do ISIS, diz André, tal como o ISIS tem feito dinheiro com antiguidades mas essa não é a maior fonte de rendimentos deles, nem eles são os únicos saqueadores. E no meio deste xadrez impossível de distinguir à distância há muitas agendas: a dos curdos do Norte que não querem perder a hipótese de um estado; a dos iranianos que apoiam o governo pró-xiita em Bagdad; a dos americanos que, doze anos de caos depois, dizem que “largar um tapete de bombas sobre o Iraque não é a solução”, porque “os problemas que alimentam esta guerra são os que estão ligados à governação, à política de inclusão [da população árabe sunita] que o governo iraquiano tem de enfrentar”, para além do perigo de formar uma nova geração de desesperados, que alimentem a recruta do ISIS.

 

  1. Tudo somado, “o importante é ir para lá”, acredita André Tomé. “Incomoda-me que as pessoas partilhem isto no Facebook, que falem no café, mas não se interessem realmente pela história por trás destes vestígios. Ninguém quis saber quem esculpiu os budas que os taliban rebentaram no Afeganistão. Se continuarmos assim não muda nada. As pessoas chocam-se e tudo segue. Há uma grande falta de curiosidade para saber mais, e a única solução é interessar as pessoas no passado, mostrar que há gente que está a fazer este trabalho.” Nem que seja “fazer registos 3D no Museu de Suleimania, neste momento o segundo mais importante do Iraque, para minimizar os danos, salvaguardar informação, estudar coisas que estão lá e nunca foram estudadas”. Porque “não é apenas um sítio, mas um sítio que pode mudar a forma como vemos o início de uma civilização”, que mostra, por exemplo, “como a história se está sempre a repetir”, até às facturas obrigatórias. “Só não havia sorteio de Audis.”

 

(Púbico, 15-3-2015)

3 comentários a Estar lá

  1. História de vida…que acompanho aqui por Coimbra já faz tempo com o amigo André. Parabéns pelo belo texto (merecido pelo André) da Alexandra e, claro, um forte abraço ao Tomé!

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