O malabarista do sinal vermelho

  1. Foi Luís Fernando Veríssimo quem uma vez falou no malabarista do sinal vermelho a propósito de quem escreve. Estávamos numa FLIP, a festa literária brasileira que atrai milhares de pessoas a Paraty, cabiam-lhe as honras da abertura, e o que ele vinha dizer à plateia, com a gentileza dos verdadeiros tímidos, era que o malabarismo do sinal vermelho não era a praia dele. Pelo menos, por outras palavras, foi o que ouvi.

 

  1. Quem escreve não tem a ver com a expectativa de quem lê e vice-versa, soberania mútua. Entretanto, no intervalo entre um e outro acontecem festas, feiras, festivais, debates, encontros, apresentações, todos esses sinais vermelhos onde quem escreve sua para não deixar cair as bolas, porque o malabarismo não é a sua praia, além de que, enquanto isso, e sobretudo, não está a escrever. Festas literárias & etc têm, em princípio, a boa intenção de levar os livros aos leitores. O dilema, do ponto de vista de quem escreve, é quando essa boa intenção perpetua o mito dos livros inorgânicos, aqueles que certamente se escrevem sozinhos, sem a baixeza da morte que corre sempre um pouco além de quem escreve.

 

  1. Claro que podemos fazer como Pacheco Pereira, ficar com os tantíssimos, infinitos, livros já escritos, que não dependem mais de qualquer organismo vital, quanto mais do estado social. No limite, expulsar da cidade quem escreva hoje, e portanto amanhã. Mas quero dar um exemplo do contrário, porque tanto estamos cá para dizer sim sim sim no meio do não, como não a quem decide onde está o fim.

 

  1. De 21 de Dezembro a 21 de Janeiro estive entre a Sérvia e a Bósnia, a convite do Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões (IC) em Belgrado. O IC tem diferentes modelos de representação e meios consoante os lugares. No caso de Belgrado trata-se de um posto de leitor, com a dupla missão de ensino do português e programação cultural, a partir de duas pequenas salas na cave da universidade local. A primeira contém uma biblioteca de autores de língua portuguesa, convidada de honra na Feira do Livro de Belgrado de 2011, o que incluiu a tradução para sérvio de duas dezenas de livros. O convite que me levou agora lá estreava outra iniciativa, uma residência literária em parceria com a associação sérvia Krokodil. A proposta era passar um mês na região, sobretudo em Belgrado, mas com eventuais extensões à Bósnia, também abrangida pela programação do Centro, para escrever um conto que seria traduzido e apresentado ainda durante a estadia. A remuneração, um pouco abaixo de mil euros, cobria o tempo da residência, a escrita do texto, uma tertúlia com estudantes e um debate no lançamento. Desde a primeira conversa ao telefone, toda a ideia me pareceu tão clara quanto livre, na forma e no movimento. E creio que só de algo assim poderia resultar um texto que, falando dos piores horrores sérvios, foi apresentado antes de mais a sérvios, na Sérvia.

 

  1. Desse conto fez-se uma plaquete com uma tiragem de 500 exemplares fora de mercado, o que significa que o texto tem uma vida além da residência. Mais, há o projeto, depois de uma sequência de residências, de reunir os contos em livro. É possível discutir se, entre o tempo inicial de pesquisa e a fase já de tradução e produção, uns dias não é pouco para escrever algo, para além, claro, de se poder discutir a relevância do resultado, ou se é desejável que haja um resultado imediato. Mas se dou um exemplo pessoal é por poder falar por ele, acentuando o ponto que me parece essencial: como o estado pode apoiar a criação sem coacção, sem propaganda e sem desperdício em malabarismos.

 

  1. Durante décadas, quem escreveu em Portugal ou tinha recursos ou não teve outro recurso. Uns, diplomatas, advogados, médicos, funcionários públicos ou mais ou menos herdeiros, outros passando fome. Seja como tenha sido, quem os ia convidando para aqui e para acolá nunca lhes pagou porque era assim, escrever não era trabalho com que se ganhasse a vida, por excesso, defeito ou princípio. Assim se vulgarizaram os textos não pagos, aos quais já dediquei um par de crónicas, e de que nesta não me ocupo. Mais ainda simples idas, simples falas, simples malabarismos: pois se escrever não é trabalho, andar daqui para ali, falar daqui para acolá menos ainda. Mas em 2015 há um bom punhado de gente que quer ganhar a vida a escrever, e tanto mudou, na multiplicação dos malabarismos, que era bom que pelo menos quem está à frente de dinheiros públicos pensasse em formas de fortalecer a literatura que, idealmente, não contribuissem para acabar com ela.

 

  1. Viver da escrita já é um malabarismo em que quem escreve tenta salvar o tempo do dinheiro para poder escrever. Se depois esse tempo salvo for todo dado a falar sobre os livros que entretanto não estão a ser escritos, nem se escreve nem se ganha dinheiro para poder escrever. Então, por cada cinco câmaras municipais que neste momento estejam a pensar em encontros literários, daqueles que pagam deslocação e estadia a quem escreve, seria óptimo que pelo menos uma pense em residências, em encomendas, em bolsas, em alternativas que permitam a quem escreve continuar a escrever. Daí resultarão livros, textos, ou nada para já, ou nada nunca, dependendo do acordo e de cada um. O fracasso, como o silêncio, é parte da escrita, tantas vezes toda a parte.

 

  1. Disse cinco para um, o que dá sobra bastante para leitores, acho e espero. Que nada do que está atrás se confunda com o encontro entre quem escreve e quem lê, tantas oportunidades extra-mercado, cada vez mais, para isso. E o resto, entre mesas, voltas e passeios, é para dar aos amigos.

 

 

(Público, 1-2-2015)

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