Gaza-Sines-Brasil

1. Sete tirinhas de Skype no telefone: “Desculpa não ter respondido mais cedo, quando não é o problema da electricidade é o problema da Internet / estamos bem querida / hoje o cessar-fogo começou às 7 da manhã / vai acabar daqui a uma hora e meia / consegui trazer água e comida / toda a gente manda amor e respeito”. Ayman Nimer, de Gaza para Sines, sábado, 26 de Julho, último dia do Festival Músicas do Mundo.

 

2. A última vez que me lembro de estar em Sines foi numa noite deste festival, há uns 15 anos. Antes disso, Sines era o Al Berto, mas nunca estive lá com ele, nem de dia. E antes ainda, era a petroquímica, chaminés, aquele cheiro quando se ia de Lisboa para o Algarve e a viagem demorava um dia, por alturas do 25 de Abril ou ainda antes de eu entrar para a escola, quando morei um ano em Santiago do Cacém.

 

3. Este Verão tive a sorte de ser paraquedista. O apache que dirige o festival resolveu incluir na programação duas sessões sobre livros, uma com o Afonso Cruz, outra comigo, o que fez de mim a única pessoa com uma pulseira de participante que não tinha uma banda, porque além de ter publicado 15 livros (30, contando com as ilustrações), ser pai de família, um encanto de pessoa, morar no Alentejo e desenhar, o Afonso compõe, canta, toca guitarra, harmónica, ukelele e actuou em Sines com a sua banda. Já eu, bem vi a cara do alentejano no bar dos artistas quando lhe pedi uma água. A pulseira não o enganou por um segundo: “Atão tem alguma banda?”

 

4. O apache que dirige o festival chama-se, claro, Carlos Seixas. Índio de Viseu e não do Texas, confidenciou-me o livreiro local ao jantar. Éramos 17 à mesa, incluindo a banda do Afonso, The Soaked Lamb. Belo nome, disse eu, mas o Afonso diz que não, porque as pessoas não pensam logo em ensopado de borrego. Já o apache de Viseu-Texas não estava presente para confirmar as suas origens, porque basicamente tinha cerca de 30 mil pessoas às costas.

 

5. Fiquei impressionada com a multidão que lota o festival, sobretudo os faquires rastafaris que levitam acima dos perigos, numa nuvem de marijuana. Alguém na Jamaica viu o futuro, e o futuro era Sines: belas raparigas com testas tatuadas e plantas dos pés de um negro imemorial; belos rapazes mais leves que todo o volume das rastas, empoleiradas na nuca, como um polvo de lã. São um povo preferencialmente descalço, com vocação para transportar a sua própria casa, e armá-la em qualquer passeio. Mas em Julho, em Sines, atravessam e são atravessados pelos outros povos, fãs de uma noite ou do pacote, viajantes, praieiros, famílias, betos, até.

 

6. O livreiro de Sines é o Joaquim Gonçalves. Foi ele quem me recebeu, para a fala de sábado, acabada de sair da toca. Achei que ia estar toda a gente na praia, mas havia gente vinda do Norte e do Sul com perguntas sobre Gaza, sobre o Brasil, uma Maria muito bonita com o contacto de um português fazedor de barcos em Pernambuco, que também anda descalço, até já andou nu. Sines tem uma costela pernambucana, quando o apache Seixas me ligou a primeira vez falou logo do Cordel do Fogo Encantado, banda que já esteve no festival e sobre a qual eu escrevera por causa do meu vizinho agricultor que lê Agamben. Ter costelas assim pelo mundo, Irão em palco numa noite, Israel na outra, depois dançar com o Benim, é política a longo prazo, porque o esquisito é sobretudo esquisito ao longe. Atalhando, quando depois da fala eu e o Joaquim conseguimos enfim chegar ao castelo já os Soaked Lamb iam a meio da festa, e aquela voz de bluesman era mesmo o Afonso Cruz: chapéu. Escrever é ok, mas todos queremos é ser o Lou Reed.

 

7. Entre os Soaked Lamb e o jantar dos 17, o Joaquim levou-me à livraria dele, com a cara de Al Berto à entrada, uma cara de rapaz no Verão, do tempo em que Sines era uma aldeia e se ia à boleia pela Europa. Além das novidades, a livraria tem fundos bastantes para fazer acontecer a feira do livro na capela quinhentista junto ao castelo, onde acabámos por encontrar o Luís Henriques, da Homem do Saco, que veio compôr cartazes artesanais, como as edições que eles continuam a fazer em Lisboa. Um cartaz, uma banda, peças únicas. Joaquim conheceu Luís, Luís conheceu Joaquim, ponto para a guerrilha. Estamos a falar do livreiro que ganhou o prémio de melhor atendimento em todo o país, e durante o festival atende neste altar sacro-profano, livros, discos e talha dourada.

 

8. Domingo de manhã, havia tendas em qualquer canto de Sines. Uns burgueses, comparados com aqueles que ainda não tinham dormido, ou simplesmente dormiam no passeio. Já em direcção a Alcácer, bem antes de aparecerem cegonhas e arrozais, alguém deixara cair o enxoval na estrada, panelas, pratos. Bom momento para aquele samba de Nelson Cavaquinho que sempre me deixa a saudade aguda de certo sábado no Rio de Janeiro, quando passavam 100 anos sobre o nascimento de Nelson Cavaquinho, e com a sua elegante voz de baixo o cavaquinista Gabriel Cavalcante lançou: “Tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor…” Foram estes versos que a banda de Afonso Cruz cantou ao poente no castelo, coincidindo com as sete tirinhas vindas de Gaza e a melancolia de quem ali em Sines pesava o que queria e não queria, luxo maior de estarmos vivos.

 

(Público, 3-8-2014)

4 comentários a Gaza-Sines-Brasil

  1. E ainda lembrou o Cordel do Fogo Encantado!
    Vai um aplauso ao texto, ao festival, e a solidariedade possível a todos os oprimidos por bombardeios, toques de recolher e o cessar de um fogo que é sempre iminente; daqui do interior de São Paulo, interior do Brasil, território da Mata Atlântica. (Lou Reed é ok, mas todos queremos ser o Iauaretê.)

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