O galo da minha aldeia

  1. Acabo de me mudar para uma aldeia onde ouço o cantar do galo ao longo de todo o dia, ora longe, ora perto, está visto que são vários. Também há um sino, talvez para ocasiões especiais porque só o ouvi uma vez, embora a igreja fique já aqui atrás. A escadaria que lá dentro há-de levar ao altar e cá fora leva ao céu é o ponto de fuga de quem sobe a rua perpendicular à minha e ao rio. Volto a ver o Tejo da janela, além das nespereiras e dos telhados, porque esta aldeia está no centro de Lisboa.

 

  1. A minha casa é um pequeno primeiro andar de um pequeno prédio oitocentista. Negros ainda eram propriedade de brancos lá no Brasil quando foi cortada a pedra que hoje, muitas obras depois, separa a sala da varanda. Difícil não pensar nisso sendo tão vizinha do antigo poço para o qual, no começo da escravatura, eram atirados os cadáveres dos negros, a bem das epidemias. A morada gravada nas esquinas evoca essa memória com uma súbita clareza, do ponto de vista de quem se afastou, e portanto vê de novo. Volto a Lisboa após mais de quatro anos a morar fora, quase sempre no Rio de Janeiro, onde a herança da escravatura portuguesa acabou oficialmente em 1888, e não oficialmente, de várias formas, continua por acabar.

 

  1. Uma cidade muda assim consoante de onde vimos. Também o Cristo-Rei nunca me parecera tão perto, e um boneco. Ao mesmo tempo achei que vê-lo o tempo todo, porque toda a casa é praticamente a varanda, era um sinal para enfim acabar um livro interminável que roda aos pés do Cristo-Redentor, lá no Rio de Janeiro.

 

  1. Além dos galos, gatos miam nos telhados, por cima de um canône de escavadoras, britadeiras e martelos em casas que estavam podres, mau para acordar tarde, bom para quem morar, e enquanto vier morar gente estamos a salvo dos tuk-tuk. A minha condição para voltar a Lisboa era uma morada sempre à esquerda do Cais do Sodré, do ponto de vista de quem está de costas para o cristo-rei. Comecei mesmo pela extrema-esquerda, ali para os lados da Ajuda, porque a Ajuda tinha jardins, tinha rio, tinha fama de barata e uma boa distância de Alfama. Mas ao fim de uma tarde a deambular continuava a não ter memória, e a memória que me vinha, a cada esquina, era a da aldeia onde agora escrevo, algures entre a Ajuda e o Cais do Sodré. Não cheguei sequer a ver outra casa, apareceu-me logo esta numa meia-noite em que um amigo acordado coincidiu com um senhorio que saíra para comprar tabaco. Então, na manhã seguinte, uma daquelas últimas de Janeiro depois da vitória do Syriza, vi o boneco do cristo-rei mais pequeno do que uma folha de nespereira, como só se vê suficientemente longe de Alfama, e achei que estava tudo certo.

 

  1. Nunca tinha morado nesta parte de Lisboa, mas aos 18 anos vim fazer teatro num armazém das imediações, e isso alterou toda a minha relação com a cidade, deslocando-a de um eixo para outro, para além do que alterou em mim, ainda agora vejo quanto. Vista de uma varanda, em 2015, sim, é uma aldeia de galos, gatos, sinos, mas descendo tanto há merceeiros do Bangladesh como tascas com cabeças da garoupa ou uma ervanária que vende bolo do caco sem sair do lugar desde 1837. E, num raio de dez minutos a pé, portas que dão para velhas tipografias, portas que dão para novas tipografias, alfarrabistas onde numa manhã sem aviso posso ter esperança de perguntar pelas “Memórias de Adriano”, porque de repente preciso de as oferecer a alguém que vai a Roma. Isto depois de tomar café num café tão velho como a Segunda Guerra Mundial, mas onde na cave, agora, se amassam pães de malte e de alfarroba. Bom café ao balcão por sessenta cêntimos, esse luxo que para qualquer lisboeta é banal, em plena Terceira Guerra Mundial, segundo o amigo com que almocei na Graça, antes mesmo de me mudar.

 

  1. Lisboa está cheia de lixo, de cocó de cão, de andaimes sem passagem, de carros em cima dos passeios, de regras de trânsito sem sentido como aquela voltinha que é preciso dar quando se chega ao Largo da Graça vindo do miradouro. Dormi uns dias na Graça enquanto não achei casa, tentando cuidadosamente não descer a Alfama. Todos os dias me cruzava com velhinhas falando para ninguém, curvadas nos passeios, de saco de plástico na mão. Um dia, ouvindo alguém nas minhas costas, achei que me perguntavam algo mas quando voltei a cabeça era só uma velhinha com um saco que parara no passeio porque havia um pedaço de sol e na rua dela não havia sol. Ela dizia, é que na minha rua nunca há sol e ria. Ruas sem sol com roupa estendida quase a bater no chão. E gente no chão, com tudo o que tem, como aquele sem tecto que mudou para a rua do Século, e agora se estende, perpendicular em relação a quem passa, a ler de barriga para cima. O abandono é dos outros, a soberania dele.

 

  1. Luxo para todos: sol em Janeiro, um cacilheiro, Lisboa vista do Ginjal, ou, do ponto de vista de quem acaba de voltar à sua aldeia, um barco com o mesmo nome que o livro que veio do Rio de Janeiro, probabilidade em um milhão também chamada milagre.

 

(Pùblico, 15-2-2015)

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>