Jugo-nostalgia

  1. O voo Lisboa-Belgrado acabou na véspera de eu deixar Belgrado. Parece que havia um trânsito forte de Belgrado para Lisboa mas não o inverso. É verdade que quando alguém em Belgrado pergunta de onde somos, ah, Lisboa, abre-se uma luz. Belgrado tende a achar-se uma cidade deprimente, o contrário de Lisboa (na imaginação de Belgrado). Nunca tinha estado numa cidade que se achasse deprimente enquanto seduz, sem remédio, quem chega. Belgrado é tão o contrário de uma cidade deprimente quanto o Rio de Janeiro, mas com muito menos ajuda dos deuses, que são todos brasileiros no capítulo da auto-estima. A vibração virá da música (grande música), ou a música vem da vibração, no Rio como em Belgrado. Aparecem-me as duas num mano-a-mano porque vim de uma para outra, do Verão para o Inverno, e Belgrado só foi recuperando dessa desvantagem, numa cronologia de sol, neve, chuva e nevoeiro. Talvez só uma cidade assim pudesse ter sido a capital do comunismo cool. A Jugo-nostalgia é a sua feira da ladra, Tito o seu rei.

 

  1. Também nunca tinha visto um Memorial como o de Tito, em que um ditador fosse descrito com glamour pela democracia que é o seu futuro. Dos fatos Dior aos mais de oito mil filmes que terá visto, ao ritmo de um por noite, Josip Broz Tito sai-se bem do futuro. Há mesmo um filme recente sobre esta cinedependência, em que o projeccionista que a serviu é um dos protagonistas. Além de que Tito fotografava compulsivamente, e mantendo a cigarrilha acesa. Pasmei frente à vitrina em que aparecem as câmaras dele, 35 mm e polaróide. Carambolas, tinha uma SX70 igual à minha.

 

  1. Que o erro é onde a sorte está, canta Rodrigo Amarante nos céus entre Belgrado e Lisboa, de onde escrevo esta crónica, exactamente um mês depois de ter voado na direcção contrária. Ou a sorte é onde o erro acerta? Os primeiros dias que passei em Belgrado troçavam do Inverno, céus dourados, verdes prados no Memorial de Tito. Consegui antecipar-me à multidão de gregos que também subia a colina (embora os campeões da Jugo-nostalgia sejam os eslovenos, excursões e excursões, explicaram-me). É a mesma colina onde Tito passou os últimos anos, antes de morrer em 1980. Ergueram-lhe uma espécie de jardim de Inverno, conhecido como Casa das Flores. O visitante entra pelo Museu de História da Jugoslávia, segue para a Casa das Flores, onde está o túmulo, e pode visitar ainda o velho museu que aloja os presentes oferecidos ao mito, dos confins do Montenegro à Etiópia. Tudo isto cercado por bosques e a uma distância estratégica da malha urbana. Belgrado aparece em fundo, numa espécie de fumo, aos pés de Tito.

 

  1. Não só o prado está verde como há rosas vermelhas ao longo do caminho que leva ao túmulo, esculturas de moças carnudas e desnudas e, imponente, em ferro, o próprio Tito, nas suas vestes de Marechal, um passo à frente do outro, braços atrás das costas, fronte curvada em profunda reflexão. Se agora o visitante voltar a cabeça na direcção de Belgrado, vai vê-lo num grande painel fotográfico que decora as traseiras do museu, a desfilar em carro aberto, papelinhos. E, no painel do lado, Tito como anfitrião de Richard Burton (fase António & Cleópatra). Só estilo.

 

  1. Entrando na Casa das Flores, o túmulo está ao centro, mármore branco, letras de ouro, plantas em volta. É preciso recuar para ver, em plano secundário, o túmulo de Jovanka Broz, a mulher que foi viúva durante 33 anos, porque só morreu em 2013. Em Belgrado correm histórias de como Jovanka, suspeita de conspirações, foi deixada a uma quase miséria, uma quase-prisão domiciliária, herdeira de nada, à semelhança, aliás, dos filhos de Tito (com mulheres anteriores). Segundo a Jugo-nostalgia, Tito amava o luxo mas não a propriedade. Pelo menos não a ponto de ter o que deixar aos filhos. Viveu para o usufruto.

 

  1. E que usufruto. Do Taj Mahal a Luxor, pirâmides do Cairo, e de Teotihuacan, estrelas de Hollywood, rubi na gravata, linhos, sedas, écharpes: Tito viajou, Tito recebeu, Tito, o Não-Alinhado, não era nem URSS nem EUA. O Memorial mostra tudo isto em vitrinas cheias de objectos e fotografias, sem esquecer os bastões que todos os anos os jovens atletas entregavam ao presidente, depois de calcorrearem a Jugoslávia, género estafeta, chama olímpica, de mão em mão. E uniformes, smockings, cartolas, sapatos, chapéus. Os egípcios também enterravam assim os seus reis, metendo tudo dentro da câmara funerária.

 

  1. Nessa tarde já não tive tempo de ver os dois museus. Voltei então na véspera de Ano Novo, quando o frio caíra uns 20 graus, nevara sobre Belgrado e toda a colina era agora branca, incluindo o anfiteatro ao ar livre onde, no Verão, acontece um festival de literatura. A exposição em destaque no Museu de História da Jugoslávia tinha uma pergunta no título: “They never had it better?” Jugo-nostalgia no seu melhor, suma retro do quotidiano entre 1950 e 1980, dos telefones às mesas de fórmica, das férias na neve (Bósnia, Sérvia, Montenegro, Eslovénia) às praias da Croácia, cartazes do 1º de Maio de 1974 que podiam ter saído das mãos de Andy Warhol, os eletrodomésticos domésticos, orgulho da produção nacional, tanto quanto o mítico Fića da Zastava, essa versão jugoslava do Fiat 600 que agora se vende como estampa de t-shirts.

 

  1. Subindo para o velho museu, o nome de Tito aparece bordado em toalhas, em almofadas, em meias de lã tricotadas nos quatro cantos da Jugoslávia. Não era uma falsa devoção, era uma devoção. E a cada nono filho, o ditador tornava-se padrinho. Os amigos que me deixaram no museu voltam para me apanhar, descemos pela neve para um café. Ela, que nasceu depois da morte de Tito, conta como em criança ainda cumpria o luto pela sua morte. Ele, que era adulto na morte de Tito, conta que, quando a Jugoslávia se desfez num dominó de guerras, a neta de Tito foi para o cerco de Sarajevo e ficou lá durante três anos, a trabalhar como médica. É uma bela manhã de neve, a última de 2014.

 

 

(Público, 25-1-2015)

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